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Os últimos tempos têm-me levado a pensar no quão ingrata pode ser a missão de um autarca, não de todos, mas de alguns. Vemos um governo que afinal quer descentralizar, mas que pretende apenas passar responsabilidades para os municípios sem lhes transferir as respetivas receitas e meios. Pelo contrário, ainda lhes retira financiamento e meios como ainda recentemente fizeram com a GNR.

António Costa quer penalizar os autarcas que não fizerem aquilo que compete aos particulares ou ao governo fazer. É assim com a limpeza das matas, mas também com diversos outros assuntos. O governo não cumpre a sua função no que diz respeito às matas nacionais, mas quer cortar o financiamento das autarquias que não fizerem aquilo que o governo também não faz. Acredito que seja apenas retórica, mas a verdade é que a estratégia do governo é clara: se no próximo ano houver novas tragédias, a culpa é dos autarcas ou dos proprietários.

Pior é quando todos sabemos, e o governo também sabe, que não há capacidade disponível, nem de meios nem de pessoas, em Portugal para fazer em poucos meses aquilo que não se fez em anos.

Pior é verificar que há uma gestão partidária na distribuição dos apoios à limpeza da floresta. Basta ver o montante de aprovações de candidaturas a fundos para a limpeza entre municípios rosa e laranja. É fácil dizer que há autarquias exemplares quando o Governo para lá encaminha centenas de milhares de euros que não dá às restantes. É lamentável, mas é a triste realidade em que vivemos.

Depois temos a descentralização em áreas como a saúde, a educação ou a ação social. Mas alguém tem dúvidas que hoje as autarquias e o sector social têm já um papel fundamental no apoio às pessoas com mais dificuldades? Ou que na educação as câmaras desempenham já um papel decisivo na criação de condições e de apoio às escolas, em particular no ensino básico? Ou que na saúde são os autarcas que já vão apoiando os centros de saúde com meios, viaturas e só não contratam médicos porque a lei não permite? Obviamente que as autarquias podem sempre fazer mais, mas tentar fazer dos autarcas meros “organizadores de festas”, como ainda há dias o ministro da Agricultura tentou fazer é vergonhoso.

Por último, e apesar de tudo o que escrevi, não podia deixar de lamentar um episódio que vi hoje relatado na Escola Básica das Mouriscas e que já não é aceitável nos dias de hoje. Não há razões para compreender que, apesar de vários alertas feitos no passado, esta escola, pelo menos esta, tenha aulas com chuva a cair nas mesas dos alunos. Num concelho que tanto pretende fazer-se parecer moderno, inovador, que diz apostar na cultura e na educação, não é aceitável que tenha escolas sob a sua responsabilidade nestas condições. Felizmente, sei que graças às denúncias hoje feitas pelos pais, pelos professores, por vários populares e pelos elementos do PSD de Abrantes, a autarquia já se deslocou finalmente ao local e prometeu resolver o problema. Veremos os próximos passos.

Não podemos querer o sonho quando nem das nossas escolas tratamos dignamente.

Duarte Marques, 39 anos, é natural de Mação. Fez o liceu em Castelo Branco e tirou Relações Internacionais no Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, com especialização em Estratégia Internacional de Empresa. É fellow do German Marshall Fund desde 2013. Trabalhou com Nuno Morais Sarmento no Governo de Durão Barroso ao longo de dois anos. Esteve seis anos em Bruxelas na chefia do gabinete português do PPE no Parlamento Europeu, onde trabalhou com Vasco Graça Moura, José Silva Peneda, João de Deus Pinheiro, Assunção Esteves, Graça Carvalho, Carlos Coelho, Paulo Rangel, entre outros.
Foi Presidente da JSD e deputado na última legislatura, onde desempenhou as funções Vice Coordenador do PSD na Comissão de Educação, Ciência e Cultura e integrou a Comissão de Inquérito ao caso BES, a Comissão de Assuntos Europeus e a Comissão de Negócios Estrangeiros e Cooperação. O Deputado Duarte Marques, eleito nas listas do PSD pelo círculo de Santarém, foi eleito em janeiro de 2016 um dos novos representantes portugueses na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, com sede em Estrasburgo. É ainda membro da Assembleia Municipal de Mação.
Sócio de uma empresa de criatividade e publicidade com sede em Lisboa, é também administrador do Instituto Francisco Sá Carneiro, director Adjunto da Universidade de Verão do PSD, cronista do Expresso online, do Médio Tejo digital e membro do painel permanente do programa Frente a Frente da SIC Notícias.

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