“Um entrave à entrada na cidade e sem grande valor historial ou arquitectónico.”
– Maria do Céu Albuquerque, presidente do executivo camarário de Abrantes, referindo-se ao antigo edifício do Mercado (25.04.2015)

Comemoramos hoje o 87º aniversário do nosso Mercado Municipal, uma data de referência no património material e imaterial da nossa comunidade. Inaugurado com pompa e circunstância em 1 de Janeiro de 1933, os abrantinos realizaram nesta data o sonho de ter um “mercado coberto”, à semelhança do que já sucedia noutras terras, como evolução e complemento natural das feiras e mercados a céu aberto.

Em 1951, o Mercado viu reforçada a estrutura interior e ganhou um novo visual, pelo traço modernista do prestigiado arquitecto António Varela e o cálculo rigoroso do engenheiro Jorge de Sena (sim, o poeta, um dos nossos maiores). Nas décadas seguintes, beneficiou de mais algumas intervenções, até que começou a ser votado ao desinteresse e abandono pelo município, culminando com o encerramento compulsivo pela ASAE em Março de 2010.

Seguiram-se cinco longos anos de instalação provisória, enquanto insensatamente se decidia investir mais de milhão e meio de euros num novo edifício que, manifestamente, não servia para Mercado Municipal. Entretanto, o edifício histórico do “mercado coberto”, ao invés de ser reabilitado, foi destinado a “mercado criativo” (com que fundamento?) mas, em 2017 e sem que se saiba porquê, esta opção foi abandonada e decidida, em sede do PUA – Plano de Urbanização de Abrantes e com força de lei, a sua demolição (ver crónicas anteriores aqui e aqui).

Em 1 de Julho de 2019, os abrantinos manifestaram publicamente o seu enorme carinho pelo Mercado. Foto: DR

Apesar da oposição cívica e política, a maioria autárquica fez finca-pé desta decisão até meados de 2019, tendo sido decisivas para a sua mudança de posição as manifestações de carinho e protecção expressas pelos abrantinos, designadamente através do grupo informal dos Amigos do Mercado de Abrantes. O momento alto deste movimento cívico – que conseguiu reverter a decisão de demolir o antigo Mercado – ocorreu a 1 de Julho, quando os cidadãos expressaram o seu sentimento colocando flores na fachada do edifício.

Desde então, a maioria autárquica tem-se desdobrado em declarações de apreço pelo edifício histórico do Mercado – como se não tivesse havido ontem – contradizendo todas as suas anteriores tomadas de posição (verificáveis em actas municipais e em artigos publicados pela imprensa local, como p.e. aqui). É certo que, como dizem os francófonos, “tout est bien qui finit bien”, mas o problema é que permanecem duas decisões essenciais por tomar: a utilização a dar ao edifício histórico, após reabilitação, e a reinstalação do actual Mercado Municipal em local apropriado.

Poderia, também, questionar-se o porquê da não revisão do PUA e da não declaração do edifício histórico do Mercado como de interesse municipal. Mas, assumindo que a palavra do presidente da Câmara é para valer e, portanto, o edifício não será demolido e serão preservadas (pelo menos) as suas fachadas, a prioridade passa a ser o futuro do Mercado, ou seja, dos dois edifícios onde foi instalado: aquele de onde nunca devia ter saído e aquele para onde nunca devia ter ido.

O actual edifício do Mercado é inapropriado. Abrantes merece ter um Mercado Municipal pujante, a fervilhar de pessoas e de negócios. Foto: On Diseño

É inquestionável que o actual Mercado Municipal não está bem onde (e como) está: o ambiente não é apropriado, as condições não são aprazíveis e a distribuição por pisos é contranatura e inadequada a pessoas idosas. O próprio júri dos prestigiados Prémios FAD 2016 (Barcelona), a que o projecto concorreu, reconheceu que “a estreiteza e forte desnível de treze metros do edifício tornam inusual e incómodo fazer um mercado em três pisos”. Esta evidência é também reconhecida por vendedores, clientes, especialistas e cidadãos em geral.

Se a decisão não tivesse sido imposta por vontade autoritária e preconceituosa, tudo teria sido diferente, pacífico e certamente mais económico. Agora, é preciso corrigir os erros cometidos e recuperar algum do tempo perdido, não cometendo mais erros nem perdendo mais tempo. Espero que a autarquia compreenda que o destino do edifício histórico e o do actual Mercado devem ser decididos em simultâneo, sob pena de se decidir mal e comprometer o futuro de cada um deles.

Abrantes precisa de voltar a ter um Mercado Municipal de que se possa orgulhar, o qual tenha capacidade para atrair clientes e visitantes, valorizando o centro da cidade e o concelho. Reconheça-se, definitivamente, esta necessidade e não se duvide da sua possibilidade: Sim, com uma boa estratégia de marketing, Abrantes poderá – e deverá – ter um Mercado Municipal fantástico, a fervilhar de pessoas e de negócios.

*O autor não segue as regras do novo Acordo Ortográfico.

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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