Crónica de Carlos Alves. Foto: DR

«A guerra é a continuação da política por outros meios»

(Carl Von Clausewitz)

A fraqueza do raciocínio, a recusa ou mesmo a falsificação dos factos, o peso dos ressentimentos pessoais podem alterar o funcionamento de espíritos. Isto é perigoso!

Forjada no século XX, a palavra «genocídio» não pode ser anacrónica. Muito pelo contrário, ela não tem nada de vago nas circunstâncias atuais e em função de critérios bem latentes, ela reflete um caminho que tem levado a uma violência exercida contra inimigos ou rebeldes, não só com o intuito de submetê-los, mas exterminá-los. Um extermínio que se estende a toda a população, combatente ou não, misturados todos os sexos e idades. O que temos assistido é à destruição sistemática dos meios de existência e de subsistência dos civis, das suas habitações, dos seus campos, oficinas, ferramentas e outros meios, deliberadamente.

Estes aspetos são incontestáveis e estão bem visíveis na guerra da Ucrânia, decidida ao seu mais alto nível, cuja firme intenção é exterminar os “arruaceiros” ucranianos. Os massacres de homens e mulheres, a que temos assistido, até mesmo de mulheres grávidas, de crianças e de velhos realizam à letra esta tarefa. A destruição do território com todos os seus bens completa-o.

Difícil de entender é que os defensores destas atrocidades, contemporâneos dos sistemas totalitários, proclamam a necessidade, a legitimidade de um terror cuja extensão e crueldade ao mesmo tempo negam e omitem até à exaustão.

Não nos podemos esquecer das dissimulações perpetradas no passado por Estaline a imputar a fome aos Kulaks, Hanói a atirar culpa para a «burguesia compradora» ou o regime de Kabul a explicar a resistência popular, apenas, pelas “ingerências imperialistas”. Negar e justificar os factos ao mesmo tempo, provém neste caso de uma razão vital: evitar o abandono do próprio modelo.

No quotidiano, a desenvoltura com os factos e com os argumentos ergue-se frequentemente a um nível muito baixo. Um rudimentar oportunismo serve de pensamento muito correntemente àqueles que se classificam como os defensores do pluralismo. Acreditar nisto é ignorar o que é o autêntico oportunismo ideológico, ou a imperturbável inalterabilidade ideológica do PCP e dos Verdes.

António Costa, primeiro-ministro português esteve bem em criticar estes dois partidos, relembrando que estamos num conflito entre duas partes em que um é agressor e outro que estava em paz e foi agredido e invadido.

Perante estas práticas políticas extravagantes apenas posso lamentar que a inteligência não tenha servido para analisar as componentes de uma situação para prever ou, pelo menos, conjeturar as consequências de uma ação. Em suma é uma faculdade de antecipação e de simulação da ação, graças à qual podemos guiar-nos sem termos necessariamente de pôr em prática, para ver o que dão, ensaios demasiado perigosos. Ora essa união com o PCP foi um fracasso.

Acabo transcrevendo alguns trechos de cartas de combatentes:

“…Caem como moscas e ninguém pensa neles, ninguém os enterra. Jazem por toda a parte, sem braços, sem pernas, com os ventres rasgados…”

“…Disparei, enquanto as lágrimas me corriam pelo rosto. Já há três noites que choro por aquele soldado…que morreu assassinado por mim…”

Eis, assim, alguns exemplos da guerra de sempre: de ontem, de hoje, de amanhã, daquela guerra que nos esforçamos por ignorar, criando superestruturas, autossugestionando-nos, autoiludindo-nos. Abandonemos, por isso, a substância, a realidade da guerra, e vejamos os seus aspetos exteriores, formais, superficiais. Aqueles, que em suma predominam, que são – quase sempre – a única essência da guerra.

Carlos Alves

É albicastrense de gema, mas foi em Malpique (Constância) e em Tramagal (Abrantes) onde cresceu e aprendeu que a amizade e o coração são coisas imprescindíveis na valorização do ser humano. Vive no Entroncamento. Estudou conservação e restauro e ciências sociais. É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Trabalha na área de informática. Participou em várias Antologias Poéticas e escreveu o livro “Diálogos da consciência” que serviu para se encontrar consigo próprio numa fase difícil da sua vida. Acha que o mundo poderia ser melhor, se o raciocínio do Homem fosse estimulado. A humanidade só tem um caminho que é amar, amar por tudo e amar por nada, mas amar.

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