José Caroço e José Rei, residentes no Entroncamento. A conquista da Câmara pelo Chega no passado domingo domina desde então todas as conversas nas tuas e nos cafés. Foto: mediotejo.net

Num banco situado no Largo José Duarte Coelho, em frente ao edifício da Câmara Municipal do Entroncamento, ao final da tarde de ontem, José Caroço e José Rei observavam o movimento das ruas em volta. A cidade parecia seguir o seu ritmo habitual, mas sofreu uma enorme mudança no passado domingo – e esse tem sido desde então o tema de conversa: o resultado das eleições autárquicas.

José Caroço tem 80 anos, é natural de Castelo Branco, mas reside há duas décadas no Entroncamento. Ao nosso jornal diz que a vitória do Chega já era esperada, mas nem por isso deixou de o surpreender.

“Aqui era expectante [sic] que eles ganhassem… porque o Chega está na moda. Mas fiquei admirado, porque isto é uma cidade operária, uma cidade de trabalhadores, e isto ficou tudo virado do avesso. A malta que anda aí e acha piada ao Ventura, votou nele.”

O tom mistura resignação e incredulidade. José Caroço não esconde o distanciamento em relação ao partido vencedor. “Eu não votei, nem nunca votarei [nesse partido]… porque o homem não tem quadros.”

Para este residente, o desfecho da noite eleitoral de domingo é reflexo de um voto de protesto. “Isto é um voto de revolta. Os partidos do centro não melhoraram consideravelmente a vida das pessoas. Não deixam ninguém passar fome, mas as coisas continuam muito más e a malta quer mudança… este homem tem um discurso de encanta serpentes, mas não passa disso.”

Nelson Cunha é o novo presidente da Câmara Municipal do Entroncamento. Créditos: DR
Resultados das eleições Autárquicas de 12 de outubro de 2025 no Entroncamento. Fonte: MAI

Apesar da vitória, José Caroço acredita que o novo executivo municipal terá dificuldades para concretizar promessas. “Eu acho que ele não vai fazer nada de especial porque não tem quadros para isso e não tem aqui a maioria. Até pode fazer alguma coisa, e Deus queira que sim. Se calhar até é bom, para não serem sempre os mesmos.”

Ao seu lado, José Rei, ouve com atenção a opinião do conterrâneo. Aos 79 anos, conta que vive no Entroncamento há mais de seis décadas e tem uma leitura diferente, marcada por um sentimento de “saturação” e desigualdade social.

“A meu ver foi o aceitar aqui [no Entroncamento] tudo o que é possível e imaginário… Etnia cigana com fartura, que vieram de Tomar para cá, os dos PALOP, que muitos deles vieram para aqui e foram aceites. Segundo o ex-presidente de Câmara, Jorge Faria, havia cá 50 nacionalidades… Mas eu não vi ciganos nem esses indivíduos a votar.”

Como motivos para o crescimento do Chega no concelho, José Rei aponta o dedo às diferenças nas condições de vida. “Há muita gente no Entroncamento que tem 400 e 500 euros de reforma e descontaram uma vida inteira. Eles vêm para cá e recebem 800, 900 ou mil euros… então vale a pena vir para cá.”

“Estão a fazer quatro blocos, não sei quantas famílias poderão ir para lá, ainda estão em fase de acabamento… estou para ver o que vão fazer, se vão juntar indivíduos de etnia cigana, das colónias e cidadãos do Entroncamento, se vão juntar tudo. Vai ser uma guerra. Eles têm todos os benefícios e quem cá está não tem”, acrescenta.

Foto: mediotejo.net

José Caroço concorda em parte. “O que o Zé está a dizer é verdade, porque a imigração tem que ser regulada. Quando ele diz ‘vão trabalhar’, ele tem razão”, defende. “O que é preciso é depois arranjar ferramentas para combater essa situação, porque não é fácil. As pessoas que já cá estão há muito tempo, têm de ser tratadas de maneira diferente, não se pode meter tudo no mesmo saco. Temos de ensinar a trabalhar os que não sabem. Se vêm para trabalhar, muito bem, se não vêm, têm que ir embora.”

Na opinião dos dois homens, a questão da segurança é hoje uma das principais preocupações de todos os entroncamentenses. “Sobre os imigrantes, para mim o Governo foi o culpado, porque acabou com a polícia nas fronteiras…”, afirma José Rei. “Vive-se aqui bem no Entroncamento”, contrapõe José Caroço, antes de o amigo o interromper: “Mas à noite, andar só não é muito aconselhável.”

“Se houver aí sete ou oito polícias é muito, mas a maior parte deles faz serviço de secretaria, não vêm cá fora”, critica José Rei, ao que José Caroço acrescenta: “A partir das 21h00 ou 22h00, ficam aí os amigos do alheio e depois andam em grupos. Eles vêm de Lisboa, têm o comboio e agora com o passe podem andar aí e fazer o que quiserem. O Entroncamento é propício a isso. As pessoas têm o transporte e vêm para aqui.”

Entre as palavras dos dois homens antevê-se uma cidade dividida entre a esperança de mudança e o receio do que aí vem. No Entroncamento “vive-se bem”, repetem, mas o sentimento é de que o equilíbrio é frágil.

Expectativa e cautela após a vitória do Chega

Passaram-se cinco dias desde o ato eleitoral que elegeu Nelson Cunha como presidente da autarquia, com 37,34% dos votos. No centro da cidade, a rotina comercial segue tranquila, mas o tema das eleições continua a marcar as conversas entre clientes e comerciantes. A vitória do Chega nas autárquicas deixou o ambiente dividido entre a vontade de mudança e a apreensão pelo que está por vir.

O mediotejo.net falou com a proprietária de um estabelecimento comercial, situado numa das principais artérias da cidade, que preferiu não ser identificada. Na sua voz, mistura-se a prudência com o realismo. “Havia aqui algumas dúvidas, uma especulação se seria o PSD ou o Chega… Sabíamos que ia haver uma mudança, porque as pessoas queriam uma mudança. Mas havia muitas pessoas receosas do Chega.”

Foto: mediotejo.net

A comerciante reconhece que o novo partido no poder gerou curiosidade, mas também desconfiança entre a população. “Porque o Chega não é só o André Ventura e o Nelson, é também quem está à volta, e isso é que preocupa um bocado a população, principalmente os nossos clientes. Preocupa quem está à volta do Nelson – não propriamente o Nelson, que parece ser uma excelente pessoa e com vontade de fazer diferente.”

No comércio local, o resultado das eleições continua a gerar muitas especulações. Os comerciantes e moradores partilham a mesma curiosidade sobre o futuro da cidade. “Toda a gente fala nessa situação. Está tudo muito expectante do que é que vai acontecer. Será que vai ser a cidade piloto para o André Ventura poder fazer a diferença, ou não? As pessoas estão muito curiosas para ver o que vem aí.”

A empresária lembra que o tema da imigração atravessa o país e que o Entroncamento, pela sua posição geográfica, sentiu essa mudança de forma mais visível. Apesar das incertezas, acredita que a nova liderança local poderá trazer energia renovada, dentro dos limites da lei.

“Eu não acredito que se consiga fazer milagres, há leis que se têm de cumprir e um homem ou um partido não estão acima das leis. Há uma Constituição a seguir. Vontade de fazer diferente eles têm. Agora vamos ver o que é que conseguem.”

Entre os balcões do comércio local e as conversas de rua, o sentimento parece partilhado: o Entroncamento entrou num novo ciclo político, e todos aguardam com expectativa se a mudança se traduzirá em resultados conretos.

Foto: mediotejo.net

Em pleno centro do Entroncamento, o café está quase cheio. Entre o tilintar das chávenas e as conversas cruzadas, a política ainda domina o tema das mesas. Dois residentes há mais de cinco décadas no concelho conversam sobre o resultado das eleições autárquicas, que trouxeram o Chega ao poder local. Pediram para não ser identificados, mas não esconderam as suas opiniões.

“Para mim foi um espanto”, começa por dizer a moradora que vive há mais de 60 anos no Entroncamento. Ao seu lado, outro reformado concorda, mas com um olhar mais pragmático sobre o sucedido.

“Cada um tem a sua opinião. Mas as legislativas tinham sido mais ou menos parecidas por aqui. Isto tem a ver com o abrir das portas que se fez aqui à comunidade estrangeira.”

O morador admite que a sua perceção sobre a cidade e a política local se alterou e que, se houvessem novas eleições, votaria no Chega. “Eu não votei no Chega, mas se fosse hoje votava. Há um descontentamento da população porque se abriu demasiado as portas à imigração. Nós que somos do Entroncamento e vivemos aqui há mais de 50 anos, achamos que tivemos um abrir de portas demasiado grande.”

Reconhece, no entanto, que a chegada de novas comunidades trouxe alguma vitalidade económica e dinamização ao concelho. “Não tem só contras, também tem prós. Dinamizou-se um bocadinho o negócio, o comércio, mas com isso vêm todas as coisas más. Se fossem amanhã as eleições outra vez, teriam 40 e tal ou 50%”.

Foto: mediotejo.net

Quando a conversa se volta para o futuro da cidade, com a tomada de posse de um novo executivo, as preocupações prendem-se, principalmente, com as questões de segurança. “Para os próximos quatro anos, esperava que houvesse mais controlo em todas as situações de entrada de estrangeiros aqui e haver Polícia Municipal. Porque não se vê polícia aqui, não existe. Temos de precaver as coisas…”

O morador critica ainda o que considera falta de ação política nos últimos anos. “Os 12 anos que passaram aqui do PS, o que fizeram? Nada, fizeram zero. Antes tínhamos 27 mil habitantes, hoje temos mais de 40 mil. Vamos às escolas, ao Centro de Saúde, à Segurança Social e está tudo cheio de pessoas que vieram para aqui. Os serviços que existiam eram para as pessoas de cá e afinal os serviços nem chegam só para as pessoas que vieram de fora. Essa é a base.”

A conversa termina com uma reflexão sobre a capacidade de governar a cidade e os limites da mudança trazida pelos resultados das autárquicas. Para os moradores, a vitória do Chega não garante automaticamente transformações, e a reversão de políticas anteriores parece fora de alcance:

“Não vão ser as autarquias que vão fazer uma reversão, teria de ser a nível nacional. É um sistema implantado… ainda mais porque o partido que ganhou as eleições não tem maioria absoluta. Quando houver votação para se fazer qualquer coisa, há quatro contra três. Se o Chega tivesse quatro vereadores, provavelmente podia haver um bocadinho de mudança. Assim, é ingovernável… tal como foram ingovernáveis os últimos anos aqui”, defende o morador.

Enquanto o café retoma o seu ritmo habitual e os clientes se dispersam, o resultado das eleições continua a pairar no ar. Entre o espanto, a expectativa e o descontentamento, a cidade parece dividir-se entre a esperança de renovação e a cautela perante o desconhecido.

Uma mulher, ouvindo atentamente, concorda com o diagnóstico e acrescenta: “As pessoas acharam que isto tinha que mudar e bem fizeram. É uma mudança radical. Precisávamos.” Outro homem confirma com um aceno: “Precisávamos muito.”

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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1 Comment

  1. Apenas para dar um abraço ao José Rei, um conterrâneo amigo que não vejo há muitos anos… tem família aqui no Tostão – Vila Velha de Ródão… gostei do seu depoimento, embora eu não comunga com as ideias do Chega, mas as culpas do seu avanço, são precisamente as que o meu amigo mencionou…a culpa do PS que esteve nessa Câmara Municipal muito tempo, sempre com portas abertas… é preciso controlar a imigração, mas sou a favor dela, como é óbvio.

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