Cilindro. Foto: Carlos Alves

Tudo está esburacado. Uma tarde nesta terra esburacada, algo que nunca tinha visto, desenrola-se a pouco mais de dez metros da minha janela, aqui onde o declive abranda e uma árvore de grande porte, de um verde tenro, tem um ar desajeitado com seu cacho atrofiado de bagas anãs.

Uma mulher caminha pela estrada. Apressada, senta-se no chão cheia de sacos de compras, pés inchados e cigarro aceso. Lentamente, aquela figura entrou no meu labirinto mental, esgaçou o meu cérebro, esbofeteou a minha consciência. Uma figura imensa, de sotaina, olhos turvos, gestos tresloucados. Tudo parecia implacável, a vida prosseguia. Aquela mulher ali sentada, não percebera que a única coisa que lhe restava eram as pedras onde se empinavam os arbustos.

Por enquanto os rios ainda continuam correndo. O Luís Vaz de Camões ainda vai sendo acariciado e os seus dedos abraçam com aticismo e subtileza, o grande bulício que é costume acontecer. Costumo dizer para mim mesmo que são elegantes oráculos oriundos do eterno.

A vida parece que paralisou. Sente-se uma chama estridente que obriga a natureza a emitir sons. Porque será? Não podemos, em vários momentos, querer ser tudo e ao mesmo tempo querer ser nada. Equilíbrio é uma coisa que vem do poder do coração. Temos de ter uma alma que goste de viver com sabedoria e que não tenha o atrevimento de heroísmo e mistério que condicione os gritos que são emitidos, uns cheios de alma outros mais tristes, porque são feitos por gente triste e solitária. A esses chamo estalidos soturnos que emergem em devaneios irracionais. Agora, existem outros que devem ser ouvidos porque trazem rosas em segredo e querem que o nosso rosto seja flores e que o tempo não esconda o passado.

Pensem. Pensem nos buracos, mas pensem.

Carecemos que nos vivifique a alma da excelência que reside no hábito das ações virtuosas, pelo menos durante certos instantes da nossa permanência terrestre. São estes momentos críticos e decisivos na nossa vida que merecem ser iluminados para que a razão brilhe e se submeta a uma elaboração científica, donde há-de sair a rejeição de um erro ou a admissão de uma verdade, a negação ou a afirmação racional.

Esta visão última, estonteante, que provoca do espírito a tensão máxima da angústia e do silêncio, é um segredo que, colocado desta forma, obsta à necessária convivência social e ao modo de existência coletiva, pública, em que cada indivíduo é uma unidade indiferenciada equivalente a outros indivíduos. É normal cada um de nós querer conquistar algo que nos leve a realizar possibilidades, dar-lhes forma e, consequentemente, expressá-las.

Tenho plena consciência do mundo subjetivo em que me movo. As palavras constituem-se em obstáculos, separando-me do mundo verdadeiro. A minha prisão é a linguagem. Prisão… Liberdade. São estas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o.

Para mim é algo de atraente e ao mesmo tempo desolador e rude. Os materiais emperrados distorcem o tempo, e o espaço que ganha novas dimensões liquida a função do meio. Tudo é inútil. Se os homens soubessem o que fazem, o mundo seria melhor.

Carlos Alves

É albicastrense de gema, mas foi em Malpique (Constância) e em Tramagal (Abrantes) onde cresceu e aprendeu que a amizade e o coração são coisas imprescindíveis na valorização do ser humano. Vive no Entroncamento. Estudou conservação e restauro e ciências sociais. É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Trabalha na área de informática. Participou em várias Antologias Poéticas e escreveu o livro “Diálogos da consciência” que serviu para se encontrar consigo próprio numa fase difícil da sua vida. Acha que o mundo poderia ser melhor, se o raciocínio do Homem fosse estimulado. A humanidade só tem um caminho que é amar, amar por tudo e amar por nada, mas amar.

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