No bar da Sociedade Recreativa do Souto, em Abrantes, vários vizinhos e amigos vibraram com a vitória de Miguel Oliveira, através da televisão. "Foi uma festa", confirma Ana, que ia servindo as cervejas. Créditos: mediotejo.net

O país vibrou hoje de forma especial ao ver Miguel Oliveira vencer o Grande Prémio de Estíria, na Áustria, a primeira vitória do motociclista português no Mundial de MotoGP. Mas no Souto, no concelho de Abrantes, houve quem festejasse de forma ainda mais emocionada. No café da Sociedade Recreativa juntaram-se à volta da Sport TV vizinhos e amigos do piloto, que costuma passar férias numa casa pertencente à família da noiva, Andreia Pimenta, naquela aldeia.

“Foi uma grande festa aqui”, contou esta tarde ao mediotejo.net a empregada do bar, Ana, e um dos vizinhos da casa construída nos terrenos herdados da família Pimenta (mas que nada tem a ver com o famoso J. Pimenta, um dos maiores empreiteiros do país nos anos 1970, e que era natural desta mesma aldeia). “Ele esteve cá há pouco tempo, antes de ir para as corridas… gostam muito de estar aqui e de ir dar uns mergulhos no [rio] Zêzere”, acrescenta um outro residente no Souto, comentando que “é um rapaz muito simples, muito simpático”.

O Souto tem cerca de 400 habitantes, mas as aldeias já não são como antigamente – nem toda a gente se conhece… E não fossem os símbolos dos patrocinadores de Miguel Oliveira, marcados nas carrinhas e caravanas que estacionam por vezes na aldeia, muitos nem saberiam quem era aquele rapaz alto e musculado, de 25 anos, que por ali anda de mota, a caminho de Bioucas do Zêzere, na albufeira de Castelo de Bode, em “treinos” descontraídos.

Na verdade, mesmo hoje, que não se falava de outra coisa senão da vitória do motociclista português, muitos ignoravam a ligação de Miguel Oliveira à terra. “A sério? Ele tem família aqui no Souto?”, perguntava um rapaz ao balcão do bar da Sociedade Recreativa, pedindo mais uma mini fresquinha. “Sim, naquela casa tal e tal, perto do senhor fulano…”, dizia um. “É um tipo fantástico, muito discreto”, acrescentava outro.

Há alguns anos, quando o bar Mourisco ainda estava aberto no largo da igreja (fechou entretanto), aos domingos era usual ver um grupo de senhoras mais velhas que ia à missa e depois ao café, espreitar a Sport TV, para ver Miguel correr. E se a corrida se sobrepunha ao sermão do padre… pois ganhava preferência a televisão!, garantem na aldeia. Eram “avós” e “tias-avós” do motociclista por afinidade, que acompanhavam as suas aventuras desportivas internacionais desde que ele ali passou a ter ligações à família Pimenta, quando tinha 13 anos, na sequência do divórcio dos seus pais (e posteriores casamentos).

O deputado na Assembleia da República Duarte Marques, de Mação, recordou hoje no Facebook como ficou impressionado com essa “visão”:

“Uma vez vi o Miguel Oliveira perder uma corrida na última curva, precisamente como ganhou hoje. No mesmo tasco no Souto (eram 10 manhã e eu em campanha eleitoral) estava uma velhinha focada na TV a ver uma corrida de GP2 que ficou em lágrimas. Pensei, ou é doida ou só pode ser da família do Miguel. Era a avó materna. Espero que esteja bem orgulhosa.”

Miguel Oliveira fez hoje história no motociclismo português. Créditos: SportTV

Hoje, no final da prova, Miguel Oliveira dedicou a vitória a todos os portugueses e, em especial, à família: “É um momento muito emocionante. Muito obrigado a todos os que acreditaram em mim, a começar pela família, que está em casa. À equipa, aos meus patrocinadores e a todos os portugueses: Sim, somos mesmo os melhores! Obrigado a todos pelo apoio. Hoje fizemos história, para mim e para o meu país. Não podia estar mais feliz por conseguir fazer isto em casa da KTM e da Red Bull. Obrigado a todos.”

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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