Rua das Janelas Verdes | Foto: DR

O Ramalhete, conheço-o há muito, desde que Eça me abriu a porta daquela casa, onde um painel de azulejos de girassóis atados, não passou da miragem do seu velho escudo d’armas. Já nesse tempo, um enviado de S. Santidade o havia visitado, emaranhado em teias de aranha, seduzido pelos frescos de grinaldas, faces de cupidos, quietude do bairro. Foi-se, desgostoso pelo pobre quintal e assustado pela renda que o Vilaça lhe pedira. Mais tarde, partiu também o Eça, ficando a casa e o romance.

Mais abaixo, ali às Janelas Verdes, os proveitos dum tal Pereira, negociante e armador de olho vivo, haviam de levantar outra casa, melhor dizendo, um casarão, ou antes, um palacete! Vários pisos que o terreno assim pedia, vistas para o grande rio, telhados de seis águas, cantarias de bom calcário, cunhais apilastrados, clarabóias q.b., belas mansardas, portais em arco abatido, pedra de armas e, claro está, azulejos da Real Fábrica, ali para os lados do Rato. Os ferros forjados e bronzes, todas as pinturas alegóricas, os jardins e a Capela, fariam do Pereira, figura e do palacete, figurão. Que o digam os Santiago e Pombal, conde e marquês de então, que mais tarde o juntaram ao seu pecúlio. Aquilo sim, é que era chic. De um lado, o Ramalhete. Do outro, Pombal, o palacete.

Até a Mocidade Portuguesa ali ajeitou o bivaque, em finais dos anos trinta. Coisa importante e comme il faut, algum tempo depois, também o Espírito Santo de orelha, levou do jardim, os pombalinos azulejos que o então descendente do marquês resolveu trocar por uns trocos, à Fundação de seu nome.

Mas guardado está o bocado para quem o há-de comer. Trancas à porta, não fosse Eça bichanar ao ouvido de qualquer um dos seus vizinhos, chegou Madonna e, “like a virgin”, seduzida pelos bivaques e pelas grinaldas, pousou nos jardins do pombal, que foi passando de mão em mão. O cotovelo dói que se farta. Mas João da Ega, esse, até pode andar à boleia…

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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