Escreve-se bem por aí. Textos soltos, autores ‘anónimos’, gente sem palco. Podem dizer-me que hoje ‘toda’ a gente escreve ou pinta, ‘toda’ a gente bota palavra, que todos têm o seu minuto de fama. E porque não? Será bem melhor assim que apenas alguns poderem fazê-lo. Nestas coisas, sou sempre mais de deixar pecar por excesso que por defeito. É do muito que se apura o pouco e o melhor. Que se escreva e pinte por aí, desde que se não borre a pintura. E, porque quem canta seus males espanta, então que se dê voz também, a todos os que acham que têm jeitinho para a coisa. E depois, haja quem escolha. Uns, poetas de tantos sonhos, rimarão caneta com gaveta, que será onde ficarão fechadas a sete chaves, todas as suas obras-primas. Não as expõem, não se expõem, mas para eles, promissores ‘Carlos Tê’, serão sempre, os melhores da cantareira. Outros, em bicos dos pés, esperando que alguém os veja, pintam grosso, escrevem torto e lá cantam em clave de sol, por vezes fazendo dó. Mas fazem o que mais gostam e nada tem mais valor do que tal. E entre frustrados poetas, pintores adiados ou cantores sem diapasão, brotam alguns que sem que ninguém dê por isso, escrevem como tão poucos, pintam como ninguém, ou cantam como rouxinol em dia de primavera. Pouco se mostram, quase que se não vêem, vivem na sombra ou na penumbra do seu talento, encobertos pelo tempo, traídos pelo modo, diluídos no espaço.
Talvez não seja este o seu tempo. Porque não querem, porque não podem, ou porque os não deixam. Também não será este o seu modo. Porque os não deixam, porque não querem, ou porque não podem. E não terão aqui o seu espaço. Porque não podem, porque os não deixam ou, quem sabe, talvez porque também não queiram. Mas esses, os que escrevem em noite de lua cheia, que pintam quando o sol se esconde, que cantam quando o galo se deita, serão sempre os que farão a diferença. Os tais, muito poucos, entre, muitos, tantos, tantos. Mesmo que ninguém os leia, que ninguém os ouça, que ninguém os veja.
