Amadeo de Souza-Cardoso, pintura de 1917-18, capa da Colóquio Dezembro 1968

Janeiro é mês de juras e algumas promessas. Prometem-se as de eterno amor conjugal, porque desta vez é que é, desculpa qualquer coisinha. As dos filhotes que juram agora estudar como nunca o terão feito. Irão subir as notas, mesmo àquela disciplina da prof que, sabe-se lá, embirrou com eles e não suporta vê-los com um iPhone melhor que o dela. Dor de cotovelo é o que é. Que em vez de ensinar se limita a ler o que está escrito, que não responde a pergunta alguma, que se queixa de tudo e de todos, dos colegas e do ministro, do horário e do barulho, da progressão da carreira, da dela e da camioneta que não progridem mais do que aquilo, devagar, devagarinho.

E das promessas do político que baixa a dívida mas sobe a dúvida, cria emprego e expectativas. Que atrai turistas, artistas e outros malabaristas. Do chefe que irá promover: as pessoas e o bolo-rei, que vai tudo para o cartão. Das promessas no progresso: viagens low-cost a Marte, a um soturno Saturno e, porque não, até Plutão? Da medicina dos milagres. Das curas para todos os males. Dos laboratórios de ponta às mezinhas do faz de conta. Da esperança média de vida, para além da réstia de esperança… na morte. Daqueles para quem viver, já custa mais que dormir.

E das promessas na justiça. Entre a presunção da inocência e a suposta prepotência. Dos advogados do diabo, dos juízes e magistrados, das fugas de informação. Levante-se o réu, pois então. Que o tempo dalguns senhores não se mede em relógio suíço. Alimentem-se os processos, criem-se dificuldades para que se vendam facilidades. Mas se Direito não é Justiça, que se faça justo o Direito. Em tempo útil e sem espinhas. Que as aparências iludem e as conveniências confundem.

Enfim, com tanta e tanta promessa, vai ser um ano perfeito. Assim as cegonhas regressem, os jacarandás floresçam e os rios afluam ao mar. Se ainda houver conforto nos ninhos ou água para que as flores não murchem. E tempo para que as crianças sorriam.

Por mim, prefiro não prometer. Porque o prometido é devido. E as promessas costumam ser como o sol de pouca dura. De resto, as de ano novo, mais não passam de falsas juras, impulsos de calendário, agendas virgens ou descargos de consciência.

Eu cá me fico por uns livritos. Vou tentar ler mais alguns. Dos pequenos grandes livros. Que dos outros, dos que vendem que se fartam, mas que fartam e pouco dizem, deixo-os para outras mãos.

E tentarei continuar a escrever. Porque a escrita incomoda, mas acomoda. Desassossega, mas aconchega. E, como sempre, mais monge que missionário, ficarei pelo meu ‘convento’, escrevinhando sempre que possa, um pé aqui outro acolá, algures, numa aldeia do Ribatejo.

Sem promessas. Porque se o prometido é devido, duvido que alguém as cumpra.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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