Adérito Pinto no café Quarenta, em Mouriscas

No seu café em Mouriscas, no concelho de Abrantes, muito por causa das proezas inflacionadas pelos clientes do café ‘Quarenta’, Adérito Pinto fundou “O Clube dos Mentirosos”. O primeiro de abril é dia de folga mas 63 segundos depois da meia-noite já se paga copos para celebrar o regresso à mentira, motivo de diversão e de histórias contadas por quase todos os que frequentam o estabelecimento comercial. Em algumas percebe-se a brincadeira, noutras é difícil alcançar a aldrabice, em caso de dúvida o melhor é contar com uma única verdade: nenhuma narrativa é real.

No café ‘Quarenta’ não há conversas sérias, exceto no dia 1 de abril. Em Mouriscas todos conhecem ‘O Clube dos Mentirosos’ em que se transformou o estabelecimento comercial de Adérito Pinto há quase duas décadas. Pelo café contam-se as histórias mais mirabolantes, todas ligadas aos costumes e afazeres do povo que por ali passa com o intuito de beber um café, um copo de vinho ou jogar às cartas.

São expostas cabaças de 20 quilogramas, mostra superada por alguém que em casa tem sete ou oito todas com o triplo da capacidade.

“Havia uma de 70 quilos mas um garoto com um pontapé deitou-a ao chão e partiu-se” conta Adérito. Ou peixes, se os houvesse por estes tempos no rio Tejo, de 50 quilos para cima, ou ainda histórias da década de 1970 em que Alexandrino Serrano, mais conhecido por ‘Ratinho’, ia até Gouveia, de dezembro a março, para trabalhar nos lagares ganhando “300 escudos por dia com 10 horas de jorna, folga apenas ao domingo”, dia tirado para escorregar na neve.

No ‘Quarenta’, a sério só os produtos servidos, incluindo a água del cano “fonte dos amores” e o atendimento. De resto, nunca se sabe se o contador de histórias diz a verdade ou se está a mentir.

Alexandrino Serrano e Adérito Pinto

Na aldeia há uma “cidade ao pé do Tejo. Por lá passam barcos, autocarros, comboios” apesar de hoje ser dia de greve na CP, e até asas-delta, conta Alexandrino.

Aos 62 anos, faz parte dos melhores na arte de enganar o próximo, membro de um clube que chegou a ter cartões de sócio em que o número mais baixo correspondia ao maior mentiroso. Alguns membros mantém os cartões, mas com o crescendo dos mentirosos dentro e fora da aldeia, deixou de haver lugar a cartões, pela dificuldade que era perceber qual deles é o campeão do engano.

Cartão de Mentiroso de Adérito Pinto

“Tínhamos de atualizar os números dos cartões, sempre no dia 1 de abril, o único dia de folga anual, porque alguns membros até ficavam aborrecidos, achavam que mentiam mais e melhor que outros” numa quota mensal mínima obrigatória de 25 mentiras, conta Adérito Pinto, o sócio número 1.

Propósito fácil de atingir para quem é cliente regular do café ‘Quarenta’ desde 1999, ano em que surgiu na cabeça do fundador a ideia de criar um Clube, alimentado “pelas muitas mentiras” que se contavam no estabelecimento que herdou dos pais, “principalmente na altura da azeitona quando uns apanhavam 600 quilos de azeitona, outros mil, o que num dia é quase impossível”, explica Adérito.

Tal exagero originou a junção de um grupo de pessoas pelas quais foram distribuídos cartões. Atualmente os mentirosos de topo continuam a reunir-se uma vez por ano.

Uma cabaça com 20 quilogramas… que dificilmente pesará dois quilos

São trapaças, “brincadeiras que não prejudicam ninguém” garante Adérito, natural de Mouriscas, homem de alma portuguesa apesar da passagem pela Alemanha para onde os pais, imigrantes, o levaram com tenra idade. De volta às raízes assumiu o negócio de cafetaria e bebidas, espaço onde na noite passada, no fim do dia das mentiras, pagou “umas cervejas a uma rapaziada para celebrar” o regresso às ditas. “Era meia noite e 63 segundos” detalha Adérito.

Trata-se de um divertimento, “uma forma de passar o tempo, de descarregar um bocado depois de um dia de trabalho” onde todos já sabem ao que vão e por isso grande parte das vezes trazem “a história toda montada”, refere.

O horário do Clube dos Mentirosos

É em tom jocoso que Adérito Pinto diz que um dos membros colocou o seu alvará de mentiroso à venda na Internet. “Vai para Angola e lá não pode mentir”.

Por cá, há razões de sobra para continuar a empolgar a mentira até ao próximo dia de folga, a 1 de abril. O Clube, naturalmente, “é para manter!”.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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