Foto: DR

Então, parece que os animais de estimação, a partir de maio, já podem ir ao restaurante…

Parece que sim… Mas tens algum problema com isso?

Por acaso até tenho. Eu até gosto de animais, embora não os tenha. E não os tenho pela simples razão de que são uma responsabilidade tremenda. Cá para mim, ter um animal significa assumir um compromisso muito sério, que eu não sou capaz de assumir. Por variadíssimas razões, desde a questão do espaço até às despesas que surgem. Mas, sobretudo, porque um animal não pode ser deixado sozinho horas e horas a fio. Quem o tem, tem que assumi-lo como membro da família.

Então faz todo o sentido que os donos os possam levar, quando vão comer fora! Devias concordar com a nova lei…

Não, a questão tem exatamente a ver com a forma como vejo as responsabilidades que assumo, em relação à ‘coisa’ assumida – digamos assim – e em relação aos outros. Eu não posso impor aos outros que almocem ou jantem ao lado do meu animal.

O que a lei diz não é isso. A lei simplesmente permite que os restaurantes que assim desejem criem espaços próprios para que os donos possam fazer uma refeição com seus animais. Nesse caso, só para lá vai quem tem o mesmo tipo de necessidade, pelo que ninguém incomoda ninguém.

Certo, mas a minha questão é prévia. Quem tem um animal sabe que a sua vida é necessariamente diferente da que seria se não tivesse um animal. Levá-lo para todo o lado não é solução. Só falta levá-los para o trabalho!

Por acaso, até já vi reportagens sobre locais de trabalho que permitem que os donos levem os seus animais. Se bem me lembro, até vi uma sobre um escritório que tinha gatos porque, supostamente, afagar estes animais é tranquilizador.

Isso era maravilhoso para mim, que detesto ter gatos a roçar nas minhas pernas. Já para não falar das pessoas que são alérgicas a pelos de animais.

Isso são situações muito pontuais, que certamente contaram com o acordo de todos.

Precisamente!! No caso dos restaurantes, mesmo que seja num espaço à parte, pode haver clientes desconfortáveis com a ideia de haver bichos ali ao lado. Mesmo que não circulem nas zonas de serviços nem nas áreas onde haja alimentos, estão por ali…

Essa é uma opção que os donos dos restaurantes vão ter que fazer. Eles saberão se querem ver nesta nova lei uma oportunidade de negócio, tornando o seu espaço ‘animal friendly’, ou se não querem arriscar-se a perder os clientes que já têm. Pelo menos, existe a opção.

Pois eu, se tivesse um animal, jamais o levaria a um restaurante. Parece-me um absurdo.

Então e o que dizes das pessoas que levam criancinhas para restaurantes, à noite, que não param de berrar porque estão cansadas e desesperadas?

Digo exatamente a mesma coisa. Quem tem criancinhas sabe que o que deve e o que não deve fazer com elas, sabe que tem que se privar de algumas coisas. Até te digo mais: mais depressa concordava com um restaurante que tivesse uma área livre de crianças do que um restaurante que aceite a presença de animais!

Tens noção da provocação do que acabaste de dizer?

Tenho noção de que as pessoas têm que estar conscientes das opções que fazem e das responsabilidades que têm.

Temos deveres, mas também temos direitos. Esta lei pode ser vista como um grande avanço em termos de direitos, porque se concede uma possibilidade aos donos de animais, num espaço próprio, que não interfere com outras pessoas.

Certo! E eu tenho o direito de não ir a restaurantes que aceitem animais.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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