O mundo mudou. O presépio, que antes era apenas um e se fazia de musgo e figurinhas de barro, é hoje uma colecção de presepinhos de todas as partes do globo. Disputam-se os mais inovadores, criativos, originais. Podem até nem ter o menino, nem o burro ou a vaquinha. Mas que diabo (salvo seja) basta alguma imaginação para somar mais um à colecção.

E a árvore? Qual pinheiro qual carapuça. Um monte de caixas, saquetas e embrulhos, com laçarotes arco-íris ou coisa parecida e está a tenda montada, com luzinhas pirilampo, desde que comprado no chinês ou em qualquer shopping por aí, que há que poupar os pinheiros a sério, pois que seria do verão sem lenha para tanto incêndio.

E a mesa da consoada? Consoada ou desconsolada? Se algumas famílias resistem, outras (muitas), lá se juntaram de sorriso amarelado, desertas para que a época passe e o Janeiro chegue.

Pouca gente o assume, mas, para muitos, o Natal é já um incómodo. As famílias, deslaçadas, são hoje o espelho de um mundo de mente aberta e coração fechado, para quem o natal do musgo e das figurinhas, do pinheiro e da consoada, mais não é que a memória de um passado, onde as estórias e os contos de outrora, são hoje contas de cartões de crédito, quais cartões de boas festas da moeda única.

Não fôra as crianças e a sua cristalina pureza, aquela que seria a eterna noite do bacalhau com todos, passou a ser a noite apenas de alguns, com espinhas do dito cujo, em gargantas de nó apertado.

Apesar de tudo, o Natal existe mesmo e, com mais ou menos afecto, assim continuará, confortável para uns, anónimo para outros, incómodo para muitos mais. E se, como convém que se diga, poderá ser todos os dias ou quando um homem quiser, agora que passou mais um, vá lá, aproveitem o espírito e, como alguém disse um dia, façam o favor de ser felizes!

Um Ano Bom para todos!

* texto escrito em dezembro de 2016 e agora adaptado

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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2 Comments

  1. Caro Adelino Correia-Pires, parabéns pelo seu texto. Sem duvida muito actual e muito bem escrito. Concordo com tudo o que diz, embora a minha visão sobre o Natal saia um pouco do senso comum. O lamento, que sua Sua Santidade o Papa Francisco fez hoje de que o Natal se estava a afastar da sua essência cristã, deixou-me surpreendido pois esta quadra sendo na sua origem uma festa pagã, tem hoje poucos ou nenhuns símbolos cristãos. Gostaria de partilhar a seu texto mas não o farei se a sua “bênção”. Bem haja.

  2. Caro António Correia, agradeço o seu comentário. Naturalmente que estará à vontade para partilhar o texto. Entendo a escrita como um acto de cidadania e, como tal, para isso mesmo: ser lida e partilhada, assim os leitores o entendam. Um Bom Ano para si.

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