Outrora pontos de vida espalhados pelas ruas das aldeias ou erguidos no mato, entre a folhagem das árvores, são atualmente um património ligado à memória coletiva onde, por vezes, o som da água ainda ecoa. No campo, as fontes deram de beber às gentes e aos animais da ruralidade que ajudavam também na lavoura, durante décadas ou mesmo séculos, porém hoje em dia a sua existência passa, eventualmente, despercebida, apesar de reunirem parte da história do abastecimento de água da freguesia de Alvega e Concavada.
Não obstante os registos darem conta de, ainda no século XIX, precisamente a 4 de agosto de 1884, ter iniciado a exploração de água em Santo António para fornecimento de uma fonte pública no mercado de Alvega, que estava em construção; as fontes e fontanários da freguesia revelaram-se de extrema importância durante o século XX, sendo fundamentais para levar a água à população.
Os dados que compõem este ‘À descoberta’, uma visita onde propomos descobrir estas construções, na freguesia com estilos arquitetónicos semelhantes, que têm hoje como principal função dar de beber a quem passa, tendo sido outrora pontos de abastecimento e local de convívio, devem-se essencialmente ao historial referido no livro “Memórias da Água de Abrantes – Contributos para a história dos SMA”, da autoria de Pina da Costa, edição de 2012.

Em Alvega, a 01 de setembro de 1936 foi inaugurado o fontanário de S. José, nas Portelas; a 05 de março de 1966 foi a vez da inauguração de um dos dois fontanários do Tubaral, no caso a fonte existente no Largo S. João de Brito.
A rede fontanária já existente em 1926, teve requalificações e ampliações em 1965 e 1966, sobretudo por iniciativa, e assunção de grande parte dos custos, dos moradores.





Casa Branca, Areia de Cima, Areia de Baixo e Lampreia (rede fontanária) mereceram inauguração do abastecimento público a 18 de outubro de 1967. Mas a 12 de outubro de 1972 foi encerrado um dos fontanários de Areia de Baixo, por falta de água e visando o seu racionamento. No ano seguinte, a 21 de maio inauguraram-se dois fontanários no Ventoso.
Poucos dias antes da Revolução de Abril de 1974, especificamente a 21 de fevereiro, 21 moradores pedem a instalação de um fontanário no Casal de Cima e Monte Galego, assumindo todos os custos, incluindo o fontanário. O deferimento chegou já em liberdade, a 6 de junho desse mesmo ano.
O abastecimento público da Concavada mereceu inauguração em 1965 e o da Ribeira do Fernando em 1966. O primeiro abastecimento era, como na generalidade das outras povoações, através de uma rede fontanária.
Gradualmente, esta rede fontanária foi dando origem ao abastecimento domiciliário. A 18 de julho de 1965 foram inaugurados quatro fontanários na Concavada.




Em 1994, no dia 6 de julho, a pedido da Junta de Freguesia, os fontanários da Ribeira do Fernando deixam de estar ligados à nascente antiga (mina) e são ligados à rede de abastecimento. Esta decisão foi revista em 26 de abril de 1995.
Tais informações mostram que apenas depois do 25 de Abril – e em muitos lugares da freguesia a água canalizada chegou aos domicílios vários anos após a Revolução – começam a ser projetados planos abrangentes para o abastecimento público domiciliário.
Até essa data, era às fontes que a maior parte da população desta freguesia do concelho de Abrantes ia abastecer-se para poder realizar as tarefas quotidianas e matar a sede.
E em muitas dessas fontes foram construídos os chamados ‘tanques dos burros’ para matar a sede aos animais que ajudavam quer no trabalho do campo quer no transporte de produtos e pessoas e ainda do gado.
É a partir do abastecimento doméstico que algumas fontes e fontanários deixam de ser necessários e acabaram desativados. Progressivamente, muitas das fontes foram deixando de correr água. Atualmente contam-se mais de 20 na União de Freguesias de Alvega e Concavada, e várias permanecem desativadas, segundo informação avançada pelo Município de Abrantes.


Os Serviços Municipalizados de Abrantes (SMA) decidiram em janeiro de 2007 encerrar todos os fontanários públicos existentes no concelho justificando com a existência de “muitas perdas de água e muita má utilização por parte da população”.
Porém, as populações reivindicavam a água a correr nas suas fontes, e em 2015 a Câmara reabriu 34 fontanários espalhados pelo concelho, na esperança que a utilização passasse a ser mais correta.
Os SMA realizaram então algumas obras de reparação, nomeadamente ao nível da colocação de novas canalizações, contadores e torneiras temporizadoras para que não se repetissem situações de abuso e de desperdício de água. As respetivas Juntas de Freguesia ficaram responsáveis por garantir a manutenção e a boa utilização da água dos fontanários.
Entre os referidos 34 fontanários reabertos nessa época, três foram na União de Freguesias de Alvega e Concavada: fontanário de S. Pedro, em Concavada; fontanário na E.N. 118, em Alvega, e fontanário de S. João, na Casa Branca.
Segundo a lei (alínea cc do nº 1 do Artigo 16º do Regime Jurídico das Autarquias Locais) é competência das Juntas de Freguesia “conservar e promover a reparação de chafarizes e fontanários públicos”, sendo que os não públicos a competência é dos proprietários privados.

Já o tratamento e análise da qualidade da água de fontanários ligados à rede pública são efetuadas de forma normal como qualquer outro ponto da rede ao abrigo do Programas de Controlo da Qualidade da Água de acordo com a legislação em vigor.
Todos os fontanários não ligados teriam de ter tratamento próprio e um programa de análises próprio o que tecnicamente, ambientalmente e financeiramente não é entendido pelo Município como “viável”.
Porém, os Serviços Municipalizados de Abrantes enquanto entidade gestora (de acordo com a alínea 6 do artigo 16.º “Controlo de fontanários não ligados à rede pública” do Decreto – Lei 152/2017, de 7 de dezembro de 2017) deve proceder à colocação de placas informativas de “água não controlada” ou de “água imprópria para consumo humano” nos fontanários que não sejam origem única de água para consumo humano e que não tenham sido integrados no PCQA, ou seja que não estejam ligadas à rede publica de abastecimento.
Nestes casos, os SMA enviam para as Juntas de Freguesia as placas com identificação de “água não controlada” para que a estas as coloquem, sendo as mesmas responsáveis pela sua colocação.
Aspetos técnicos e legislativos à parte, ao percorrermos as ruas, ruelas e caminhos de terra das aldeias e lugares da freguesia percebemos que os residentes ainda sabem localizar todos os fontanários existentes, enquanto os que partiram, mantém recordações de infância e juventude, mas num regresso, porventura, esquecem de os revisitar.
Sem serem monumentos enigmáticos, são fontanários construídos em materiais simples, poucos com aplicação de granito, sem brasões, mas quase todos pintadas de branco ou com painéis de azulejo dedicados a santos (eventualmente) padroeiros, em zonas mais ou menos floridas ou com elementos decorativos. Se no mato, rodeados de verde. Muitos a necessitarem de restauro, com alguns azulejos marcados pelo tempo estando já a desaparecer.
Quando nos fizemos ao caminho até às fontes, em dias de sol, ou não encontrámos ninguém ou apenas a população local que passava na rua do fontanário, rumo ao seu destino. Além da sobrevivência, a água sempre foi uma questão social, por isso fonte de cooperação mas também de conflitos, relacionados com a satisfação das necessidades humanas que se estendiam aos animais domésticos e à agricultura.
Atualmente a “necessidade” é colmatada através da água canalizada que chega diariamente às torneiras das nossas casas e ninguém faz fila, na canícula, por uma bilha de água… quando muito um garrafão, ou vários, se a qualidade merecer a fama.
Assim, com vários e diferentes fontanários na União de Freguesias, sugerimos que se aventure a visitar as fontes, de preferência a pé. A água não corre livremente em todas, porém ainda podemos escutar melodias improvisadas mas naturalmente reconhecidas.
Uma rota de água que resiste num património cultural de um tempo pretérito mas que continua a matar a sede a quem a tem, senão de água por certo de nostalgia.
LISTAGEM DE FONTES E FONTANÁRIOS
ALVEGA:
Fontanário da Praça da República e Estalagem. Estão ativadas e ligadas à rede pública.
Fontanário na Estrada Nacional 118 – Está ativada e ligada à rede pública.
Fontanário do Casal de Santo António – desativado.
Portelas – Fonte de S. José. Agua de nascente. Está ativada. Foi inaugurada em 1936 pela CMA.
Casa Branca – Fontanário de S. João. Foi reativada em 2014/15. Está liga à rede pública.
Casa Branca – Fonte Velha – Está desativada.
Casa Branca – Fontanário na Rua 25 de Abril – Está desativado.
Casa Branca – Fontanário na Rua da Ribeira – Está desativado.
Areia de Cima – Fontanário na Rua 24 de Julho. Está ligado à rede pública e está ativado. Na mesma rua existe outro fontanário, mas está desativado.
Lampreia – Constam dois fontanários na Rua Principal. Um está ativado, o outro não. E uma fonte na Rua da Fonte.
Tubaral – Existem dois fontanários. Um está ativado e ligado à rede pública. O outro está desativado.
Tubaral – Fonte dos Carvalhos. A água vem da nascente e está ativada.
Ventoso – Fontanário na Rua Nova Lisboa. Está ativado. Ligado à rede pública
Monte Galego – Fonte de S. Pedro. Tem origem numa nascente/mina e vai para depósito. Está ativada.
Monte Galego – Fontanário no Casal de Cima – Tem origem na mesma nascente/mina. Está ativado.
CONCAVADA:
Fonte da Mina – Ativada. A água vem de uma nascente para um depósito.
Fonte de S. Pedro – Ativada. Ligada à rede pública. Ano de construção: 1966/CMA.
Barroco da Fonte – Desativada.
Fonte no Largo do Chão da Eira – Ativada. Ligada à rede pública
Fontanário em Ribeira do Fernando – Ativado. Ligado à rede pública.






















