A ACIPS trabalha diariamente na atração de inovação, empreendedorismo e investimento, bem como no fortalecimento do tecido económico da região. Três décadas depois tem em destaque projetos como as Aceleradoras Digitais, nas quais integra os consórcios do Alentejo e do Algarve, e o projeto Bairro@Ponte, no âmbito do programa Bairros Comerciais Digitais, que promove em parceria com o Município de Ponte de Sor, ambos financiados pelo PRR e centrados no processo de transição digital das empresas da região.
Domingos Marques, presidente da ACIPS desde 2010, reivindica a necessidade de planos nacionais rodoviários e ferroviários que não ignorem o território e que o incluam em redes que liguem facilmente todo o país.
A ACIPS tem 30 anos, desde 2010 que Domingos Marques está à frente da Associação. O que tem sido mais difícil de alcançar durante a última década?
Foi efetivamente uma década de muitas conquistas, crescemos muito em número de associados e temos desenvolvido ações de extrema importância para o território, quer ao nível da formação, quer do apoio à participação e internacionalização de algumas empresas, passando por marcos como a dinamização do Portugal Air Summit, em parceria com o Município de Ponte de Sor.
As dificuldades fazem parte de qualquer conquista, mas temos conseguido ultrapassá-las com uma equipa dinâmica, empenhada e comprometida com os seus sócios, empresários e parceiros. As nossas preocupações estão relacionadas, em grande parte, com os aspetos que fazem parte do dia-a-dia dos nossos empresários, que nos reportam especial preocupação para a situação económica do país, a rentabilidade da empresa ou o negócio, a captação de novos clientes a garantia de qualidade dos seus produtos e serviços.
Os custos laborais são também uma preocupação para os empresários, face à crise política e económica que se pode vir a traduzir numa crise financeira. Outras questões que preocupam os nossos empresários são a dificuldade em captar pessoal qualificado, diversificar a oferta, o acesso ao crédito e ao financiamento e a internacionalização das suas empresas.
Com o passar dos anos cresceu a capacidade de mobilização para o associativismo?
Sim, de forma natural, esta capacidade de crescimento e de mobilização é uma consequência do trabalho desenvolvido ao longo dos anos pela ACIPS junto do tecido empresarial, comprovando a importância do associativismo e atraindo o interesse dos agentes económicos da região.
Esta capacidade crescente de mobilização advém da perspetiva e posicionamento da associação, cuja atuação se traduz na união e participação dos empresários, para em conjunto debaterem problemas comuns e reunirem consensos para obter soluções para os mesmos, trocando experiências e vivências. Para a ACIPS, o associativismo só faz sentido quando envolve participação, solidariedade, união e cooperação no atingir de objetivos comuns, pois só a união faz a força.
E sobre o rejuvenescimento da massa associativa, o que tem a dizer?
O rejuvenescimento da massa associativa é uma consequência do ciclo de vida das empresas. A ACIPS conta atualmente com cerca de 1300 associados, o que reflete claramente a forte identificação que o tecido empresarial da região Alto Alentejo sente em relação a esta estrutura. Ainda que se assista hoje a uma renovação de gerações de empresários, de setores e modelos de negócio, por vezes menos despertos para o associativismo, a ACIPS mantém uma evolução muito positiva face ao número de novos associados.

Preocupa-o ou tem-se deparado com o “individualismo” dos empresários (industriais e/ou comerciantes) na região de Ponte de Sor? E já agora em Portugal uma vez que a ACIPS, com mais de 1300 associados, tem uma abrangência que se estende a vários pontos do País…
Efetivamente, a nova geração de empresários é mais individualista e menos dada ao associativismo, o que não se verificava nas gerações anteriores, que tinham no associativismo uma forma natural de defender o tecido empresarial e crescer em conjunto. No entanto, a ACIPS tem procurado renovar as suas valências de forma a manter-se relevante para as diferentes necessidades e atividades dos empresários locais, acompanhando a evolução e modernização do tecido empresarial e procurando dinamizar e enfatizar junto dos novos empresários a importância do associativismo. Considero que o tem feito com sucesso, uma vez que o número de associados continua a aumentar.
Como classifica o trabalho da ACIPS nestas três décadas, qual a sua evolução e que mais-valias representa?
Ao longo destes 30 anos de história, a ACIPS cresceu em abrangência territorial e em serviços prestados. A cooperação e um acompanhamento de proximidade com os nossos associados continuam a ser princípios que nos guiam e que nos têm levado a bom porto, com vantagens para todos. Hoje, com uma equipa qualificada e um conjunto alargado de parcerias, conseguimos ampliar os nossos serviços ao apoio a candidaturas a financiamentos, ao acolhimento de inovação e ao incentivo ao empreendedorismo.
A formação e a capacitação de empresários e dos seus colaboradores é um serviço que surgiu com o crescimento da Associação e que faz parte da sua atividade diária, acolhemos diversos programas de formação o que tem permitido contribuir para um dos grandes desafios enfrentados pelas empresas da região, que é a procura por profissionais qualificados.
E como tem sido o trabalho de orientar esforços e criar sinergias de modo a fomentar o crescimento económico e social do concelho?
A dinamização da economia do concelho de Ponte de Sor foi uma das razões que levaram à criação da ACIPS e é um objetivo gratificante no qual trabalhamos diariamente. Ao longo dos anos, fomos estabelecendo sinergias com instituições que nos permitiram reforçar a atratividade do concelho, nomeadamente com o Município de Ponte de Sor, um dos nossos principais parceiros e com quem trabalhamos em estreita colaboração em iniciativas estruturantes para o tecido empresarial local e para a atração de novos projetos, guiados pelo objetivo de tornar Ponte de Sor um território atrativo para viver e investir.
Ao longo dos anos foram criados vários gabinetes, tais como: Gabinete de Apoio ao Associado; Gabinete de Apoio Económico-Financeiro; Gabinete de Apoio Jurídico; Gabinete de Apoio à Formação Profissional; AGROACIPS. Qual o balanço que faz? Têm conseguido responder às necessidades dos associados?
A criação destes novos gabinetes surgiu da vontade e reconhecimento da importância de reunir equipas e metodologias, capazes de dar resposta às necessidades dos nossos associados. Para além de prestarmos um apoio direto aos empresários que nos procuram, com soluções essenciais ao exercício da sua atividade, conseguimos dar resposta internamente, de forma rápida e eficiente a questões relacionadas com a elaboração de candidaturas a programas de financiamento públicos, atualizações legais que possam influenciar as atividades dos nossos associados, formação profissional e consultoria para incentivo a projetos no âmbito da agricultura, com o gabinete AGROACIPS.
Quais são essas “necessidades”, as mais recorrentes, que chegam à Associação? Na prática o que é que os empresários precisam? E quais as suas maiores dificuldades nomeadamente as micro, pequenas e médias empresas?
Nos últimos anos, temos sentido por parte dos empresários da região uma crescente procura por programas centrados na inovação e na transição digital, fruto também de uma adaptação a um mercado que evoluiu, especialmente desde 2020, com uma maior valorização do mundo digital nas áreas de comércio e serviços. A formação e qualificação de profissionais tem registado bastante procura por parte das PMEs do território, para as quais o acesso a novas tecnologias e a ações de formação que permitam uma atualização constante de conhecimentos não é tão simples como para as empresas de maior dimensão.



No trabalho de desenvolvimento das atividades económicas no concelho de Ponte de Sor, que programa/projeto da Associação destaca?
Neste âmbito, destaco o projeto Bairro@Ponte, que promovemos em parceria com o Município de Ponte de Sor, no âmbito do programa “Bairros Comerciais Digitais”, do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Este projeto, cuja candidatura foi aprovada em setembro de 2023, tem como objetivo estreitar relações de proximidade entre comerciantes, consumidores e o espaço público através das ferramentas digitais, com o desenvolvimento de um centro comercial online para o concelho de Ponte de Sor.
Este foi um dos dez projetos aprovados no Alentejo no âmbito do programa e representa um investimento de cerca de 566 mil euros. De destacar ainda projetos como o Portugal Air Summit, a maior cimeira aeronáutica da Península Ibérica, que a ACIPS promove em parceria com o Município desde 2018 e com resultados bastante expressivos na atração de investimento, para além do impacto direto da sua realização nas atividades de comércio, restauração e hotelaria da região.
E investimentos? Podem estar a ser desperdiçadas oportunidades na região? Tem sido um caminho fácil ou difícil?
Num território como o nosso, que enfrenta os mesmos desafios que tantos outros territórios do interior do país, não me parece que haja oportunidades a serem desperdiçadas. Antes pelo contrário: acredito que os empresários do Alentejo se tornaram especialistas em fazer muito com o pouco que têm, ultrapassando barreiras como a queda demográfica ou a falta de infraestruturas que nos liguem eficazmente ao resto do país.
Alguns dos problemas estruturais da nossa economia são conhecidos há décadas: fraca qualificação da mão-de-obra, baixa produtividade, salários baixos, que conduzem a uma fuga de pessoal qualificado para outras regiões do País, onde existe uma oferta mais valorizada. Ao mesmo tempo, o pouco investimento público, resultado de uma economia encurralada pelo peso dos juros, não ajuda ao desenvolvimento das regiões do interior do País.
No entanto a resiliência dos empresários do interior e a reinvenção dos seus negócios tem conduzido a que estes tenham conseguido atravessar este período extremamente difícil a todos os níveis, primeiro com a COVID 19 e agora com a incerteza do crescimento económico das grandes potencias mundiais face aos conflitos armados que surgem um pouco por todo o Globo.

É fácil criar valor em Ponte de Sor? O que falta para a região ter empresas de grande dimensão?
A região já tem empresas de grande dimensão, basta pensarmos no cluster de aeronáutica no Aeródromo Municipal de Ponte de Sor. Temos ali sediadas empresas internacionais, que no setor da aeronáutica e aeroespacial trabalham a nível global a partir de Ponte de Sor, tirando partido das boas condições técnicas, de logística e de mão de obra existentes no concelho.
E o que falta aos territórios do interior para conseguirem fixar pessoas garantindo uma boa qualidade de vida, criar emprego e ter sustentabilidade financeira?
Creio que, acima de tudo, precisamos de garantir uma ligação maior, mais rápida e eficaz, não apenas aos grandes centros urbanos no litoral, mas também entre as várias regiões do interior de Portugal. A isso responde-se com uma aposta efetiva em planos nacionais rodoviários e ferroviários que efetivamente liguem o país. Portugal é um país geograficamente pequeno, mas onde certas distâncias demoram demasiado a percorrer. Por outro lado, quando uma pessoa pensa em fixar-se no interior, não lhe basta saber que em poucas horas poderá estar no litoral. É preciso garantir-lhe também serviços e infraestruturas de qualidade: escolas, centros de saúde, equipamentos desportivos e culturais e tantos outros.
De pouco valem os incentivos económicos e fiscais à atração de investimentos, se esses incentivos não forem suportados por uma rede de infraestruturas e serviços que garanta estabilidade e qualidade de vida às pessoas que potencialmente ocuparão os postos de trabalho entretanto criados.
O “fabricado” ou “produzido” em Ponte de Sor, essa marca, é ou não atrativa ao mercado?
Acreditamos que sim. Ponte de Sor é hoje uma referência regional. A cidade, no contexto do Alentejo no seu todo e do Alto Alentejo em particular, tem apresentado um dinamismo económico que poderá servir de farol para que outras cidades do País, com dimensões e características semelhantes, possam encetar estratégias que lhes tragam dinamismo económico.

A ACIPS tem um papel interventivo, sendo também interlocutor dos empresários e comerciantes da região. Que reivindicações feitas pela Associação continuam sem resposta quer do Município quer do Governo central? Por exemplo apoio financeiro que se relacione com o desenvolvimento geral dos setores da área de abrangência da Associação?
A ACIPS em representação dos seus associados e de todas as empresas da região fez chegar em uníssono o descontentamento e indignação dos empresários desta região, relativamente às medidas e apoios que foram publicadas com o objetivo de solucionarem no imediato muitos dos problemas decorrentes da pandemia COVID19, e que se verificaram claramente insuficientes.
Com plena consciência da crise económica que estamos a atravessar, e da invulgar coincidência do encerramento do quadro comunitário Portugal 2020, acreditamos que não tenha sido fácil publicar em tão curto espaço de tempo um conjunto variado de medidas, assim como encontrar dotação orçamental que as viabilize, para o desenvolvimento e tão necessário apoio a esta região. Também temos consciência que as ajudas e apoios não podem chegar a todos, por variadíssimas razões, muitas delas associadas ao enquadramento setorial e outras por estarem relacionadas com condicionalismos por parte dos potenciais beneficiários.
As preocupações dos nossos empresários, são as nossas preocupações, e não podemos ficar indiferentes quando se nos dirigem à procura de apoio e suporte para enfrentarem os desafios que se impões todos os dias ao desenvolvimento das suas atividades num território com estas características. O que nos move é o desenvolvimento sustentado da região, pelo que temos vindo ao longo dos anos a apostar na implementação de programas de formação e consultoria, para que os nossos empresários se sintam cada vez mais capacitados de conhecimento, tomem decisões mais conscientes e assertivas.
Teremos todos que ser muito realistas, do passado só esperamos que se tenha aprendido a não cometer os mesmos erros, o futuro queremos que seja melhor, pelo que é agora no presente que temos de tomar as decisões corretas. Os empresários esperam do Governo respostas, rápidas eficazes e eficientes, também esperam que as expectativas criadas correspondam na realidade ao que é anunciado, mas sobre este assunto, os nossos empresários fazem pouca “fé”, porque por um motivo ou outro são confrontados diariamente com obstáculos e exigências, que na maioria das vezes nem são aplicáveis nem exequíveis e só causam constrangimentos, perdas de tempo e descontentamento.
Desde dezembro de 2020, que nos têm chegado manifestações de descontentamento por parte dos nossos empresários, relativamente aos atrasos de comunicação dos resultados das candidaturas que foram apresentadas ao Sistema de Apoios ao Emprego e ao Empreendedorismo +CO3SO-Interior, a nossa intervenção é nula, apenas fazemos a divulgação e apoio junto do tecido empresarial das medidas e apoios que vão sendo publicados, e fazemo-lo de forma autónoma.
Na região do Alto Alentejo, para onde defende que seria fundamental o Governo canalizar mais investimento?
Correndo o risco de me tornar repetitivo, volto às mesmas ideias de antes. Precisamos de planos nacionais rodoviários e ferroviários que não ignorem o nosso território e que o incluam em redes que liguem facilmente todo o país. De investimento continuado na renovação e alargamento da nossa rede de cuidados de saúde, diminuindo os tempos de espera e as distâncias percorridas para um serviço que muitas vezes poderia ser prestado em qualquer unidade de saúde local, houvesse as condições. Sem esquecer que o nosso território continua (e acredito que terá sempre) um perfil marcadamente agrícola, precisamos que os nossos empresários e agricultores não sejam abandonados, garantindo-lhes os meios de financiamento que lhes permitam continuar nas nossas prateleiras alguns dos melhores produtos agrícolas a nível europeu.
Como presidente da ACIPS, quais as caraterísticas que não podem faltar a um empresário?
Os meus anos de experiência, não apenas enquanto presidente da ACIPS, mas também enquanto empresário, não me deixam dúvidas que, para desenvolver uma atividade, há que ser resiliente e não baixar os braços aos desafios diários. É crucial estar alerta para novas tendências e conseguir adaptar-se a mercados em constante evolução, quer através da renovação de conhecimentos, quer da partilha de práticas com os pares.
E se pudesse dar um conselho aos empresários, qual seria?
Que a união faz a força e estes 30 anos da ACIPS assim o demonstram. A participação coletiva, a solidariedade e a cooperação em torno de objetivos comuns são a chave para estabelecer parcerias e sinergias benéficas para todos.
Falamos de uma Associação que acaba de completar 30 anos e, por certo, com projetos para o futuro. O que está planeado?
A celebração dos 30 anos da ACIPS faz-se de história e da homenagem ao legado dos seus fundadores, parceiros, colaboradores e associados, pela sua dedicação e trabalho, os quais têm sido determinantes para o sucesso da Associação, e o serão nos projetos que temos planeado para o futuro, que se esperam de forte impacto para o tecido empresarial local e para a comunidade.
Destacaria o programa “Aceleradoras Digitais”, em que a ACIPS integra os consórcios do Alentejo e do Algarve, com o objetivo de desenvolver novos modelos de negócio e apoiar diretamente a adoção de tecnologias por parte das micro, pequenas e médias empresas. Também a transição digital será um dos eixos prioritários do nosso trabalho, assim como a formação, o incentivo ao empreendedorismo e inovação, e a criação de um ambiente favorável ao estabelecimento de novos negócios na região.
