1898 – Paisagem rural em tempo de primavera, com casario. Óleo sobre tela

Uma crónica sobre pintura e de homem ribatejano. Temos obras que nos contam histórias e que são registo de memórias. Os leitos dos rios, as árvores, e as ervas que lhe bordam as margens, os casarios, as serras, os vales e os caminhos de pedra que animais e pessoas percorrem a custo, paisagens que nos revelam o amor devido às coisas vivas e à natureza. Vila Nova da Barquinha, Santarém e os Ribatejanos só se podem sentir orgulhosos de ter este vulto incluído no mais alto patamar da arte pictórica em Portugal, não será exagerado dizê-lo.

Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol.” – Pablo Picasso.

Alfredo José Torcato Pinheiro, filho legítimo de António Maria Torcato Pinheiro, com a profissão de delegado do Tesouro, e de Maria Cândida das Almeida Pinheiro, doméstica, nasceu em Santarém no dia 23 de outubro de 1850 e veio a falecer em Vila Nova da Barquinha, no dia 12 de fevereiro de 1910, no estado de solteiro, deixando um filho, conforme atesta o seu registo de óbito: “Registo n.º 6 – Alfredo José Torquato Pinheiro – Aos doze dias do mez de Fevereiro do anno de mil novecentos e dez … nesta vila, freguesia e concelho de Vila Nova da Barquinha, patriarcado de Lisboa, falleceu, sem testamento, um individuo do sexo masculino de cinquenta e nove anos de idade, general de infantaria, natural da freguesia de São Nicolau, da cidade de Santarémdeixou um filho … O prior João Ferreira do Rosário”.

O seu único filho era médico militar, que aqui prestava serviço militar no Polígono de Tancos, pelo que Alfredo José Torcato Pinheiro faleceu em sua casa na Barquinha e aqui ficou sepultado.

Auto retrato do pintor. Óleo sobre tela

Contemos uma parte da sua vida…

Tendo concluído os seus estudos militares, na Academia em Lisboa, arma de infantaria, frequentou as aulas de Desenho e de Pintura de Belas Artes. Posteriormente, em 1882, foi colocado num regimento do Porto e nesta cidade alargou as suas relações de amizade com o pintor Marques de Oliveira, João António Correia e com o escultor Soares dos Reis, cujo atelier frequentava assiduamente.

Foi discípulo de Miguel Ângelo Lupi, existindo uma pintura sobre a morte deste. Colaborou com esmerados desenhos na revista Arte Portuguesa, publicada pelo Centro Artístico Portuense. Participou com artigos, desenhos e pinturas na revista “A arte portugueza” edição mensal de belas-artes (ano de 1882 e seguintes).

No norte do país concorreu ao lugar de professor da Escola de Desenho Industrial de Passos Manuel, em V. N. de Gaia, tendo sido provido no lugar. Como eram excelentes as provas da sua competência, foi transferido para idêntico lugar na Escola Industria Infante D. Henrique, e mais tarde nomeado seu diretor. Sem abandonar a vida militar, exerceu distintamente aquele cargo durante largo período de tempo.

As suas horas livres consagrava-as à pintura, apresentando quadros de paisagem em várias exposições que decorriam m Portugal. A conselho de alguns amigos realizou, em 1899, uma exposição individual que mereceu elogiosas referências.

Quando, por exigências da sua carreira militar, teve de deixar o lugar de diretor da Escola Industrial Infante D. Henrique, foi-lhe prestada afetuosa homenagem por professores e alunos, que muito o estimavam.

Figurou com pinturas na 14.ª exposição Trienal da Academia Portuense da Belas Artes (1884), na 3.ª Exposição da Sociedade promotora de Belas Artes (1884) e subsequentes, na Exposição do Grémio Artístico (1891) e posteriores, na 2.ª exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes (1902) e seguintes. Em 1899 realizou uma exposição individual que mereceu referências elogiosas da crítica.

Compulsando a revista “Notas de Arte”, Porto, ano de 1906, podemos ler um texto escrito pelo famoso pintor José Malhoa: “Há muito tempo já, deveria ter vindo dizer da bela impressão que me causou a 1.ª Exposição organizada pelo Instituto de Estudos e Conferências, mas os meus afazeres obrigaram-me …  a só hoje cumprir este dever. Fui ver a exposição sete vezes, e de cada vez que lá ia, novos encantos encontrava nos trabalhos expostos, pois a tentativa do Instituto teve o resultado mais brilhante que podia desejar-se … Torquato Pinheiro veio marcar n’esta exposição o seu lugar definido e assente ao lado dos bons artistas. Um caminho encharcado, Manhã d’Abril, Margens do Leça, e todos os demais são feitos com alma de verdadeiro artista. Mas, a destacar, como primor de execução, o Retrato de minha Mãe, que é um trabalho notável.”.

Retrato de minha mãe. Óleo sobre tela

Na mesma revista podemos retirar os seguintes extractos: “Torquato Pinheiro é um paisagista distinto, mas não é menos como retratista. Os seus quadros são tocados sempre de uma certa ingenuidade, que nos encanta”.

Ou, ainda, “ um fino desenho do Convento de Santa Clara de Vila do Conde, trabalho impecável de correção e firmeza”.

1907 – Paisagem. Óleo sobre tela.

O quadro “o Leça de Bailio, profundamente melancólico” e  o “ Fim da Tarde, bem feito, com muita suavidade de luz.”

O pintor registou na tela magníficas paisagens, retratos e pedaços do dia-a-dia.

A sua obra está dispersa por galerias particulares e representada em alguns museus.

Temos obras que nos contam histórias e que são registo de memórias. Os leitos dos rios, as árvores, e as ervas que lhe bordam as margens; os casarios, as serras, os vales e os caminhos de pedra que animais e pessoas percorrem a custo, paisagens que nos revelam o amor devido às coisas vivas.

Por último, dar a conhecer que o projeto “Cultura Aviera” escolheu uma das suas pinturas para ser o ícone do seu II Congresso Nacional.

Sobre este tema vide https://mediotejo.net/a-pesca-na-barquinha-no-seculo-xix-e-os-ciganos-do-rio-por-fernando-freire/

Naquele quadro vemos o barco atracado ao fundo, as redes a secar na praia, um covo, ou viveiro de peixe capturado, em construção e colocado em cima de um sombreiro de folhas secas, duas tendas na praia, um casal sentado na areia, trajados com as suas vestes tradicionais, a mulher e o homem concentrados a trabalhar, ela com um afazer doméstico e ele a reparar as redes.

Com Van Kricken pintou, também, o salão nobre do Clube Elvense, em Elvas.

O filósofo Taine proferia: “A arte é o reflexo dos costumes”. Nesta última pintura de Torquato Pinheiro eis a prova inequívoca de tal facto.

Grandes elogios foram feitos nas revistas da especialidade a Torquato Pinheiro pelo que podemos inferir que era um excelente pintor. Vila Nova da Barquinha, Santarém e os Ribatejanos só se podem sentir orgulhosos de ter este vulto incluído no mais alto patamar da arte pictórica em Portugal, não será exagerado dizê-lo.

*Bibliografia: Grande enciclopédia portuguesa e brasileira ilustrada, Vol. 34, ano 1959

Fernando Freire, advogado de formação, é investigador da História Local e presidiu à Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha entre 2013 e 2025.

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