Perto da vista, perto do coração – jornalismo por dentro
Os textos desta secção têm um propósito: contar histórias sobre jornalismo. Os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.
Esta crónica começa com um erro. Não se devem dar as respostas nos títulos, mas estamos com pressa. Não é uma crónica-poema ou uma crónica-conto, onde os factos são apenas um pretexto para reflexões mais autorais (a ideia é do professor brasileiro José Marques de Melo). Pelo contrário, começamos com factos, aliás históricos: No dia 17 de Agosto de 2021, Beheshta Arghand, jornalista afegã de 23 anos trabalhando para a estação privada de televisão Tolo, a maior do país, fez história ao entrevistar Abdulhaq Hemad, um comandante Talibã. As imagens dos dois, bem distanciados socialmente, um de cada lado da ampla mesa do estúdio, correram mundo.

Naquele jeitinho afegão, em que uma complexa argumentação se enovela em sussurros inaudíveis para a maioria das traduções, ela fez-lhe perguntas consideradas difíceis. “Porque é que estão a fazer buscas nas casas das pessoas?” e “O que é que vai acontecer às mulheres?”. Fazendo pleno uso das sete vogais e das duas semiconsoantes da língua pastó (que tem vocabulário comum com o persa e se escreve com o alfabeto árabe), Abdulhaq Hemad teve o seu momento Óscar clip para os media ocidentais: respondeu que as mulheres são essenciais na sociedade e serão respeitadas. Pausa entre vogais: dentro dos limites do Islão.
Beheshta Arghand engoliu em seco, e fez uma afirmação, não uma pergunta: “As mulheres afegãs querem estudar e trabalhar. Temos esse direito.” Ela também estava com pressa. Sentiu as sinapses cerebrais a reconectarem e a pulsação cardíaca a normalizar.
Poucos minutos antes, Abdulhaq Hemad tinha entrado na televisão, rodeado de homens armados, e exigiu ser entrevistado. Quem é que estava a apresentar notícias nesse momento? Beheshta Arghand, licenciada pela Universidade de Cabul, jornalistas da estação há apenas um mês e 20 dias. Quais foram as suas primeiras preocupações? Apertar mais o lenço – não o hijab, que entretanto já se tornou obrigatório – para que não deixasse escapar nenhum fio de cabelo, e assegurar-se que, para além do rosto, não tinha nenhum centímetro de pele visível. Depois escapou-se para casa e ligou a uma pessoa que tinha entrevistado 2 dias antes no mesmo estúdio: Yousafzai Malala, a activista paquistanesa baleada na cabeça pelos talibãs em 2012, quando tinha 15 anos. Graças à sua intervenção, embarcou com a família num avião do Qatar, rumo à capital, Doha.
Entre a sua entrada na história dos media, e a sua saída do Afeganistão, decorreram horas frenéticas em que Beheshta Arghand fez o mesmo que milhares de concidadãos: telefonaram desesperadamente a todos os contactos, amigos alguns, conhecidos outros, amigos de conhecidos, grupos de voluntários nas redes sociais, organizações internacionais que tentavam colocar o seu pessoal a salvo, pedindo ajuda, que neste caso significava conseguir colocar o seu nome e o da família na lista para um voo de evacuação. Nenhum deles acreditou nas promessas dos talibãs.
A relação dos talibãs com os media é, digamos, problemática. São ávidos produtores e consumidores de notícias, sobretudo na internet, e estabelecem com a informação relações de grande proximidade. Quando não gostam das notícias, identificam o jornalista e toda a sua família e, magnânimos, concedem uma oportunidade de reconfigurar a narrativa. Mas se o desentendimento epistemológico se mantém – por exemplo, relatar que os frequentes ataques suicidas matam civis quando os talibãs pretendem que os alvos são apenas os inimigos estrangeiros – os jornalistas tornam-se alvos a abater e o seu assassinato é celebrado nas redes sociais como um castigo justo pelo crime de difundirem notícias anti-Talibã.
Em Abril, quando decorriam as conversações de paz promovidas pelos norte-americanos entre o governo afegão e os talibãs, a organização Human Right Watch denunciou dezenas de ataques e intimidações, muitos deles fatais. Uma das vítimas foi a jornalista Mina Khairi, 23 anos, que tinha um programa popular sobre política internacional na estação privada Ariana News TV. Ela, a mãe e a irmã morreram quando uma bomba fez explodir a carrinha onde seguiam em Cabul. O ataque nunca foi reivindicados mas vários jornalistas da estação denunciaram ameaças quase diárias.
A morte de jornalistas influentes é uma das técnicas usadas para silenciar os restantes. Resultou. Segundo um relatório da ONG Repórteres Sem Fronteiras, o número de jornalistas mulheres ativas em Cabul passou de 700, antes da tomada da cidade, em 15 de Agosto, para menos de 100.
Outra táctica é a entrada em bando nos estúdios de televisão, com vários homens armados a rodearem o jornalista de serviço enquanto este informa os telespectadores. A imagem de Mirwais Haidari Haqdoost rodeado por soldados talibãs com as armas apontadas para o chão enquanto este entrevistava o comandante Qari Samiullah na televisão pública afegã é profundamente perturbadora pela dissonância cognitiva que inscreve.

Ouvimos a voz de Qari Samiullah apelando aos afegãos para não saírem do país: não há nada a recear, voltem ao trabalho e às vossas vidas, estamos aqui para vos proteger. O jornalista lança uma tímida observação: parece haver alguma discordância entre as palavras e as ações, atreve-se ele a sugerir. Nessa altura, o círculo de AK-47s, as armas mais usadas pelos combatentes, começa a estreitar-se à sua volta, gerando um extraordinário efeito persuasivo pró-Talibã. Um outro grupo entrou na agência de notícias estatal Bakhtar disposto a ter uma conversa amigável sobre as mudanças a introduzir no website e nos conteúdos.
Na primeira entrevista “sentada” dada a um meio de comunicação social ocidental, o New York Times, o comandante Zabihullah Mujahid reiterou a filosofia Talibã em relação aos media: podem ser livres e independentes. Nova pausa para deixar respirar algumas das 7 consoantes da língua pasto. Com algumas restrições.
A pergunta que todos se colocam partilha a natureza agónica que atravessa hoje a informação globalizada: o que é ser livre e independente? As restrições à liberdade de imprensa ou as violações dos direitos humanos e em particular dos direitos das mulheres extravasam o regime Talibã e estão profundamente enraizados na sociedade afegã, exaurida por décadas de guerra, corrupção e pobreza. Será que os media instilados pelos norte-americanos após a invasão de 2001, como a Voz da America, a Rádio Europa Livre e a Rádio Liberdade eram independentes? Será que a televisão pública afegã, instrumentalizada por governo corruptos, era livre?
O Afeganistão é hoje um país profundamente mediatizado, com uma imprensa diversa e sofisticada, 5 agências noticiosas, dezenas de estações de televisão privadas, centenas de rádios e uma população jovem de internautas (22% da população tem acesso à internet). A explosão mediática foi na sua maioria suportada com fundos internacionais após a invasão dos EUA, que através da agência federal Global Media injectou milhões no financiamento de meios de comunicação pró-democracia. A avaliação dessa política está por fazer mas não parece promissora.
Provavelmente, o Afeganistão voltará a ser um país literalmente silencioso – sem música, já proibida em espaços públicos – agora que já foram fixadas pelos media ocidentais as imagem-ícone que nos darão uma falsa ilusão de compreensão da história: afegãos tentando apanhar um avião em descolagem, um pai abraçando o filho bebé à chuva na pista do aeroporto, o último soldado (aliás, major) norte-americano a abandonar o país, o rosto rígido do presidente Joe Biden declamando uma pantomina escrita por dez conselheiros de imagem: Não esqueceremos. Não perdoaremos.
Nada disto nos ajuda a compreender o Afeganistão nem as vidas dos mais de 40 milhões de afegãos, 48% dos quais mulheres. Será que vão continuar a escrever a poesia lírica, profana e terrena, improvisada e cantada, os landay? Dois versos livres que nos dilaceram com a sua denúncia da falta de liberdade para escolher quem se ama: “Meu amor, para lá das montanhas, contempla a lua/ E verás que te espero, de pé, sobre o telhado”.
*A autora não segue as regras do novo acordo ortográfico.
