Antes de mais, desejar um ano cheio de coisas boas e de sucessos pessoais e profissionais para todos e todas as leitoras do mediotejo.net. Claro que o principal é a saúde, mas se podermos ter um pouco mais do que desejamos para completar a nossa vida, tanto melhor. É o que desejo para todos e todas.

Na última crónica, frisámos a importância de apoiar os outros, todos os dias do ano e não apenas no Natal. Ironicamente começamos o ano com um apelo de um casal que no verão passado, aquando dos incêndios, pagou do próprio bolso centenas de litros de água para matar a sede às inúmeras pessoas que se encontravam retidas na A1. Nesta altura foram considerados heróis e ninguém questionou onde tinham arranjado posses para pagar a água que tantos beberam.

Como se diz, a água não se nega a ninguém, e neste caso o agradecimento também não. Reviravoltas da vida, este mesmo casal, precisou agora de ajuda e a sociedade prontificou-se a fazê-lo em consideração à ação que tinham tido no verão passado. Gerou-se uma onda de solidariedade social que os veio ajudar, os meios de comunicação social deram a cobertura devida mas, eis senão quando alguém vem questionar a real necessidade destes apoios uma vez que este casal tinha vários processos-crime contra si.

Isto devia fazer-nos refletir. Primeiro porque estas pessoas independentemente do que fizeram precisam de ajuda, e teve de ser a sociedade civil a apoiar. Depois, porque todos acharam que o deviam fazer porque afinal falamos do “casal herói”, mas quando se sabe que tinham cometido vários crimes, pelos quais já tinham sido condenados, vem a tal sociedade que eles ajudaram, condená-los segunda vez e questionar a legitimidade do pedido de ajuda.

Leva-me a pensar que todas as pessoas que foram detidas por terem sido condenadas por qualquer crime, não podem nunca mais ser reintegrados na sociedade, nem receber qualquer tipo de apoio do próximo (a quem também ajudaram) sob pena de serem discriminados por algo por que já pagaram ou estão a pagar. A situação que vivem atualmente, talvez seja por si só uma “segunda” condenação. Não sei.

Não consigo compreender a necessidade que certos órgãos de comunicação social têm de expor a vida privada das pessoas, de devassar toda a sua privacidade e reserva da vida de cada um. É por isto que a solidariedade é vista na nossa sociedade, na maioria das vezes, com maus olhos. Há sempre quem procure uma segunda intenção, ou um motivo obscuro para se ajudar o próximo. As segundas oportunidades só as queremos para nós, tal como a solidariedade.

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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