Há coisas que esperamos nunca mais voltem a acontecer. Pesem as diferenças e as divergências políticas, há princípios que julgamos não serem ultrapassados (estou a falar do espectro democrático da política) e um deles é sem dúvida a dignidade humana e outro a obrigação de socorrer quem está em perigo e/ou aflição. É isto que nos ensinam desde crianças. E este comportamento aplica-se, ou devia aplicar-se, a pessoas e instituições.
Sempre me revoltei contra atitudes e comportamentos aviltantes das pessoas incluindo das instituições e de responsáveis políticos. Vem isto a propósito da reportagem na TV em que um Bombeiro (sim, é mesmo para ser em letra grande) contava o que se tinha passado à porta do hospital em Caldas da Rainha, quando, não fora a insistência deles, uma mulher que tinha abortado espontaneamente e sangrava abundantemente, levando o feto morto num saco, teria sido enviada para Coimbra para ser atendida. De Caldas da Rainha para Coimbra!! Porque a Urgência Obstétrica estava encerrada.
Esperemos que a investigação que está a ser levada a cabo pela IGAS (Inspeção Geral de Atividades em Saúde) esclareça todos, todos os contornos e pormenores desta situação, incluindo a desumanidade com que este casal foi tratado, sendo obrigado a esperar pelos Bombeiros no parque de estacionamento.
Não se quer acreditar que uma situação como esta possa ter acontecido, não aqui, no país com a menor taxa de mortalidade infantil, no país do Serviço Nacional de Saúde consagrado na Constituição e, já agora, também o país onde de vez em quando nos chegam as vozes hipócritas no que diz respeito às mulheres acusando-as de preferirem a carreira a ter filhos/as e que se desdobram em apelos “precisamos de mais crianças”.
Aqui onde o Governo da AD prometeu que ia colocar ordem na Saúde, jurou que defendia o SNS e até já fez ‘planos’, para o verão, para as urgências.
Uma breve recordatória, mesmo breve: a Ministra da Saúde incompatibilizou-se e despediu ou levou à demissão o presidente da Comissão Executiva do SNS e dois (2) presidentes do INEM, ‘enganou-se’ nos números dos doentes oncológicos, não queria divulgar informação sobre as urgências fechadas mas foi obrigada a recuar e apresentou como grande novidade uma linha SOS Grávida para se ligar e perguntar para onde se poder ir para ser vista por um médico. Entretanto, para os privados – que serão bem recompensados – parece que corre bem com o reencaminhamento de “grávidas de baixo-risco”.
Em abono da verdade estas ‘parcerias’ foram estabelecidas pelo Governo do PS.
Dir-me-ão, que má vontade, nem dão tempo à senhora para mostrar o que vale, quem nunca falhou que atire a primeira pedra, ….
Não se trata de dar ou não dar tempo, trata-se de conhecer o seu percurso, lembrar o que fez no Hospital de Santa Maria, exatamente no serviço de Obstetrícia, conhecer as suas prioridades e observar o que tem feito nestes pouco mais de 100 dias.
Mas para além disto tudo é absolutamente chocante e revelador o silêncio da Ministra e do Primeiro-Ministro. Já por cá andamos há uns anitos e sabemos que Luís Montenegro nada dirá por agora. Mas devia dizer e, já agora, dizer à sua Ministra da Saúde que não pode continuar calada.
É preciso resolver o problema dos médicos/as no SNS, há soluções em cima da mesa, é preciso coragem e deixar de apostar nas ‘parcerias com o privado’, que sugam recursos e profissionais do SNS.
Não queremos um SNS onde um cartaz “está fechado” passe a ser o novo normal!
Fui ver o Portal do SNS, hoje as urgências no Centro Hospitalar do Médio Tejo estão todas assinaladas a verde, estão a funcionar. Mas bem sabemos que não tem sido assim, verificando-se vários encerramentos e picos de crise. Não podemos desistir de exigir soluções!

É este o início das alterações do actual governo para acabar com o SNS, pois que a grande aposta do PSD é na saúde privada. Reformados e pobres serão as vítimas, já que também são as que precisam mais de saúde grátis.