"A adoração dos Magos", de Domingos de António Sequeira (1828)

Está a terminar a época natalícia, talvez a mais feliz de que tenho memória em idade adulta. O Natal este ano fez sentido, além do óbvio e dos rituais. Passo a explicar.

A fé é-me estranha, não consigo aceder àquela elevação espiritual que implica a aceitação do mistério. Para mim os mistérios de hoje serão amanhã desvendados pela incansável curiosidade humana, sempre movida pelo desejo de mudança e esse é, para mim, o grande encanto do mundo. Há coisas que me intrigam, que me assombram sublimemente por não as compreender, mas não alcanço aquela tranquilidade de abraçar, aceitar e dar sentido a mistérios para sempre imutáveis e indecifráveis. 

Sou completamente avessa a dogmas, particularmente os religiosos, que, aliás, acho muito prejudiciais à boa vivência comum. É só olhar a profundidade da história e ver o quanto foram nefastos os conflitos e disputas de poder motivadas por dogmas religiosos (não raras vezes ocultando sede de poder e riqueza). Ódio, ressentimento e intolerância cresceram violentamente apesar das mensagens paz e união intrínsecas a todas as religiões. Diríamos que isto é da natureza humana e não de Deus. Mas eu sigo a ideia de que todas as religiões são uma criação humana e, portanto, também o seu reflexo. Em luz e em escuridão.  Ainda assim, é uma descrente em Deus que escreve, mas não uma descrente na humanidade.

Mas será uma mente muito racional (é o meu caso) capaz de espiritualidade? Melhor, será que os não crentes têm espiritualidade? Evidentemente que sim. Ou por outro lado, será que os muito críticos das religiões (como eu) delas podem nutrir o espírito? Naturalmente que sim. 

As minhas circunstâncias levam a que maior proximidade tenha com o a fé cristã do que de qualquer outra. E à medida que me vou transformando, e desejavelmente crescendo, cada vez mais leio e reflito sobre as mensagens dos evangelhos. A falta de fé não me impede, por exemplo, de entrar em reflexão profunda na Páscoa, para mim o mais íntimo momento do cristianismo. É poderosíssimo parar e pensar no significado da Paixão e da Aleluia.

Mas e o Natal? Bom, do Natal sempre me mantive arredada da reflexão sobre o que dele poderia retirar de significado espiritual. Nunca consegui passar além da indignação ante a obsessão dos embrulhos, o fastio dos vulgares votos da praxe e, sobre tudo, a hipócrita bondade por meia dúzia de dias. Tudo isto me impediu, durante muitos anos, de perguntar o que realmente significa o Natal. Enfim, o lado profano da época afastou-me da meditação sobre o seu significado espiritual.

Este ano decidi fazer diferente, porque eu estou diferente. Talvez porque o nascimento de Jesus é um renascimento a cada ano renovado e eu própria tenha recentemente renascido. Porque quando tudo parecia perdido, nasceu um menino para nos salvar. Porque quando tudo parece submerso em sombria solidão e desespero, algo nasce em nós para nos libertar. É possível, a mim aconteceu-me. Para que isso aconteça, porém, é preciso estar atento à possibilidade do resgate. É preciso olhar o interior e sentir que a esperança e medo podem conviver e que daí vem a mudança necessária. Para viver o Natal, é preciso ir além dos símbolos imediatos do Natal.

Este ano também não pensei no Jesus rei e salvador que veio para derrotar os inimigos de Israel. Decidi contornar a racionalidade da análise histórica ou literal dos evangelhos. Também evitei o ruído dos pensamentos críticos olhando para dentro e não para fora. 

Assim, olhei o Natal e nele vi a ideia de recomeço, nele reconheci um menino que em essência nasceu para, através da boa vontade, conciliar os nossos dilemas. Percebi afinal que no Natal é preciso coragem e audácia para ver a luz que se acende de novo e determinação para olhar dentro de nós e ver a estrela que nos guia. É só ter força para afastar as nuvens e essa vamos buscá-la ao amor de quem acredita nós, apesar de tudo. Exatamente como terá feito Jesus que a todos acolheu.  

Dei-me conta, por fim, que não acredito nos milagres do menino e, no entanto, houve um imenso Natal em mim e eu ainda não me havia apercebido. E não é uma questão de fé, é de profunda humanidade. Malgrado tudo o que de mau vamos fazendo, temos em nós imensa capacidade de fazer o contrário. De emendar caminho.

Todos os anos, por esta altura, podemos renascer para essa oportunidade. Aliás, porque não a cada dia? Não dizem que Natal são todos os dias? Então é para levar a sério e aplicar. A melhor forma de mudar o mundo é mudarmo-nos a nós próprios.

Feliz 2023!

Sara Cura

Arqueóloga de formação, dedicou-se durante largos anos à investigação e ao Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo, em Mação. Atualmente exerce funções no Gabinete de Apoio à Investigação e Qualidade da Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa.

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