“A educação é a arma mais poderosa que se pode usar para mudar o mundo.”
– Nelson Mandela
Aquiles, o herói grego de Guerra de Tróia e da Ilíada de Homero, dotado de virtuosa educação e invulnerável ao mais poderoso ataque do inimigo, não sobreviveu à pequena flecha envenenada que atingiu o seu desprotegido calcanhar. Nem o cuidado com que Quíron o alimentou e exercitou, nem a sabedoria com que Fénix o instruiu e maturou, puderam evitar a vulnerabilidade do seu singelo talão.

Foi também de vulnerabilidade que falei na crónica com que iniciei esta minha colaboração regular no mediotejo.net, em Outubro de 2018. Aquiles era a Educação em Abrantes e no Médio Tejo e o abandono e insucesso escolar a seta envenenada. O calcanhar transparecia nas várias pistas que deixei a quem tem responsabilidades na política educativa do município e da sub-região.
O tema não foi escolhido por acaso. Boa parte da minha vida foi dedicada ao ensino e tenho a clara noção da importância estratégica da Educação para cada indivíduo e para a sociedade. Revelei nessa crónica que a taxa de retenção e desistência no Ensino Básico melhorara entre 2014 e 2016, o que aparentemente era uma boa notícia, mas que Abrantes mantinha uma das taxas mais elevadas (de insucesso) da sub-região do Médio Tejo.
Acrescentei, então, que a taxa de transição e conclusão no Ensino Secundário (inversa da taxa do Ensino Básico), apresentava uma tendência de melhoria semelhante, ou seja, aumentara nos mesmos anos (“descontando” o pico anormal em 2014), com Abrantes a manter uma das taxas mais baixas (de sucesso) da sub-região. Entretanto, foram divulgadas pelo INE – Instituto Nacional de Estatística as taxas relativas aos anos de 2017 e 2018, sendo estes os quadros actualizados:


As posições que Abrantes ocupa nestes dois rankings não podem orgulhar ninguém, antes devem causar sérias preocupações. Abrantes é um concelho com tradições e recursos que o obrigam a estar no topo (ou dianteira) e a ser exemplo e referência para os demais municípios. O nível relativo de abandono e insucesso escolar deve levar as autoridades e os agentes educativos a reagir com firmeza e determinação. São gerações de abrantinos e seus descendentes que ficam com o seu futuro comprometido.


O que revelam estes gráficos? Em primeiro lugar que, no Ensino Básico, a tendência de melhoria se inverteu e o ano de 2018 foi uma desilusão, continuando Abrantes afastado da média da sub-região, com uma das piores taxas do Médio Tejo. Em segundo lugar que, no Ensino Secundário, a tendência de melhoria prosseguiu no Médio Tejo, mas inverteu-se em Abrantes em 2018, depois da recuperação de 2016 e 2017, a qual permitiu ao concelho aproximar-se da média da sub-região.
Bem ou mal, as vulnerabilidades da Educação em Abrantes foram identificadas no Projecto Educativo Municipal (PEM) aprovado em 2015, o qual refere a “insuficiência dos transportes escolares/rede de transportes, o pouco envolvimento/articulação da comunidade educativa, a falta de planeamento da oferta formativa, a falta de articulação entre instituições e parcerias e o insucesso escolar”.
Acrescenta ainda o PEM que também contribuem para o abandono e insucesso escolar em Abrantes a “desertificação/isolamento das aldeias rurais, o envelhecimento da população, o desinvestimento do Estado, o crescimento do desemprego (jovem), o aumento do número de alunos por turma, a instabilidade legislativa e a diminuição do número de assistentes operacionais nas escolas”.

Estes factores terão impedido Abrantes de cumprir o objectivo inscrito no PEM (cujo realismo questiono) de “atingir em 2017 uma taxa de abandono escolar nula”, apesar de se acreditar então que tal seria possível com mais actividades curriculares e extra curriculares, melhores infraestruturas e equipamentos, abertura da escola à comunidade, parcerias institucionais, formação tecnológica em rede e adequação da oferta formativa às necessidades da região.
É incontornável que se está perante um rotundo falhanço da política educativa municipal. O que terá, então, falhado – e porventura continuará a falhar –, a identificação dos problemas ou a concretização das soluções? Ao que se sabe, o caduco PEM 2015 continua “em fase de revisão” e o seu “observatório” continua a acompanhar, monitorizar e produzir relatórios de avaliação.
O que dizem estes relatórios? Certamente terão explicações plausíveis para o facto de Abrantes continuar a ter um dos piores desempenhos escolares do Médio Tejo. E obviamente apresentarão recomendações pertinentes para superar as dificuldades e recuperar o atraso acumulado. Poderão as entidades responsáveis fazer o favor de divulgar publicamente estes relatórios, para que todos os conheçam, compreendam e ajudem a fazer triunfar a decisiva causa educativa? Obrigado.
*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.
