Manuel Collares Pereira esteve em Abrantes para falar de energias renováveis. Créditos: mediotejo.net/DR

A energia nuclear foi este ano oficialmente considerada “sustentável” ao abrigo do sistema europeu de classificação de investimentos “verdes”, e o tema tem gerado acesos debates em Bruxelas, numa altura em que muitos países precisam de encontrar alternativas à dependência do gás russo e, com o desmantelamento das centrais a carvão, não encontram respostas céleres e suficientes nas renováveis. Estados-membros como a Polónia, Eslováquia, Hungria e Bulgária estão a construir novas centrais nucleares, mas esta é “uma aposta de energia do passado” e não uma aposta com futuro, considera Manuel Collares Pereira, cientista e professor catedrático que esteve no dia 30 de julho em Abrantes, na Academia Tubuciana, para falar de energias renováveis e desenvolvimento sustentável.

França tem uma dependência energética do nuclear de 75%, possui 58 reatores e “neste momento 30 estão parados”, o que representa “um problema seríssimo”, disse ao nosso jornal Manuel Collares Pereira, explicando que os reatores franceses “estão parados porque têm todos mais de 40 anos” e por outra razão ligada às alterações climáticas: “As centrais térmicas de produção de eletricidade, nucleares ou não, precisam da água, mas há cada vez menos água nos rios para arrefecer as centrais. Muitas terão de fechar por questões de segurança, porque não podem ser arrefecidas”.

Afinal “para que existe a ciência?”, interroga. “Para fazer avançar o conhecimento”, considera, mas na investigação “vontade” traduz-se por investimento, o que nem sempre acontece atempadamente, tal como já reconheceu a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, ao assumir que dependência da energia russa “não é sustentável” e ao colocar a aposta nas energias renováveis também no plano “estratégico” para a segurança da União Europeia.

Paulo Falcão Tavares (à esquerda), Manuel Collares Pereira (ao centro) e Victor Lobo (à direita), na Academia Tubuciana de Abrantes. Fotografia: mediotejo.net

Contudo, a energia solar foi desenvolvida a pensar na missões espaciais. Foi a necessidade de ter energia no espaço que fez surgir as questões técnicas que exigiram o aperfeiçoamento e a inovação constante. A energia solar gerada por painéis fotovoltaicos é utilizada em missões espaciais desde a década de 1960.

Nestes tempos exigentes parece ter vindo a certeza de que a eficiência energética continua necessária no presente e no futuro, ou seja “o rendimento da transformação” de algo até chegar à energia útil. No caso dos combustíveis fósseis, é a queima, por exemplo, do gás que produz calor, que fornece energia. Ora, é essa ”queima” que cria C02, que por sua vez cria o efeito de estufa.

O professor explicou, durante a palestra, que a temperatura equilíbrio do planeta Terra seria menos 16 graus celsius, e hoje já são mais 15 graus celsius. “Na realidade temos mais 30 graus celsius do que teríamos na relação energética que temos com a nossa estrela!”, ou seja, nesta perspetiva “o efeito de estufa é bom”, considera, no entanto, “estamos a estragar e hoje temos um planeta que está em média mais quente”.

Aliada à “queima” de combustíveis decorre ainda a desflorestação. Como resultado, “estamos a pôr mais C02 na atmosfera do que dela sai. O clima está a ser alterado pelo aumento da temperatura, e quem provocou o aumento da temperatura? Nós!”, insurge-se.

Manuel Collares Pereira formou-se em Engenharia Eletrotécnica (Instituto Superior Técnico – 1974) e doutorou-se em Física (Universidade de Chicago, 1979). Desde abril de 2019 está reformado. Professor catedrático, anteriormente foi professor em diversas instituições e investigador na área das Energias Renováveis. Presidente do Instituto Português de Energia Solar, até ao presente. Fundador do Centro para a Conservação de Energia e da Sociedade Portuguesa de Energia Solar. Foi fundador e CSO de várias empresas na área da energia, assim como editor associado da Solar Energy (Elsevier). É autor do livro ‘As Energias Renováveis: a Opção Inadiável’ (1998), bem como do livro ‘Jeremias e o Desenvolvimento Sustentável’ (2020) e de um grande número de publicações científicas, mais de 260. É membro da Academia de Engenharia de Portugal e da Academia de Ciências de Lisboa. Foi proponente e coordenador de muito projetos nacionais e europeus, incluindo o programa Horizon 2020. Recebeu vários prémios, com destaque para o Heating and Cooling Award for Lifetime Achievement, da Agência Internacional de Energia (IEA), em 2008.

Voltando ao nuclear, Collares Pereira lembra que hoje é sabido que “desmantelar um reator custa tanto como construí-lo”. E, como em muitos locais “não há dinheiro para desmantelar, é aflitivo antecipar o que vai acontecer a seguir”, diz. “Mesmo assim, há quem defenda o nuclear”, lamenta o professor catedrático.

Além disso, lembra que sustentabilidade define-se como “deixar para o próximo o mesmo que nós encontrámos… ora, com o nuclear deixo um presente envenenado” no que toca ao tratamento dos resíduos radioativos, lembra. “Há várias soluções, mas são caríssimas. Estamos a falar da duração da radioatividade de 30 mil anos. O nuclear era falado no início como a solução para o futuro. Quando fui para os Estados Unidos [fazer um doutoramento] dizia-se que era tão barato que nem valia a pena ter um contador em casa para medir” o gasto de energia… “Nunca aconteceu, todos os reatores foram altamente subsidiados, e a energia está cada vez mais cara. Com uma central fotovoltaica consigo produzir o quilowatt hora a 2 cêntimos e se fosse nuclear tinha de garantir um preço mínimo de 14 cêntimos. Todas as renováveis estão muito abaixo dos 14 cêntimos”, garante.

Por exemplo, a produção de energia eólica “está entre os 5 e os 6 cêntimos” e “uma central nuclear demoraria uns 15 anos a ser construída, e precisamos de resolver os problemas hoje”. Conclui que o nuclear “tem todas as razões do mundo para acabar” e que esta indústria “só não acaba por causa da razão militar, do armamento”.

Central Nuclear de Almaraz fica a cerca de 100 km da fronteira portuguesa. Foto: Nuno Veiga/Lusa

Manuel Collares Pereira defende a rápida descarbonização da economia, eliminando o recurso aos combustíveis fósseis; carvão, petróleo e gás. “A União Europeia tem objetivos concretos, para até 2050 chegar à neutralidade carbónica. No papel, com objetivos concretos, estamos bem!”, assegura, enumerando as renováveis: solar, eólica, biomassa , energia das ondas, das marés, o uso da geotermia.

No entanto, antes das alternativas às energias fósseis, o professor defende a introdução de mais dois conceitos: a já referida eficiência energética (energia sob forma útil) e a redução do desperdício. E para isso implementar a suficiência energética, isto é “evitar consumir energia”, por exemplo isolar bem os edifícios ou a redução cada vez maior do transporte individual motorizado.

Collares Pereira refere que as renováveis “são a forma mais simples fácil e a custos razoáveis” de produzir eletricidade”, sendo a fotovoltaica, hoje, a forma “mais barata de produzir energia”. Duvidando que a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius até 2100 seja alcançada, até porque faltam 80 anos e já estamos nos 1,2 graus Celsius, considera que “não estamos a resolver nada”, apesar de existir a tecnologia para o fazer. “O problema somos nós. Talvez depois deste verão, com estas temperaturas, as pessoas percebam que as alterações climáticas são reais e que temos de ser parte da solução”, referiu.

Designadamente, defende que temos todos de “circular menos nos veículos (motorizados), viajar menos (cruzeiros, avião); mais transportes públicos, mais veículos elétricos e mais eficientes, e consumir menos bens não essenciais”.

Falou ainda na questão da construção civil, que atualmente se baseia na utilização de cimento. Contudo “entre 7% a 8% das emissões totais de CO2 no mundo vem da produção de cimento”. A solução passa por recorrer a materiais que não provoquem efeito de estufa, como a madeira. “A grande revolução da construção é a passagem do cimento para a madeira”. Manuel Collares Pereira garante ser possível construir edifícios resistentes, mesmo em altura, através de “componentes em madeira com a mesma resistência estrutural do cimento”, a chamada CLT.

“A pré-fabricação reduz os tempos de construção e o impacto associado à construção. É uma das formas de caminhar para a sustentabilidade: produzir componentes em madeira e dar rentabilidade à nossa floresta”, utilizando eucalipto, pinheiro e criptoméria do Japão, árvore que existe nos Açores.

O professor Manuel Collares Pereira, especialista em energias renováveis na Academia Tubuciana de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Outro conceito defendido, que começa agora a desenvolver-se, é o de comunidades energéticas, ou seja comunidades de energia renovável que permitirão que muitas habitações por todo o país, tornando-se edifícios eficientes, tenham acesso a energia limpa produzida localmente, com alto índice de poupança na fatura, através das quais a energia renovável pode ser 40% inferior aos preços médios praticados pelas empresas fornecedoras de energia. Cada um de nós assumirá o papel de consumidor e produtor.

Atualmente, em Portugal uma família já pode colocar painéis fotovoltaicos no telhado na sua casa, para gerar energia solar para a sua habitação, e ainda debitar o excedente na rede elétrica, por três mil euros, dá conta o professor. No entanto, energeticamente ainda não consegue ser totalmente autónoma sem adquirir baterias para armazenamento, que permanecem caras.

Para o professor, o contexto de desenvolvimento atual, que “usa o consumo sem limites, o consumo pelo consumo, não é saudável. Temos de combater as alterações climáticas e temos uma obrigação moral de deixar as mesmas oportunidades” às gerações vindouras.

“Só um quinto da Humanidade – ou seja, os ricos – usa dois terços dos combustíveis fósseis. Esta disparidade é o grande problema. Para acabar com a pobreza, a condição necessária é dar energia e essas pessoas, e não pode ser fóssil”, reitera. Por isso, Manuel Collares Pereira defende a economia verde: sustentável e renovável.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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