A indecisão do futuro

Este é o momento em que muitos miúdos decidem o futuro deles. E aquilo que vejo é que as escolhas são feitas em função das notas e não das vocações nem dos gostos pessoais.

Pois claro! Então se são colocados através de um sistema baseado em médias, é natural que as escolhas sejam feitas em função das notas!

Errado! Isso dá origem a um problema gravíssimo: um aluno com notas excelentes é quase obrigado a ir para Medicina. Mesmo que nos seus sonhos se veja feliz a programar jogos digitais ou a procurar soluções informáticas para melhorar a vida das pessoas.
Ah! Vistas assim as coisas, percebo o que queres dizer.

Não conheço muita gente que tenha concorrido, como primeira opção, para um curso que tenha como média de entrada muito inferior à que tem. Parece que o acesso ao ensino superior funciona como um cardápio: do lado esquerdo, o prato; do lado direito, quanto custa. Se sou muito rica, vou escolher o prato mais caro, mesmo que seja uma pizza com lagosta, caviar, conhaque, marinado em champanhe, salmão da Escócia, vinagre balsâmico vintage, molho de tomate, presunto e chips comestíveis de 24-quilates de ouro, que custa cerca de 4.000 euros. Se calhar, ficava muito mais satisfeita com uma pizza de frigideira, feita em casa, com frango, cheddar, mozarela, bacon e cebolinha. Mesmo que tivesse muito dinheiro!

Onde é que foste buscar esses exemplos??
Minha cara outra metade, é simples: ao amigo Google. Pesquisei em ‘pratos caros e chiques’ e em ‘pratos baratos e deliciosos’. Curiosamente, encontrei logo uma pizza para cada caso.

Andas com muita imaginação!!

Talvez, mas o que interessa aqui perceber é o fenómeno dos alunos com médias muito altas e o fenómeno dos alunos com médias muito baixas. Quando os primeiros vão para os cursos porque podem, pode ser uma tragédia. Quando os segundos vão para os cursos porque não podem ir para outros, pode ser outra tragédia.

Mas não te parece legítimo que um aluno com notas excelentes vá para os cursos com média mais alta? É que, por alguma razão esses cursos atraem os melhores alunos. Teríamos que falar de muitas coisas, mas, sobretudo, da empregabilidade.

Não, as coisas não são assim tão lineares. Há cursos com média altíssima e com elevadas taxas de desemprego entre os seus licenciados. A Arquitetura, por exemplo. O problema é que estamos sobretudo a falar de um certo prestígio que se criou em torno de determinadas carreiras e de uma certa ideia enaltecida sobre determinadas instituições. O que faz com que os miúdos com notas excelentes queiram entrar nesses cursos, mesmo que não tenham qualquer vocação. E nós sabemos que há profissões que exigem mesmo uma grande vocação…

O que dirias tu à tua filha se ela tivesse nota para ir para Medicina e quisesse ir para Engenharia Civil?

Que fosse! Antes uma engenheira feliz do que uma médica frustrada…

Essa é uma ideia muito difícil de defender, quanto toca aos nossos, como bem sabes.

Pois sei. Mas também sei que temos que gostar daquilo que fazemos.

E também sabes que muitos dos miúdos chegam ao fim do 12º ano sem saber do que gostam.

Então talvez seja este o momento de explicarmos aos miúdos que a entrada no ensino superior não é o mesmo que escolher comida em função da carteira. Como talvez seja o momento de dizer aos que não têm média para o curso com que sempre sonharam que, se calhar, um ano de paragem, a melhorar notas, a enriquecer o currículo e a ganhar mundo será melhor do que tirar um curso que não lhes diz nada.

Nisso concordo contigo. O problema é que nem todas as famílias podem sustentar os seus filhos mais um ano, para eles ganharem mundo e subirem as médias.

Mas os jovens podem trabalhar, certo? Podem perfeitamente juntar dinheiro nesse ano de paragem, aliviando os pais. Convém lembrar que, em Inglaterra e noutros países da Europa do Norte, os jovens pagam os seus próprios estudos. Ou vão, primeiro, trabalhar, ou fazem um empréstimo à banca para financiar os estudos, que pagam quando começam a trabalhar. E isto não é só para pobres. É para todos. Porque esta forma de valorizar o custo da Educação é uma excelente preparação para a vida.

Concordo. Ainda outro dia alguém me dizia que nós, os 40/50, é que estragámos esta geração dos atuais adolescentes e jovens adultos. Por um lado, damos tudo, mas, por outro lado, queremos que eles sejam como nós os imaginámos. Não os obrigamos a crescer e não os deixamos seguir os sonhos… É capaz de dar mau resultado!

 

 

 

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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