Morango de Mação, um acaso e uma homenagem frutada de João Alves ao avô Sarilho. Foto: mediotejo.net

Se acreditarmos nas coisas do destino, provavelmente diríamos que estava escrito que um dia a carolice de plantar uns pés de morango no quintal viria a traduzir-se num projeto familiar em expansão e agora num sonho para concretizar a médio longo prazo uma quinta biológica, sustentável e pedagógica aberta ao público, diverso e vindo de todos os cantos do país.

Na verdade já o é, mas a exigência e o rigor são palavras que a João assentam como valores inabaláveis, e por isso há que seguir, passo a passo, para atingir a consistência do que tem planeado para o seu pedaço de terra.

Uma área que fica num vale à entrada da aldeia, e que a pouco e pouco se vai expandindo, com o proprietário – natural de Oleiros mas a residir em Mação há cerca de 15 anos, depois de ter deixado o emprego na Câmara Municipal de Almada e optado pelo regresso ao Interior – a ir acrescentando peças a este puzzle do mundo da fruticultura, que o tem conquistado mais e mais.

João Alves, a mulher Sandra e o filho Guilherme junto à nova aposta, a plantação de meloa. Foto: mediotejo.net

Voltemos ao princípio: tudo começa com a ingenuidade de quem aproveitou a oferta de um conhecido e que achava que cinco centenas de pés de morango iriam servir apenas para consumo próprio, só para a família.

“Achávamos que esses pés serviriam apenas para nós, para nosso consumo. Mas houve ali uma explosão de morango (risos). E na altura já nos dávamos bem com o dono do hipermercado aqui de Mação, que um dia apareceu aqui e ao ver tanto morango perguntou o que é que íamos fazer. Eu disse-lhe que podia levar os que quisesse e os comesse. E lá começou a apanhar numa série de caixinhas e levou. No dia seguinte estava cá novamente. Tinha experimentado vender na loja e a aceitação não podia ter sido melhor”, conta João Alves.

“No ano seguinte já estávamos a plantar mil pés, depois já tínhamos 5 mil, 15 mil, 20 mil, 30 mil… e neste momento já temos cerca de 42 mil pés de morango na quinta e tiramos entre 20 a 25 toneladas de morangos da produção”. O que era para ser a colheita para auto-consumo virou um negócio de sucesso de e em família.

Foto: mediotejo.net

Ali trabalham João Alves, que é fiscal na Câmara Municipal de Mação, a esposa Sandra e a cunhada Alexandrina (naturais de Proença-a-Nova). Mas também o filho, Guilherme, é interessado, e envolve-se muito nas atividades da quinta, incluindo a tarefa de provar as primeiras frutas de cada época.

Além de se ter de deitar as mãos à terra, há também muita burocracia, com papelada e organização das encomendas, o receber pessoas, o expediente,… e nisso Sandra e Alexandrina, a par do apoio dado pelo contabilista, vão dando conta do recado.

O processo durou oito anos, e recordam-no agora com muito riso e boas lembranças, porque foi uma aprendizagem por tentativa-erro e com muitas asneiras e desenrasque pelo meio, numa experiência autodidata.

“Começámos de tanta forma ortodoxa, íamos ver à Internet como se faziam estes processos, mas depois aquilo não batia certo. Todos os anos mudávamos a forma de produzir e cuidar”, assumem Sandra e João durante a nossa visita ao Rosmaninhal, na transição para a nova plantação da época 2022/2023 e após os testes de plantação de meloa, melão e melancia.

A estufa número um, mais pequena, onde tudo começou. Foto: mediotejo.net

“Estragámos tanto dinheiro para aprender. Para chegarmos onde chegámos hoje, foi um processo muito engraçado, mas muito doloroso. Principalmente estes três ou quatro anos representaram muito sacrifício. Foi muito dinheiro aqui investido… um investimento de cerca de 250 mil euros. Foi muito duro”, conta João Alves.

Houve decisões importantes a tomar, com opções pessoais e estratégia de investimento para manter o equilíbrio financeiro. Venderam a vivenda mais acima, que tinham construído, e com isso cobriram o investimento inicial na produção e ficaram libertos para continuar a expandir o negócio conforme o sonho que idealizam para a Quintinha do Sarilho.

Fizeram outra casa, mais modesta, junto às estufas e na envolvente do projeto, que estão a acabar, mas que também lhes enche as medidas.

E dali estão a passos desta atividade que é um extra além dos empregos que têm, um trabalho de domingo a domingo, e que implica ter pessoas a trabalhar na quinta para ajudar nas tarefas e apoio na produção e colheita, especialmente nos chamados “picos”.

“Temos alturas em que nem vagar temos para almoçar nem jantar”, admitem.

Nas épocas festivas o número de pessoas a visitar e procurar a produção cresce exponencialmente. “Este ano na Páscoa, fora os nossos clientes habituais, foi surreal… chegámos a fazer aqui 16 horas. Chegamos a um ponto em que estamos derreados de cansaço”, diz João.

Além da receção dos clientes e visitantes, há uma certa luta contra o tempo porque “o morango é uma fruta que não espera”, com o amadurecimento a ser mais rápido com a chegada da primavera/verão.

 “No verão queremos apostar na meloa, porque o morango é muito chato. Além do inconveniente, porque não espera, temos neste momento um outro grande inconveniente, uma praga chamada Drosophila suzukii, uma mosca da fruta que pica o morango e tivemos este ano grandes problemas, porque não curamos e não aplicamos pesticidas. Perdemos cerca de uma tonelada de morango”, desabafa o produtor.

Todo o trabalho se perdia, não só pela fruta, mas por todo o trabalho de embalar, rotular, entregar aos clientes de revenda. “Depois chegávamos à banca e estava a desfazer-se. Mas apanhamos a fruta sã, não há forma de ver na maioria, mas foi uma situação complicada”, nota.

As estufas são de policarbonato, e tornam-se por isso bastante quentes. E nesse sentido João quer sobretudo plantar morango em setembro e outubro, para produzir até junho e aí começar com as frutas de verão.

Refere que o mercado do morango no verão sai muito pouco, pois “há muita variedade, desde pêssegos, melancia, melão e meloa, framboesas,… há uma panóplia de outras frutas. Vende-se muito morango no período de dezembro e maio/junho, e é aí que temos de apostar”, crê.

“É a essência da natureza. O mundo do transporte faz tudo e leva tudo. Mas devemos comer o que o habitat nos dá. Comer as frutas nas devidas épocas”, defende.

Os produtores têm tirado formação e contam com o apoio de um engenheiro agrónomo, Luís Barros Ventura, de Caldas da Rainha. “Um técnico muito bom. Eu chamo-lhe a enciclopédia ambulante. Faz um trabalho muito bom em termos nutricionais e em termos de planta”, reconhece.

“Uma planta é quase como ter um filho. Olhamos para ela e temos de saber se está doente. Pelo aspecto dela temos de saber percebê-la. Se tem sede, se tem oídio,…”, afirma.

“Eu não sou um vendedor. Eu sou um produtor. Eu não sei vender. Tenho esse defeito ”

João vive muito a produção e tem muito respeito pela terra e pela natureza. A vivência de infância contribuiu para a valorização que dá à produção biológica, conceito que aplica na quinta e que não descura. Mas ainda há muito para fazer e investir.

“O futuro ninguém o sabe, mas em termos de investimentos acho que o primeiro salto foi o mais violento. Está quase ultrapassado e pago. Acho que temos condições para fazer uma coisa diferente mas com muita clareza e muito espírito de oferta e de paz e amor para os nossos clientes”, revela.

“Não queremos que seja industrial, onde há morango há pazada e onde vale tudo menos tirar olhos. E não queremos isso. Temos de ir com calma, devagarinho, porque dói. Só para arranjar um canto com plantação, para os testes de fruta como a meloa, gasta-se 5 mil euros num ápice. E hoje a preocupação não é faturar; é conseguir lucro”, nota.

O fator ‘despesa’ é muito grande, a par da mão-de-obra, e os produtores dizem que tudo acontece por sacrifício próprio. “Às vezes acabamos a não ter tempo para nós. Sacrificamo-nos muito, mesmo. Eu tenho consciência que tenho sacrificado muito os meus nos últimos tempos aqui. Mas são os espinhos da vida”, suspira João.

Foto: mediotejo.net

Ali, junto dos ensaios das novas frutas introduzidas no verão, revela que superaram as expetativas. “A meloa está divinal, não tem qualquer tipo de químico, zero. Foi plantar e agora colher”, relata, dando conta de que ali plantou cerca de 2600 pés de meloa, juntamente com um pequeno ensaio de melancia e melão pele de sapo.

Esta é a única produção feita na terra, no chão, porque tudo o resto é predominantemente plantação feita em suspenso, no ar, a que João mais gosta e que diz mais se ajustar ao seu projeto.

“Pelas pragas, pela formiga, por fungos… aqui, no caso da meloa, há muita que se estraga porque está no solo e mais vulnerável, e não aplicamos qualquer produto químico”, explica.

De frente a área de expansão, que ultrapassa a estrada que vai para o centro da aldeia. Foram adquirindo terrenos de minifúndio de proprietários que, com a passagem do incêndio em 2017, se quiseram desfazer das propriedades que estavam ao abandono. O foco está voltado para a expansão, num projeto ambicioso e “acima de tudo atrativo”.

“Não queremos ter uma coisa completamente industrial; queremos ter aqui uma coisa onde o nosso consumidor se sinta confortável em vir, e proporcionar muitas experiências”, diz.

Hoje já recebem grupos de caminheiros, grupos de participantes em retiros espirituais e de bem-estar no concelho. “Há grupos que aqui se dirigem e que acolhemos, de caminhadas das Rotas de Mação, dos retiros da Zen Family… Temos uma parceria e os grupos vêm até aqui e as pessoas podem apanhar a fruta no morangal, fazem degustação, proporcionamos experiências gastronómicas com fondue de chocolate, morango com mel, cocktails,…”, enumera.

A ideia é proporcionar cada vez mais experiências. “Queremos ter no meio das plantações pequenas zonas de degustação, por exemplo, se um casal de namorados vier e queira estar a apreciar um cocktail, uma sobremesa, passar ali um bocadinho,… é o nosso objetivo”, conta.

Já a principal preocupação é a aposta na qualidade. “No verão vamos ter zonas de lazer, nesta baixa vamos ter uma grande lagoa. Vamos plantar mirtilo ou melancia e teremos uma zona pedagógica, com animais à solta, zona de pesca, esse tipo de atividades complementares”, vai imaginando João.

Um dia também ali será possível acolher os seus amigos e conhecidos, porque quer ali implementar uma espécie de turismo rural, inserido na quinta e permitindo uma experiência de pacote completo, inserida na rotina de trabalho e que permita usufruir do local desde que o sol se põe até que volta a nascer.

Também existirá um salão de provas e uma loja de produtos da quinta e de produtos diferenciados do concelho. “Vai ter uma kitchenette, um salão com zona de degustação e exposição de produtos, com vidraça para dentro da estufa de inverno e para a zona exterior que também será ajardinada e conterá ali uma grande talha que tomará a forma de um morango gigante” – a imagem de marca, ao estilo de mascote estática, da Quintinha do Sarilho.

Mais abaixo um velho contentor, que será remodelado e transformado, e que será uma loja de venda ao público. “Cada vez mais temos pessoas a vir aqui comprar, e que vêm de longe. Pessoas que passam na A23 e que desviam, para dar um salto ao Rosmaninhal, à nossa quinta”, revela, feliz e orgulhoso do feito.

Na altura da colheita do morango são contratadas mais pessoas, mas a fasquia é elevada porque os requisitos são exigentes para a contratação.

“A apanha do morango e o que segue para o mercado passa por nós os três, sempre. Há uma minuciosidade e um grau de rigor da nossa parte muito acima da média, que as pessoas muitas vezes não conseguem acompanhar e ir ao encontro dessa postura”, assume João Alves.

Para a limpeza a exigência diminui e qualquer pessoa pode entrar para o fazer. É a fase em que se apanham os frutos que seguem para o ‘lixo’ ou aqueles que possam ser reaproveitados para confecionar compota, por exemplo.

Foto: Rotas de Mação

Mas o acondicionamento dos frutos que seguem para o mercado, que têm de estar, além de comestíveis, apresentáveis na caixa, “de maneira que o consumidor olhe e veja que há ali amor, entrega, há qualquer coisa diferente. Isso vende”.

“Isto tem um segredo. Temos de o apanhar com a ‘almofada’ e o grau de aperto é tão sensível… eu só de olhar para as caixas, sei logo quem apanhou”, conta.

Apesar de ter mercado para 70 a 80 mil pés de morango, diz não se aventurar por uma simples razão: “não tenho mão-de-obra qualificada e ao nosso rigor”.

“Tudo o que aqui tenha, terá que corresponder à nossa capacidade, pois temos que ser nós a fazer a fim de manter este rigor e qualidade. Temos marca registada, certificação de qualidade, temos tudo o que é burocrático em dia. E não podemos perder esta essência”, justifica.

Ali não entram químicos, mas o preço a pagar é bastante elevado. E para João, até injusto.

“Aplico no inverno, às vezes, um produto biológico. E esse é outro antagonismo: os produtos biológicos são tão caros, quando não o deviam ser. Se tudo aponta para o que é bom, para o biológico… e se a agricultura está cada vez mais a dar valor ao que é biológico. Nós vamos ao mercado comprar um produto para a podridão cinzenta que me custa 300 euros um pacote. Se aplicasse um produto fitofarmacêutico do mercado custava-me 15 euros. Não há equilíbrio. É terrível”, lamenta.

A lista de clientes e revendedores está estável e assenta na produção atual. “Já fornecemos para o Intermarché de Mação, para o de Proença-a-Nova, parte do ano no Intermarché da Sertã, vendemos ainda para um armazém de frutas no Gavião, temos um outro armazém em Castelo Branco. No concelho temos cinco ou seis minimercados e mercearias, na Ortiga, Cardigos, Envendos, Amêndoa, mas também fora de Mação, caso da aldeia de Catraia Cimeira, em Proença, mas também para uma mercearia gourmet em Lisboa. Também levamos para as IPSS, no final da época, que é de calibre mais pequeno, algum vendemos a um preço mais justo, face ao que pagamos às pessoas que vieram à apanha, e outro oferecemos”, explica.

Em alturas de pico, chegam a estar ali 10 pessoas no grupo para a limpeza (retirar o morango que não serve para venda) e na plantação chegam a estar 15 pessoas. “Queremos plantar o mais breve possível para a planta crescer toda homogénea, para começar a dar frutos na mesma altura. Se houver diferença de 15 dias na plantação, pode dificultar o processo de apanha, mas também levar a diferenças nas plantas”, alerta.

Foto: Rotas de Mação

O processo de plantação é em suspenso, protegendo das humidades, dos fungos, e para favorecer a mão-de-obra. “Imagine o que é passar 10 horas «de rabo para o ar», é duro. E já passámos por esse processo no início. Chegávamos ao final do dia com as costas… ai Jesus! E no outro dia tínhamos de lá estar novamente”, diz, rindo-se agora das dores de crescimento da quinta.

Hoje em dia está tudo fixo, a cerca de 1,20 metro de altura, e é um processo que tem um substrato específico à base de fibra de coco, húmus, turfa de pinho e casca de pinho envelhecida, feito em fábrica por encomenda, em Aveiro. Ainda na semana anterior à visita ali chegaram dois mil sacos.

A variedade de morango da quinta é a Savana. Um morango que se faz grande, suculento, vistoso. E uma vez que as estufas se tornam demasiado quentes no inverno, é usada uma planta de raiz nua fresca, uma planta que vem de altitude, de viveiros na Serra da Estrela, sendo que também há em Navarra, Espanha. Explica-nos João que “a planta precisa de pressão atmosférica e frio; quanto mais horas de frio tiver melhor”.

“O meu morango de rua é plantado na mesma semana que o de estufa, e em dezembro começam as plantas a dar frutos e o de rua apanha chuva, frio, geada, e em abril começa a dar uma carga de morangos. Em 13 mil plantas, este ano tivemos ali apanhas de 900 kg”, indica.

Ali, a planta faz o ciclo natural, começa a dar em dezembro e dá frutos até maio ou junho de forma constante, e isso permite programar o mercado para escoar a produção.

“Levantamo-nos às cinco da manhã e até às 9h00 estamos aqui. Depois saio às 17h30, e continuamos. Já chegámos a andar aqui com lanternas na cabeça pela noite dentro, e já chegámos a andar noites inteiras na apanha, cheios de cãibras, para no dia seguinte levar a encomenda ao cliente”, recorda.

Ponto assente é que se a fruta não estiver em condições de ser colhida e não estiver madura, não segue. João crê que o consumidor vai comprar e depois vai queixar-se que a fruta está verde e sem sabor. E quem fica mal é o produtor e não o revendedor. “Aqui a máxima é «não está em condições, não vai». Somos nós os primeiros consumidores, e se não está bom para nós, não está bom para os outros”, frisa.

Foto: Zen Family

A falta de água, tema que a todos tem gerado preocupação e que está na ordem do dia, para já, não é ameaça para João, porque aproveitam a água do furo, e têm vários poços e uma lagoa ao dispor. A rega é programada e tem controlo.

“O excedente da água da rega dos morangos da estufa passa por funis e segue para uma conduta que leva a um depósito de 10 mil litros de água, que reaproveitamos, e todas as águas sobrantes que recolhemos oferecemos a pessoas que possam precisar para regas mais exigentes, para jardins e pomares, por exemplo. A ideia é não haver desperdício nem impacto ambiental”, reconhece.

A vertente pedagógica também está muito presente, com alunos das escolas e utentes do CRIA a visitar a quinta, e até do curso de Restauração e Hotelaria do Agrupamento de Escolas de Mação, para o qual também fornece.

Além da expansão com a meloa e o melão, e o mirtilo no verão, pretendem avançar com a alface no inverno. E nisto vai dando uma olhada para dentro das estufas em transição para a próxima época, após vistoria, e vai espreitando o jovem que ali colabora em trabalho de verão e que vai ajeitando e perfilando os sacos de substrato para a nova plantação.

Vamos atravessando a estufa, que chega a atingir os 50 a 60 graus de temperatura no seu interior. Passamos por cima das marcações feitas com fio para alinhar as carreiras do morangal.

“Parece simples, mas as pessoas não veem o que está debaixo do chão. Estão mais de 20 tubos para o projeto de prevenção contra incêndios, aspersores por cima, condutas, cabos elétricos… A infraestrutura não se vê”, aponta. Ali, enterrado, está uma grande fatia do investimento.

A equipa da Quinta do Sarilho: Sandra, João e Alexandrina. Foto: mediotejo.net

O avô Sarilho e as memórias de um passado duro mas muito feliz

Foi criado pelo avô, homem que recorda com os olhos inundados de brilho e comoção. Conta que a mãe o teve com 17 anos e que o pai não o queria. Ficou entregue ao avô Zé Sarilho.

Não porque se metesse em confusões ou arranjasse problemas. Não são sarilhos desses. Aqui, o sarilho era outro.

A história remonta à partilha de heranças do bisavô, que era da aldeia de Fórneas, no concelho de Proença-a-Nova. E o avô foi, certo dia, por montanhas, montes e vales, num carro de bois para ir buscar a herança.

“Quando lá chegou, os irmãos tinham partido tudo. A única coisa que ficou em casa foi a dobadoura de linho, também chamado sarilho. E o meu avô, com raiva, pegou naquilo, colocou em cima do carro dos bois, atou com uma corda e caminhou outro dia inteiro para casa, em Oleiros”, começa por contar.

À chegada, o avô parou na praça de Oleiros, e “foi beber um copinho de vinho à tasca e disse ‘Aqui está a minha herança. Os meus irmãos tramaram-me mas o sarilho do linho não lá ficou, que eu tinha de trazer alguma coisa do que herdei”.

“Foi bebendo uns copos e emborrachou-se. A cada pessoa que entrava ele só falava no sarilho. De tanto falar no assunto, as pessoas deram-lhe essa alcunha, ficou conhecido como Zé Sarilho”, explica João, visivelmente emocionado e mostrando muito orgulho no avô que o criou e por quem diz ter “muita estima e uma paixão fora do comum”.

Recorda os momentos na colheita da resina nos pinhais, e quando ia lavrar aos seis anos com o avô à frente dos bois. Se tivesse fome, bebia leite ao ordenhar a cabra que por ali pastava e que cumpria tarefa mal o avô assobiava, ou aproveitava as maçãs da horta. Bebia água com auxílio de uma malga da resina a partir de uma bica.

“Comia-se numa cozinha onde a alegria imperava. Recordo que havia tanto fumo e que puxávamos a mesa da parede, e era colocado o alguidar com as couves ratinhas, feijão vermelho, batata, toucinho. Cada um usava o seu garfo e todos comiam dali. Por cima estava o caniço das castanhas a secar, para se comer a castanha pilada, que se cozinha no inverno. E por baixo ainda existia o fumeiro das chouriças a secar. E a buraca, a lareira que não tinha chaminé, trazia o fumo para o fumeiro e ali estávamos a comer e a esfregar os olhos”, recorda João, com saudade.

Também diz recordar a broa de milho do avô, com um pedaço de toucinho que derretia ao lume de chão, que funcionava noite e dia como fonte de energia e calor. “Nunca passei fome, nunca na minha vida, mas comia aquilo que havia e que os meus avós tinham. Era uma casa abastada, o meu avô era um agricultor já com algumas posses na altura. Um homem de um 1,95 metros e 130 kg”, carateriza.

Uma das coisas que aprendeu com o avô Zé Sarilho, com quem trabalhou desde muito cedo, foi sobre a importância de ter palavra. “Coisa que hoje não existe, as pessoas não sabem o que é ter palavra, o que é honra. Assisti muita vez o meu avô fazer negócios, pessoas que vinham pedir empréstimos para adquirir propriedades e afins”, diz.

O avô andava sempre com um maço de notas na camisa, e os negócios eram sempre feitos ao pé da pipa do vinho. Sentavam-se numa laje de xisto. “O meu avô dizia para a pessoa tirar um copo de vinho. A pessoa tirava o espeto de moita que trancava, servia, e eram os dois copos de vinho que serviam de testemunhas. E dizia que quando a pessoa pudesse devolver, para o fazer, porque outro poderia vir a precisar. Ao emprestar bebiam dois copos de vinho. Quando devolviam o dinheiro, era uma borracheira ao pé da pipa novamente”, lembra João, rindo-se.

Foto: mediotejo.net

Conta que, aquele que falhasse a devolução do dinheiro emprestado, era enxovalhado à porta da igreja, pois não tinha honra. “Hoje, nem um papel escrito vale de nada. Perdeu-se a essência da vida e do ser humano”, lamenta.

E daí o nome da quinta.”Como tive esta infância, achei por piada mostrar que tenho orgulho disso e de quem sou. E dei o nome de Quintinha do Sarilho, um louvor e uma homenagem ao meu avô, que me criou e que tanto me deu na vida”, conclui.

Lembra o espírito dos agricultores, das trocas de produtos e partilha, do empréstimo das juntas de bois, das desfolhadas durante semanas inteiras, noite dentro, à luz do Pitromax. Dos 500 a 600 litros de aguardente que o avô fazia, que servia para beber logo de manhã com o café das velhas feito num púcaro de alumínio, metade café, metade aguardente para aguentar a jornada de trabalho. Isso e as sopas de cavalo cansado.

João fala destas memórias com carinho e respeito, como fazendo parte da alma do projeto. Fiel a si próprio e aos ensinamentos do passado. E crê no futuro, porque o filho, Gui, adora a plantação e ajuda em tudo o que pode. “É daqueles que come à brava, chega a comer meio quilo de morangos num dia”, conta João, fiando-se na longevidade desta semente que ali deixou e que está a germinar.

Por seu turno, Guilherme confirma que assim o é. O fruto preferido é o morango, mas não se faz rogado a provar a meloa e a melancia, e tudo mais que a terra der. Diz que tem o estatuto de provador oficial, e é quem atesta a qualidade logo no início de cada produção. Os pais dizem não entender como ainda não enjoou os morangos.

Joga futebol na Associação Desportiva de Mação, e um dia talvez venha a ser treinador. É benfiquista. Sente-se feliz pela liberdade que tem ao correr e brincar nas estufas, no meio do morangal de rua, na plantação de meloas, e consta que vai semeando bolas de futebol aqui e acolá. Mas na hora de arregaçar as mangas, está sempre pronto a ajudar. É saudável e feliz, não têm os pais qualquer dúvida.

No morangal de rua, hora de provar os morangos de fim de época. Carnudos, vermelhos, doces. Mas cujo calibre já não segue as medidas exatas de João para a venda ao público. Mas não ficam por comer. E junto à plantação a fruta, colhida e logo degustada tem outro sabor. Mais intenso. Mais ligado à terra. Uma experiência que une os todos os sentidos. O tal amor e dedicação que João quer proporcionar a quem visita.

Este ano, ganharam-se novos sabores. Também se provam os testes de meloa, que foi fruto ganhador na temporada e que conquistou muitos paladares. Mas a melancia e o melão não se ficam atrás.

Guilherme também aprova, e vai assistindo à apanha minuciosa e ao corte de cada talhada nas mesas de apoio. Ao lado, as abelhas e vespas deliciam-se com o balde onde são depositadas as cascas. Também merecem.

Os dias na Quintinha são longos, preenchidos e cheios de doçura. Quem ali chegar, dali não parte sem um mimo, mais que não seja provar a fruta da casa. Isso e muitos sorrisos e boa disposição.

É a maneira de ser e estar, o cuidar do outro, o foco nos detalhes e no respeito por quem chega. Ingredientes que compõem a alma deste lugar, inspirado nos ensinamentos do avô Sarilho. O homem grande e justo, cuja memória ali está enraizada. Na alma da quinta e no coração do neto João.

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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3 Comentários

  1. Li toda a reportagem , um bom exemplo a seguir para quem gosta de aventuras de viver no campo e sobreviver dele ,mas atenção estejam preparados para os sacrifícios que a vida do campo tem ,tal como nos conta o JOÃO decidiu mudar de ARES e de VIDA ( de Almada de ares polo-idos para Mação com ares saudáveis ) para se concretizar estas aventuras não basta ter vontade de mudar alem de ter terrenos tem de dispor de uma situação financeira que lhe permita a iniciação e sobrevivência,nem tudo é um MAR de ROSAS e o JOÃO DÁ O EXEMPLO , muitos parabéns para o JOÃO E SUA FAMÍLIA e há jovem jornalista, JOANA RITA SANTOS ,

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