Foto arquivo: Pedro Nasper/mediotejo.net

Tem sido uma semana infernal, daquelas que esperamos sempre que não voltem a acontecer. Mas aí está o fogo, implacável destruindo tudo à sua passagem, outra vez.

Em primeiro lugar as palavras são de consternação profunda por todos aqueles e aquelas que perderam a vida nestes últimos dias. Bombeiros e bombeiras desafiam o perigo e participam num combate desigual contra as chamas. Às famílias, aos amigos e amigas, aos Bombeiros a nossa solidariedade não chega para atenuar a dor.

Será que estamos condenados a sofrer incêndios desta dimensão e gravidade? Não há nada a fazer perante a catástrofe?

O assunto será falado agora e nas próximas semanas, multiplicar-se-ão as homenagens, os votos de pesar, os discursos. Chegará também a vez das promessas sobre o futuro – “vamos tudo fazer para melhorar”. Vamos tudo fazer e, passados uns meses, verificamos que tudo está quase na mesma.

Eu bem sei que há fatores que não dominamos, que as condições atmosféricas formaram a “tempestade quase perfeita”. Não quero subestimar estas condições, nem sequer colocar em causa o trabalho de profissionais que dão o seu melhor na organização do combate aos fogos e, pelo que sei, é tarefa árdua. Mas chegou o momento de colocar o dedo na ferida e chamar à responsabilidade toda a gente, a começar pelos responsáveis políticos nacionais e locais.

As evidências sobre as alterações climáticas não podem ser contornadas, não são passíveis de serem escondidas e cada vez menos pessoas acreditam que “isso das alterações climáticas não é para já”. Está à vista de todos. É um problema de segurança e sobrevivência da Humanidade. E não é lá longe, noutros continentes. É aqui, na Europa, é aqui em Portugal.

E sim, é verdade, todas as pessoas têm um papel a desempenhar, mas há pessoas que têm poder e com esse poder podem e devem fazer muito mais, a todos os níveis: na transição energética, no fim dos combustíveis fósseis, no combate à poluição, na defesa da Natureza… E nós, populações, podemos e devemos exigir o cumprimento dos Planos, explicações sobre o que se passa, transparência sobre a aplicação dos dinheiros.

Temos de debater o ordenamento do território, o planeamento urbanístico e florestal. Somos um país pequeno, desequilibrado entre o litoral e o interior. Clamamos pelo desenvolvimento, mas mantemos as políticas e as práticas que nos trouxeram até aqui.

É fácil? Não, não é. Mas se nada fizermos só nos resta uma solução – deixar arder.

Para terminar cito António Guterres em declarações proferidas hoje mesmo em Nova Iorque (via jornal Público): “É absolutamente evidente que o agravamento dos incêndios em Portugal, o agravamento das cheias na Europa central e oriental, o agravamento das cheias na Nigéria e um conjunto de outros desastres que vemos multiplicar por toda a parte no mundo tem uma relação directa com o agravamento da crise climática. Hoje ninguém tem dúvidas a esse respeito”.

Será que alguém está a ouvir?

Helena Pinto vive na Meia Via, no concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Feministas em Movimento. Escreve quinzenalmente no mediotejo.net

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