“A educação é a arma mais poderosa que se pode usar para mudar o mundo.”
– Nelson Mandela

Aquiles, o herói grego de Guerra de Tróia e da Ilíada de Homero, dotado de virtuosa educação e invulnerável ao mais poderoso ataque do inimigo, não sobreviveu à pequena flecha envenenada que atingiu o seu desprotegido calcanhar. Nem o cuidado com que Quíron o alimentou e exercitou, nem a sabedoria com que Fénix o instruiu e maturou, puderam evitar a vulnerabilidade do seu singelo talão.

Na Ilíada, Homero refere-se à ira dos heróis (líderes) afirmando que, quando a empregam de forma correta, os seus homens levam o luto ao inimigo mas, quando a empregam de forma errada, são os seus homens que sentem o luto e a dor da guerra. Quadro “O centauro Quíron a treinar Aquiles”, quadro de Louis Jean François Lagrenee (1790)

Foi também de vulnerabilidade que falei na crónica com que iniciei esta minha colaboração regular no mediotejo.net, em Outubro de 2018. Aquiles era a Educação em Abrantes e no Médio Tejo e o abandono e insucesso escolar a seta envenenada. O calcanhar transparecia nas várias pistas que deixei a quem tem responsabilidades na política educativa do município e da sub-região.

O tema não foi escolhido por acaso. Boa parte da minha vida foi dedicada ao ensino e tenho a clara noção da importância estratégica da Educação para cada indivíduo e para a sociedade. Revelei nessa crónica que a taxa de retenção e desistência no Ensino Básico melhorara entre 2014 e 2016, o que aparentemente era uma boa notícia, mas que Abrantes mantinha uma das taxas mais elevadas (de insucesso) da sub-região do Médio Tejo. 

Acrescentei, então, que a taxa de transição e conclusão no Ensino Secundário (inversa da taxa do Ensino Básico), apresentava uma tendência de melhoria semelhante, ou seja, aumentara nos mesmos anos (“descontando” o pico anormal em 2014), com Abrantes a manter uma das taxas mais baixas (de sucesso) da sub-região. Entretanto, foram divulgadas pelo INE – Instituto Nacional de Estatística as taxas relativas aos anos de 2017 e 2018, sendo estes os quadros actualizados:

Taxa de Retenção e Desistência no Ensino Básico – Ranking dos municípios do Médio Tejo
Taxa de Transição e Conclusão no Ensino Secundário – Ranking dos municípios do Médio Tejo

As posições que Abrantes ocupa nestes dois rankings não podem orgulhar ninguém, antes devem causar sérias preocupações. Abrantes é um concelho com tradições e recursos que o obrigam a estar no topo (ou dianteira) e a ser exemplo e referência para os demais municípios. O nível relativo de abandono e insucesso escolar deve levar as autoridades e os agentes educativos a reagir com firmeza e determinação. São gerações de abrantinos e seus descendentes que ficam com o seu futuro comprometido.

Evolução da Taxa de Retenção e Desistência no Ensino Básico, em Abrantes e no Médio Tejo, na última década
Evolução da Taxa de Transição e Conclusão no Ensino Secundário, em Abrantes e no Médio Tejo, na última década

O que revelam estes gráficos? Em primeiro lugar que, no Ensino Básico, a tendência de melhoria se inverteu e o ano de 2018 foi uma desilusão, continuando Abrantes afastado da média da sub-região, com uma das piores taxas do Médio Tejo. Em segundo lugar que, no Ensino Secundário, a tendência de melhoria prosseguiu no Médio Tejo, mas inverteu-se em Abrantes em 2018, depois da recuperação de 2016 e 2017, a qual permitiu ao concelho aproximar-se da média da sub-região. 

Bem ou mal, as vulnerabilidades da Educação em Abrantes foram identificadas no Projecto Educativo Municipal (PEM) aprovado em 2015, o qual refere a “insuficiência dos transportes escolares/rede de transportes, o pouco envolvimento/articulação da comunidade educativa, a falta de planeamento da oferta formativa, a falta de articulação entre instituições e parcerias e o insucesso escolar”.

Acrescenta ainda o PEM que também contribuem para o abandono e insucesso escolar em Abrantes a “desertificação/isolamento das aldeias rurais, o envelhecimento da população, o desinvestimento do Estado, o crescimento do desemprego (jovem), o aumento do número de alunos por turma, a instabilidade legislativa e a diminuição do número de assistentes operacionais nas escolas”.

Os professores estão na linha da frente do processo educativo, mas dificilmente poderão fazer mais e melhor se não tiverem o respeito, o reconhecimento, o apoio e a complementaridade que lhes tem faltado Foto: SEPLEU

Estes factores terão impedido Abrantes de cumprir o objectivo inscrito no PEM (cujo realismo questiono) de “atingir em 2017 uma taxa de abandono escolar nula”, apesar de se acreditar então que tal seria possível com mais actividades curriculares e extra curriculares, melhores infraestruturas e equipamentos, abertura da escola à comunidade, parcerias institucionais, formação tecnológica em rede e adequação da oferta formativa às necessidades da região.

É incontornável que se está perante um rotundo falhanço da política educativa municipal. O que terá, então, falhado – e porventura continuará a falhar –, a identificação dos problemas ou a concretização das soluções? Ao que se sabe, o caduco PEM 2015 continua “em fase de revisão” e o seu “observatório” continua a acompanhar, monitorizar e produzir relatórios de avaliação. 

O que dizem estes relatórios? Certamente terão explicações plausíveis para o facto de Abrantes continuar a ter um dos piores desempenhos escolares do Médio Tejo. E obviamente apresentarão recomendações pertinentes para superar as dificuldades e recuperar o atraso acumulado. Poderão as entidades responsáveis fazer o favor de divulgar publicamente estes relatórios, para que todos os conheçam, compreendam e ajudem a fazer triunfar a decisiva causa educativa? Obrigado.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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