Não há ano que não me lembre que por esta altura se aproxima a data o aniversário da minha melhor amiga de infância… Não sou especialmente boa com datas, mas algumas vão fazer sempre parte da minha vida. Esta é uma delas.

Os amigos de infância são mesmo uma dessas coisas fantásticas, que têm sempre um canto no nosso coração, na nossa memória, na nossa alma, sei lá… algures por aí num sítio nosso qualquer.

Devo ter celebrado, com ela, o seu primeiro aniversário, há 41 anos. Ela fazia sete anos. Estive com ela e ela comigo nos nossos aniversários, até aos 14. A vida separou-nos, mas ainda nos visitámos, por mais um ano ou dois, nos dias dos nossos aniversários.

Nessa altura, poucos eram os que tinham festas de anos.

Verdade, mas nós tínhamos. As minhas eram preparadas, com uma dedicação incrível, pela minha mãe. As dela eram uma organização partilhada, entre as irmãs mais velhas e a velha empregada, que funcionava como uma espécie de avó. Eram festas muito especiais.

Hoje é tudo tão diferente. Até as festas de aniversário são de plástico. Raramente são nas casas dos miúdos. Muitas são iguais a tantas outras. Algumas têm uns monitores que entretêm os miúdos para os pais descansarem. Depois dão-lhes um pão de forma com uma fatia de fiambre e uma gelatina num copo de plástico. Cantam os Parabéns e o aniversariante ou a aniversariante canta aquela coisa horrorosa a agradecer. E já há pais que pedem dinheiro em vez de prenda para, supostamente, comprarem à criança a prenda que ela quer! É isso ou então o talão de troca para se livrarem da prenda que alguém escolheu a pensar que seria uma boa ideia.

Como as coisas mudam… Há 40 anos nós nem esperávamos prendas dos amigos. Queríamos era a casa cheia e lanche reforçado. A casa, mesmo que fosse um apartamento pequeno, ficava virada do avesso. Acho que nunca mais voltei a ver festas assim…

Não havia mesmo prendas?

Havia, algumas… Os pais que podiam davam alguma prenda. Ficávamos contentes, mas a festa era mesmo o mais importante. Claro que gostava de receber um bloquinho ou um single de vinil. Sim, porque os LP eram muito caros. Ninguém sonhava em trocar as prendas! Gostávamos de tudo, até das prendas mais estranhas.

O que queres dizer com prendas estranhas?

Numa das minhas festas, dos 11 ou 12 anos, um colega de turma ofereceu-me uma caixa com dois sabonetes, daquela marca famosa de que agora não me lembro… Na altura foi motivo de gozo. Deve ter sido a mãe que comprou. Mas a verdade é que a caixa com os sabonetes me acompanhou ao longo de décadas. Andou comigo de casa em casa, quase como o objeto que me fazia lembrar esses momentos. Como é que poderia usar os sabonetes ou mesmo dá-los a alguém? Também ainda tenho a minha primeira Barriguitas, que uma vizinha me ofereceu. Os pais trouxeram de Espanha quando ainda não havia Barriguitas em Portugal. Foi um sucesso.

Isso é uma preciosidade, para a memória e para os afetos.

Pois é! Quanto mais tempo passa, mais valor damos a essas coisas. Como também damos mais valor às coisas tristes que vamos sabendo ao longo da nossa vida. Como as que fui sabendo sobre aquela minha amiga de infância, que hoje me fez pensar na vida porque se aproxima a data do aniversário dela.

Voltaste a falar com ela??

Como eu gostava! Ela não existe no mundo virtual. Há uns anos, consegui localizá-la. Encontrei o email do trabalho. Mandei-lhe um mail. Fiquei tão feliz! Respondeu-me uma primeira vez e depois nunca mais disse nada. Fiquei triste, mas pensei que teria os seus motivos. Crescemos, mudamos, deixamos de ter interesse nas mesmas coisas… Não temos que ser amigos para a vida. Limitei-me a respeitar.

Mas essas pessoas que nos marcam deviam ter lugar cativo nas nossas vidas.

Ela não quis. Soube, entretanto, que não tem tido uma vida fácil. Gostava de a ajudar. Gostava de estar lá. Gostava de a poder proteger como me protegeu de tudo quando éramos miúdas. Gostava que voltar a subir à nossa árvore para lá lhe perguntar o que a vida lhe fez. Gostava de voltar àquela varanda onde brincávamos aos cafés, para beber um chá de limão com ela e para lhe dizer que vai correr tudo bem, que o resto da nossa vida vai ser aquilo que merecemos. Gostava de me sentar ao lado dela, na carteira da escola, para lhe poder desenhar um coração no caderno. Gostava de voltar àqueles campeonatos desportivas, em que ela era a estrela, e dizer-lhe o orgulho que sentia por ela.

Por que não o fazes?

Porque a vida nem sempre é aquilo que idealizámos. Porque há pessoas que se cruzam na nossa vida que nos prometem fazer parte dos nossos sonhos e acabam por os destruir. Porque outras vezes somos nós que não percebemos bem que caminho estamos a seguir. Porque outras vezes fazemos tudo errado. Sobretudo, porque em qualquer uma destas situações, quem nelas está só ouve os outros se quiser.

Mas não podes abandonar uma amiga! Se suspeitas que precisa de ti… Arranja forma de lhe mandar os Parabéns! Às vezes, são pequenos gestos que nos fazem mudar o rumo. Vá! Vê se o email que arranjaste ainda existe. Não desistas. Não se desiste dos amigos. Não se desiste de quem partilhou connosco uma carteira de escola, uma equipa de futebol e, sobretudo, um ramo de uma árvore.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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