Entrada de touros na Chamusca. Fotografia: Arquivo CMC

É assim todos os anos, a meio da primavera. Ao fim da manhã, em Quinta-feira de Ascensão, toda a Chamusca se concentra ao longo da Rua Direita para ver a entrada de touros.

Do Areal até à Praça, há milhares de pessoas, muitas delas vindas de fora, à espera que apareçam os touros, conduzidos pelos campinos e enquadrados pelos cabrestos, que hão de atravessar a vila em rápida desfilada. São apenas uns minutos, muito poucos. Mas é muita a emoção. E parte dela, a maior, é do efémero que vem. Está a gente aqui, horas e horas à espera, o pescoço estendido a ver se vê vir os touros, e eles tardam, virão mais daqui a pouco, por agora ainda não.

Até que a multidão se agita, há os que correm a proteger-se, outros que se chegam mais à estrada onde os touros vão passar, para os sentirem mais ao pé. E aí vêm agora, rua fora a toda a brida, enfileirados a preceito. Há sempre alguém mais afoito que desafia os animais, tentando fixar-lhes a atenção e desviá-los do caminho, em busca de uma emoção maior. E há os que correm com eles, lado a lado, por uns metros, que não há pernas humanas, por muito lestas que sejam, capazes de acompanhar o galope desta entrada.

O que acontece nesse dia, antes de se ir almoçar, é verdadeiramente mágico, quando o campo invade a vila, e a força da natureza, na forma de touros em pontas, percorre o espaço dos homens, desafiadora, ao alcance da nossa mão.

A vertigem é intensa e passageira. É forte porque passa depressa. De repente a multidão vira o pescoço para o outro lado, fitando a direção da Praça. Ainda agora aí vinham os touros, os cabrestos e os campinos a cavalo e já tudo aí vai, em acelerada corrida, Rua Direita adiante. Para o ano, cá estaremos outra vez!

Entrada de touros na Chamusca. Fotografia: Arquivo CMC

Há muitos milhares de anos que o touro exerce sobre o homem um irresistível fascínio. Símbolo da força, do poder e da fertilidade, o touro sempre foi encarado com admiração e respeito. E sempre constituiu um desafio tentador. Caçá-lo, na pré-história, era sinónimo de alimento abundante para vários dias. Enfrentá-lo e vencê-lo, nas corridas do nosso tempo, é uma forma de domínio simbólico da natureza que o próprio toiro representa.

A relação com os toiros é parte importante da cultura destas terras da Borda-d’Água. Há séculos que aqui se criam touros, não apenas para as corridas mas também para as tralhoadas, quando, antes das máquinas, o trabalho do campo se fazia a poder de braço humano e de pujança animal e os touros bravos eram amansados para os sujeitar à canga e lhes aproveitar a força inigualável.

Havendo acontecimentos semelhantes noutras terras portuguesas, nenhuma entrada de touros é mais conhecida do que a da Chamusca e há cada vez mais gente – aficionados, turistas, curiosos – que querem viver este espetáculo único.

Tradicionalmente, a entrada de touros na Chamusca, em Quinta-feira da Espiga, fazia-se com os animais que iam ser corridos nessa tarde na praça da vila. Até aos anos 40 do século passado, os touros entravam por baixo, como acontece agora, vindos do campo, do lado da Lagarteira, e seguindo Rua Direita fora até entrarem na praça. Depois houve um tempo em que entravam por cima, sendo conduzidos pelos campinos até ao Bonfim, de onde desciam, a caminho dos celeiros que havia ao pé da estrada e daí até à praça. Nos últimos anos retomaram o percurso primitivo, do Areal até aos curros, mas sem que isso signifique que sejam corridos nessa tarde.

Se a Ascensão é a festa grande do concelho da Chamusca, a entrada de touros é um dos seus momentos altos e mais afamados na região e no país. Havendo acontecimentos semelhantes noutras terras portuguesas, nenhuma entrada de touros é mais conhecida do que a da Chamusca e há cada vez mais gente – aficionados, turistas, curiosos – que querem viver este espetáculo único. Espetáculo que começa várias horas antes, com o contínuo chegar das pessoas que se amontoam ao longo da rua, vai crescendo à medida que se aproxima a hora da entrada e atinge o auge durante os escassos minutos em que o acelerado tropel percorre a rua principal da vila.

“Tivesse a Chamusca um Hemingway que lhe desse maior projeção e a sua entrada de touros seria tão famosa ou mais do que o encierro de Pamplona”

O que acontece nesse dia, antes de se ir almoçar, é verdadeiramente mágico, quando o campo invade a vila, e a força da natureza, na forma de touros em pontas, percorre o espaço dos homens, desafiadora, ao alcance da nossa mão. Há uma onda de entusiasmo e de emoção que segue a correria dos touros. E muitos aficionados, de camisola branca e fita encarnada ao pescoço, que estendem a mão a provocar a investida. 

Tivesse a Chamusca um Hemingway que lhe desse maior projeção e a sua entrada de touros seria tão famosa ou mais do que o encierro de Pamplona.

Ascensão na Chamusca. Fotografia: José Neves

Momento grande de festa, a entrada de touros é um acontecimento colorido, vistoso, empolgante, gerador de entusiasmos e audácias. Às vezes, infelizmente, há quem pise demais o risco, e já têm havido colhidas com alguma gravidade.

Quem vê uma vez a entrada gosta sempre de repetir. Porque não há duas iguais. E porque nesse dia, naquela rua, entre o Areal e Paio de Pele, há qualquer coisa que passa cruzando a vila num repente. É a natureza à solta, desfilando a toda a brida, que nos enche os olhos de espanto e a alma de emoção.

Texto adaptado do originalmente publicado pelo autor no livroOs Abrigos da Memória”, editado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012.

António Matias Coelho

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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