São muitas as famílias que decidem dar voz e som ao gosto musical através de aulas, bandas ou simplesmente com pequenos concertos para os mais próximos em datas simbólicas. Alberto Elias, 71 anos, e as duas filhas, Ana e Sara, nascidas em 1974 e 1981, materializaram a paixão pela música de carrilhão de forma diferente. Compraram um. A solução podia parecer simples se não estivéssemos a falar de um instrumento musical que custa cerca de meio milhão de euros e pesa mais de dez toneladas.

O LVSITANVS é atualmente o maior e mais pesado carrilhão do mundo e nasceu de um projeto da associação CICO – Centro Internacional do Carrilhão e do Órgão, fundada no concelho de Constância em 2011 por Alberto, Ana e Sara Elias.
A ideia surgiu quando Ana e Sara faziam a sua formação musical em carrilhão na Bélgica, onde existe a maior concentração destes instrumentos musicais antigos na Europa, e fazia todo o sentido no nosso país devido às condições climatéricas favoráveis para concertos ao ar livre. A criação e coordenação técnica dos três elementos da família no Carrilhão dos Pastorinhos em Alverca, o mais recente do mundo inaugurado em maio de 2005, acentuou o desejo de libertar a música do cimo das torres de igrejas e conventos e torná-la itinerante.
O processo acabaria por se revelar moroso. Desdobraram-se em pedidos de patrocínio e apoio, ouviram muitos “nãos”, mas não desistiram. O tempo trouxe-lhes alguns investidores, os fundos comunitários do PRODER, o primeiro lugar do Prémio Milénio Sagres-Expresso (2004) e a confiança do município de Constância. As diversas etapas são contadas nos 63 sinos que compõem o único carrilhão itinerante da Península Ibérica com gravações das entidades apoiantes e patrocinadoras do projeto, lado a lado com nomes de pessoas que marcaram as vidas dos seus fundadores, como o padre que casou Alberto ou a professora de música de Ana e Sara.
O LVSITANVS, fabricado pela empresa holandesa Royal Eijsbouts e parte de uma tradição musical com mais de 500 anos, acaba por se assumir como uma obra biográfica desta família portuguesa do século XXI e um “legado” que Alberto quer deixar no panorama musical português.
As vidas dos quatro, deles e do carrilhão, ecoam de cada vez que Ana e Sara atuam com o Duo LVSITANUS, o único grupo de irmãs carrilhanistas, ou nas aulas de carrilhão com as duas alunas da escola de música da CICO, Carolina de 17 anos e Adriana, com 14 anos.

Música com História num projeto com o objetivo de perpetuar a arte impulsionada em Portugal por D. João V, no ano de 1730, quando mandou construir os carrilhões do Convento de Mafra.
A conversa descontraída com a família decorre durante a preparação das Festas de Nossa Senhora da Boa Viagem que começam no dia 26 e se prolongam até segunda-feira. O carrilhão em Fá com os seus 63 sinos estará estacionado na margem do rio Zêzere durante todo o evento e além dos concertos pontuais ao longo dos três dias, estará em destaque em dois espetáculos com Rosemarie Seuntiens. No sábado, o concerto está agendado para as 22h45 e na segunda-feira será acompanhado por fogo-de-artifício a partir da meia-noite.

Não se fala apenas de passado. Fala-se de presente e de futuro, começando pela trilogia música, engenharia e gestão. Esta fusão aparentemente improvável revela-se fundamental na existência do carrilhão. À carreira profissional de Alberto ligada à Engenharia Mecânica, juntam-se os mestrados em Engenharia Geológica e de Minas de Ana e em Gestão de Sara, que ambas acumulam com os mesmos graus académicos em Carrilhão obtidos na Bélgica e nos Estados Unidos, respetivamente. A experiência acumulada dos três elementos da família tem sido reconhecida no território nacional e no estrangeiro em concertos, prémios e conferências.
Levar a música de carrilhão às pessoas implica paixão e conhecimentos técnicos que garantam a continuidade do projeto, mas também de mais apoios e patrocínios ao nível da divulgação e da logística. Quase três séculos depois do devaneio de D. João V no valor de “quatrocentos mil réis” em adquirir dois carrilhões por achar que um não era digno da dimensão do reino, este tipo de música continua a ser associada às elites, limitando a aderência do público e o interesse das entidades públicas e privadas em investir nos espetáculos.

Os apoios são mais do que bem vindos, nomeadamente para assegurar a manutenção dos sinos, da consola, da estrutura, do semi-reboque e do trator. As despesas oscilam entre um simples tubo de vaselina purificada aos quinhentos euros de combustível sempre que é necessário abastecer o camião que transporta o carrilhão itinerante.
A história que começou quando Ana foi levada ao médico com seis anos de idade, porque preferia as obras da Antena 2 em vez do “Atirei o pau ao gato” e este lhe receitou aulas de música, transformou-se no maior e mais pesado carrilhão do mundo. Sara recebeu o mesmo “remédio” aos quatro anos e, se os genes tiverem tendência a apurar-se, o pequeno músico (ou música) que já ouve os sinos na barriga de Ana terá a mesma prescrição muito antes.
O LVSITANVS faz parte da família Elias e, mais do que um projeto ambicioso, representa a persistência em tornar um sonho realidade e a missão de partilhá-lo com quem esteja disposto a recebê-lo.


Bom dia.
Só hoje, através da RTP2, tomei conhecimento da existência desta fabulosa família e do Lusitanus.
Há aspectos no carácter e na vida das irmãs Ana e Sara que muito nos fascinaram, à minha Mulher e a mim.
Vivemos em Cascais mas temos um retiro na floresta no Alentejo, perto da Barragem de Campilhas. Perto dessa barragem existe uma casa que tem um carrilhão construído ao longo de uma grande parede, com alvéolos para os sinos. Não sei como é operado e só conheço o carrilhão por o ir ver fora de portões. A casa é situada num local isolado e pertence a um casal canadiano com quem nunca nos cruzámos.
Toda esta conversa é para perguntar: sabe dizer se estas pessoas têm relação com a Família Elias ?
Ficaria grato por uma resposta.
F. Pedro Nunes