O último dia do mercado de transferências, nesta primeira janela que se estendeu até ao último dia do mês de Agosto, revelou-se mais uma vez digna de um qualquer argumento de um filme do cineasta britânico Alfred Hitchcock, tanto foi o suspense gerado à sua volta. Não só no que às principais figuras do futebol nacional diz respeito mas particularmente às estrelas que vão cintilando nos campeonatos de topo do futebol europeu.

Depois da novela protagonizada com a mudança de Neymar de Camp Nou para o Parque dos Príncipes, naquela que foi a transferência mais cara da história do futebol mundial, por números que deixaram qualquer amante da modalidade atónito, qualquer coisa como um valor acima dos 200 milhões de euros, outras aconteceram, não só na Europa mas também para a China (vide o caso do brasileiro Óscar e a sua ida do Chelsea para o Shanghai SIPG por mais de 70 milhões de euros), mercado emergente que teima em surpreender ao receber jogadores de grande craveira e numa idade ainda não coincidente com o fim de carreira.

Aquilo que num passado recente era improvável verificar-se, a não ser num ou outro caso isolado e expectável em jogadores como Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi, promete agora tornar-se uma banalidade tendo em conta aquilo a que estamos a assistir. Transacionam-se jogadores envolvendo números que classifico como pornográficos e que não refletem aquilo que é a realidade do futebol europeu e o nivelamento e igualdade de oportunidades que deveriam existir.

E se o pagamento desses tais valores podem não ser no imediato, como é o caso do ex-Mónaco, Mbappé, que rumou à capital parisiense, o novo “el dourado”, qual destino de eleição para a nata dos jogadores mundiais, cujos 180 milhões só serão pagos após esta primeira época de empréstimo, já outros, como Dembélé, que trocou os alemães do Dortmund pelo Barcelona a troco de 105 milhões de euros a que se podem juntar mais 45 milhões pela obtenção de determinados objectivos, ou Lukaku que obrigou ao pagamento de 85 milhões por parte do Manchester United ao Everton, seguem-lhes as pisadas protagonizando as mais caras transferências deste último defeso. Exemplos não faltam para ilustrar este momento de perfeita loucura em torno dos valores das transferências de jogadores, alguns deles, sabe-se lá porquê e com que justificação.

Mas se uns assumem uma posição dominante no mercado enquanto compradores a outros mais não resta do que vender. A triste sina daqueles que pouco têm, mas mesmo assim muito, levando em linha de razão a disparidade de oportunidades e meios de que dispõem comparativamente com a larga maioria dos seus adversários intramuros. Refiro-me, concretamente, ao paradigma do futebol nacional, não sendo de estranhar que alguns dos principais clubes nacionais sejam “obrigados” a prescindir de algumas das suas referências e assim amealhar uma boa quantidade de euros para os seus cofres. É a lei do mercado, dirão alguns.

Por outro lado, a data limite para a realização de transferências acaba por ser uma óptima notícia para os treinadores, os quais, vêem os seus índices de angústia atingir níveis altíssimos enquanto este momento não chega, tantas são as dúvidas que os assolam em termos dos jogadores com que podem efectivamente contar para enfrentar os campeonatos que disputam.

Enfim, perspectivas. De um lado os dirigentes, a quem cabe a difícil tarefa de gerir, negociar. Do outro, os treinadores, desejando contar sempre com os melhores.

Com uma vida ligada ao futebol, particularmente enquanto dirigente, Nuno Pedro, abrantino, 46 anos, integra desde 2008 o quadro de Delegados da Liga Portuguesa de Futebol Profissional e mais recentemente a direcção da Associação de Futebol de Lisboa mas, acima de tudo, tem uma enorme paixão pela modalidade. Escreve no mediotejo.net de forma regular.

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