Exposição 'Fotografias de Rodagem do Cinema Português' no Teatro Cinema de Ponte de Sor. Créditos: CMPS

A exposição itinerante da cinemateca portuguesa ‘Fotografias de Rodagem do Cinema Português’ foi inaugurada, no sábado, 5 de novembro, em Ponte de Sor. A mostra pode ser apreciada no Teatro Cinema daquela cidade até 31 de dezembro.

Esta exposição foi concebida para as comemorações do Centenário do Cinema Português e apresentada pela primeira vez no Festival de Cinema de Curtas Metragens de Vila do Conde, em 1996, tendo desde então percorrido o nosso país.

Exposição ‘Fotografias de Rodagem do Cinema Português’ no Teatro Cinema de Ponte de Sor. Créditos: CMPS

Composta exclusivamente com material pertencente ao Arquivo Fotográfico da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, esta exposição parte de uma constatação prática: seria impossível organizar uma exposição de fotografias de rodagem que cobrisse toda a história do cinema português, pela simples razão de não existir documentação fotográfica abundante e de qualidade sobre as rodagens de todos os períodos. Existe muito pouco material sobre o período dos primórdios e o período mudo em geral. E também existe pouco material sobre o período mais recente, pela simples razão do fotógrafo de cena estar a desaparecer do cinema português. Estes períodos estão representados nesta exposição, porém os dois períodos sobre os quais existe material mais abundante são o Cinema Novo, nos anos 60, e sobretudo o que deve ser considerado o período clássico do cinema português, os anos 30 e 40. Dois tipos de cinema extremamente diferentes, um de índole populista a que não faltava o “star system” e cuja vocação declarada era o entretenimento, o outro em ruptura com estas noções, com os homens que as representavam e com a sua ideologia, que marca a chegada do cinema moderno a Portugal.

No entanto, mais do que a vontade de traçar uma historiografia do cinema português, a escolha foi guiada pela variedade de momentos característicos de uma rodagem que estas fotografias contêm: a complicada preparação de um movimento de câmara, a presença de um actor prestes a transformar-se no seu personagem, os bastidores de um cenário, a construção de um ambicioso cenário de estúdio, a desolação de certos cenários naturais (pó, lama…), o contraste entre o trabalho em estúdio e em cenários naturais (o contraste entre dois tipos de cinema), os interiores filmados em exteriores nos heróicos tempos do mudo, o realizador reinando sobre a equipa, de megafone em punho, o realizador com o olho no visor, a claquette, e também o tédio da longa espera entre dois takes, a manipulação física da película como matéria-prima, na fase da montagem, a presença dos assistentes e dos técnicos, aqueles operários do cinema cujo nome e cujo rosto o público sempre desconhece.

As fotografias de rodagem não são fotografias de filmes, não contêm nunca imagens do filme, mesmo quando o enquadramento é o mesmo, apenas e por vezes alguns daqueles elementos do complicado e estafante artesanato que é uma rodagem (quem já pôs os pés numa rodagem sabe quantas horas de trabalho são necessárias para alguns minutos de película impressa) e que permitem identificar um filme. Quem conhecer o cinema português não terá dificuldade em reconhecer certos rostos nestas fotografias, realizadores, actores, alguns técnicos. Mas sobretudo, entre fotografias claramente “de pose” e outras que são certamente “instantâneos”, entre o ar senhoril de certos realizadores e o ar mais informal de outros, esta exposição permite-nos refazer, através de um fio narrativo, diversas etapas de um trabalho que a passagem do tempo e o estatuto da fotografia transformaram noutra coisa. Há poucos grupos humanos mais fechados do que uma equipa de filmagem. Numa exposição como esta, diversos destes grupos são desfeitos e refeitos, para o puro prazer do visitante.

António Rodrigues (in Catálogo do 4º Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde – 1996)

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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