Mesmo sob chuva e céu cinzento, dezenas de crianças percorreram as ruas do Tramagal e do Crucifixo para celebrar o Pão por Deus. Entre sorrisos e guarda-chuvas, pais e filhos deram vida a uma tradição que teima em resistir ao tempo.
O sábado, 1 de novembro, amanheceu com céu cinzento e chuva persistente, ameaçando estragar a festa do tradicional “Pão por Deus”, ou como as crianças lhe chamam, o “Dia dos Bolinhos”. Ainda assim, o entusiasmo falou mais alto, e dezenas de meninos e meninas saíram à rua, de saco na mão e guarda-chuva aberto, a pedir “Bolinhos, bolinhos… à porta dos santinhos”.
Às 9h00, o frio e a chuva ainda afastavam alguns moradores, mas bastou uma trégua para que se ouvissem as primeiras vozes infantis ecoar pelas ruas. “Bolinhos, bolinhos…”, repetiam, tímidas no início, mas cheias de alegria. Os vizinhos, já preparados com doces, frutas, bolachas e uma panóplia de guloseimas, abriram as portas com entusiasmo.




Isabel, tramagalense de coração, esperava desde cedo pelas crianças. “Comprei tantos doces… estava a ver um dia péssimo”, contou, sem perder o otimismo.
“Gostava que me viessem miúdos à porta, venham de sombrinha, eu estou cá”, afirmou sorridente, com a mesa pronta para os visitantes mais pequenos.
Sandra, também moradora, partilha da mesma alegria: “Isto é uma tradição que não se pode perder, é lindo, lindo, lindo. Às 8 da manhã já estava prontinha, com o meu melhor fato”, recorda entre risos.
Por volta das 10h00, a chuva abrandava e a vila ganhava cor. As ruas enchiam-se de vida e o som das vozes infantis trazia os moradores às portas e às janelas. Pequenos e graúdos caminhavam entre poças de água, com sacos ainda leves mas corações cheios.
“O que mais gosto é ganhar bolinhos”, diz a pequena Luísa, de 7 anos, que convenceu a mãe a sair de casa mesmo com o tempo instável.
O ponto alto da manhã deu-se junto à Junta de Freguesia, onde se distribuíram os tradicionais bolinhos, ao mesmo que era feita distribuição no Crucifixo, na escola velha. António José Carvalho, presidente da Junta do Tramagal, sublinhou a importância de manter viva a tradição.




“Fazemos a nossa distribuição de bolinhos, sentindo a população a manter viva a tradição de porta em porta”. O autarca recorda ainda que “pensa-se que esta prática terá nascido na altura do terramoto de 1755, em Lisboa”.
O presidente aproveitou também para convidar as famílias a prolongar o espírito do dia. “À tarde há cinema infantil na Sociedade, às 16h00. Queremos manter a tradição e, quem sabe, criar novas atividades. Fazer evoluir este dia”, explicou.
Pelas ruas do Crucifixo e do Tramagal, o movimento foi crescendo, embora com menos participantes do que em anos anteriores.
“Vê-se cada vez menos crianças a pedir os bolinhos, é pena”, lamenta Mariana Correia, mãe do pequeno Bernardo.
“Os pais deviam fazer por isso. Eles ficam tão felizes”, acrescenta, enquanto o filho mostra o saco de doces com orgulho.




Entre os grupos de jovens que ainda mantêm o espírito da tradição, Solange, Benedita e Matilde, de 14 anos, percorriam as ruas com a alegria de outros tempos.
“Não sabia se vinha, porque dizem que já somos velhas para isto”, admite Benedita. “Mas vim porque é um dia livre, é muito divertido.”
Ao meio-dia, a chuva deu tréguas e os sorrisos multiplicaram-se. As ruas voltaram a encher-se de crianças, agora com sacos bem pesados e corações leves.
Contra o mau tempo e o passar dos anos, os bolinhos de 2025 voltaram a cumprir a tradição — e a encher de vida as ruas do Tramagal.
