A morte é uma chatice. A gente inspira, suspira e de repente apaga-se. Umas vezes nem damos por ela. Doutras, pressentimos e sentimos por tempo de mais.
Não sei qual a melhor altura para morrer, mas algumas há em que não dá muito jeito. Agosto é uma delas. Quase não se dá por isso. Um ou outro familiar, um ou outro amigo mais próximo, e para além do padre, da funerária e do médico legista, pouca mais gente se apercebe.
Até o funeral é mais triste e, para além do morto que não pode faltar, falta sempre imensa gente. Principalmente aquela que vai pôr a conversa em dia nos casamentos e funerais. Com o óbito dos primeiros, já só o faz nos segundos.
E assim, quem parte, parte praticamente sozinho, sem dar nas vistas, e só se dá por ele ou pela sua falta, quando, regressados de férias, não o encontramos nos lugares do costume.
Se a morte é ausência e saudade, Agosto é altura de as matar e não de as deixar a quem fica.
Mas, a vida é assim mesmo e, no final do mês, com o regresso ao trabalho, à escola ou à empresa, todos nós, os que por cá continuarmos, daremos então pela falta de alguém que resolveu partir em silêncio e em segredo, para não incomodar, nem nos interromper as férias de Verão.
E então, com o atraso justificado, lá daremos as mais sentidas condolências, aliviados por nos terem poupado ao cemitério e ao velório.
A morte é sempre uma chatice, mas morrer em Agosto é, por vezes, também um alívio. Afinal de contas, são os paradoxos da vida…
Crónica escrita em agosto de 2014, infelizmente, sempre actual.
