Ricardo Alves a receber o reconhecimento por carreira brilhante no II Grande Prémio de Atletismo de Tramagal. Foto arquivo: Jorge Santiago

Durante 26 anos, um nome manteve-se preso à história da velocidade portuguesa. Ricardo Alves, atleta do Tramagal Sport União, viu agora a sua marca ser ultrapassada por Pedro Afonso (Benfica), que no V Meeting Cidade de Évora – Memorial Ricardo Ribeiro, correu os 100 metros em 10,33 segundos (+2,0 m/s), retirando seis centésimos ao recorde nacional sub-20 que resistia desde o verão de 2000.

Mais do que uma mudança de registo estatístico, a queda do recorde encerra um ciclo longo no atletismo português e reabre a memória de um tempo em que um jovem residente em Malpique, Constância, com apenas 19 anos, colocou o nome do Tramagal no topo da velocidade nacional.

A história desse número começa em Braga, no Campeonato Nacional de Juniores de 1999. Num contexto em que o atletismo português ainda vivia com pistas de cinza e condições muito diferentes das atuais,

Ricardo Alves deteve durante 26 anos o recorde nacional dos 100 metros juniores, título que conquistou pelo Ttramagal Sport União. Foto: RA

Ricardo Alves surpreendeu ao correr os 100 metros em 10,39 segundos, batendo o anterior máximo nacional de Luís Barroso e lançando um registo que, à época, poucos imaginavam que pudesse durar mais de duas décadas.

“Lembro-me que o meu treinador me disse que ia acontecer e eu disse-lhe que não devia estar bem. Mas saiu. Foi uma alegria enorme para toda a equipa do Tramagal”, recorda hoje o antigo velocista, ainda com surpresa na forma como tudo aconteceu.

O impacto não ficou por aí. Uma semana depois, no Meeting de Santo António, Ricardo Alves voltou a repetir exatamente o mesmo tempo, confirmando que não se tratava de um acaso.

“Bati duas vezes o recorde nacional, exactamente com o mesmo tempo. Foi espetacular”, sublinha, valorizando um momento que marcou não só a sua carreira, mas também a história do clube do concelho de Abrantes.

Na altura, o Tramagal Sport União vivia um período raro de projeção no atletismo nacional. Com uma estrutura modesta, mas uma geração de atletas competitiva e uma estrutura de treinadores dedicada, o clube enfrentava regularmente os grandes emblemas do desporto português, como Benfica, Sporting ou FC Porto, num cenário onde o talento individual muitas vezes compensava a falta de meios.

“Entrar em pista com a camisola do Tramagal era um orgulho enorme. Depois era especial porque competíamos contra os grandes clubes, e por vezes conseguíamos estar na frente deles”, recorda Ricardo Alves, sublinhando o peso simbólico que o clube tinha na sua motivação.

O contexto competitivo e material da época ajuda a explicar a dimensão do feito. Treinos em pista de cinza, menos recursos técnicos e uma realidade distante da profissionalização atual tornaram o registo de 10,39 segundos ainda mais expressivo.

O próprio atleta reconhece que, na altura, não havia perceção da longevidade que aquele número viria a ter.

“Nunca. Nem pensar. A evolução do atletismo é muito grande, mas ainda bem que aconteceu” [um noco recorde], refere, admitindo que não imaginava que a sua marca pudesse resistir durante 26 anos.

Ao longo da carreira, Ricardo Alves viria ainda a alcançar outros resultados de relevo, incluindo a presença no Campeonato do Mundo de Juniores em Santiago do Chile, onde terminou no sexto lugar da final dos 100 metros, consolidando-se como um dos nomes mais promissores da velocidade portuguesa da sua geração.

Ricardo Alves no Campeonato do mundo do Chile, de juniores. Foto: RA

A carreira inclui também um episódio menos conhecido, mas significativo: uma marca de 10,32 segundos alcançada em Roma, numa prova internacional inserida num evento de grande dimensão, onde correu para o Papa, a convite do Vaticano, num Olímpico de Roma repleto de público.

No entanto, esse resultado nunca foi homologado pela Federação Internacional devido à ausência de um medidor de vento no local, fator determinante na validação de recordes de velocidade.

“Não havia medição de vento. Eu senti que não havia vento nenhum, mas não foi homologado. Fica a experiência”, explica, acrescentando que, na prática, esse tempo seria hoje suficiente para manter o recorde nacional.

Ricardo Alves no Estádio Olímpico de Roma. Foto: RA

A notícia da queda do seu registo, agora ultrapassado por Pedro Afonso, foi recebida com naturalidade, mas também com emoção. “Fiquei com muita nostalgia. Disse logo à minha mulher”, contou, com as memórias de Braga a aflorarem na mente.

“Lembro-me perfeitamente daquela corrida, da alegria de toda a gente”, confessa, sublinhando que o que mais permanece não é o número, mas o contexto humano à sua volta.

“Foi um ano maravilhoso. Ainda hoje me lembro de tudo como se fosse ontem.”

Pedro Afonso bateu um recorde nacional de velocidade que demorou 26 anos a cair. Foto: SLB

Mais do que o tempo ou o recorde, Ricardo Alves destaca sobretudo a ligação ao Tramagal Sport União, clube que marcou profundamente a sua identidade desportiva e pessoal. A ligação à terra e à camisola é algo que, passados mais de 20 anos, continua a assumir um papel central na forma como olha para o passado.

“Era tudo. Entrar em pista com o símbolo do Tramagal era um orgulho enorme. E depois havia também o facto de competirmos contra Benfica, Sporting e Porto. Isso dava-nos uma motivação extra”, refere.

O antigo velocista recorda ainda o impacto da receção da comunidade após os grandes resultados internacionais, num momento que considera um dos mais marcantes da sua vida desportiva. “Subi ao palco nas festas do Tramagal e fui aplaudido por toda a gente. Vou lembrar-me disso para o resto da vida.”

Hoje, afastado da competição, Ricardo Alves observa a evolução da modalidade com um olhar simultaneamente crítico e otimista. Reconhece que o atletismo perdeu quantidade, mas ganhou capacidade de deteção de talento e profissionalização do treino.

“Hoje há menos atletas, mas mais capacidade de identificar talento. O essencial continua a ser o mesmo: trabalho, sacrifício e ouvir o treinador”, afirma, deixando também uma mensagem às gerações mais novas.

“Muita rua, muito gosto pelo que se faz, ouvir o treinador e nunca pensar que se sabe tudo. Trabalhar, trabalhar, trabalhar.”

Ricardo Alves no Campeonato do mundo do Chile, de juniores. Foto: RA

A queda do recorde de 10,39 segundos encerra assim um ciclo de 26 anos na velocidade sub-20 portuguesa. Mas, mais do que o fim de uma marca, representa também a continuidade de uma história que liga gerações diferentes de atletas.

No Tramagal, o nome de Ricardo Alves permanece associado a um dos momentos mais altos da história desportiva do clube da borboleta. E na velocidade portuguesa, o seu registo continua a fazer parte da memória coletiva de uma geração que correu com menos condições, mas deixou marcas que o tempo demorou mais de um quarto de século a bater, mas não a esquecer.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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