epa05105524 Moldovan citizens, supporters of 'Our Party' attend at a protest in front of Parliament in Chisinau, Moldova, 16 January 2016. People protest against Vladimir Plahotniuc and ask early election. The Democratic Party appointed Pavel Filip, as candidate to Prime Minister of Moldova, after the rejection by president of candidature of Vladimir Plahotniuc on 13 January 2016. Moldova's Parliament must elect the prime minister until 29 January 2016, otherwise early parliamentary elections will take place. EPA/DUMITRU DORU

Do Leste para o Este

Esta crónica quinzenal incorre num enorme risco, tanto o cronista ou o leitor, de se proceder a uma normalização de eventos políticos não-normais, apesar de não ser esse o intento. O objectivo deste espaço é dual: 1.) pedagogia, dando a conhecer zonas do globo menos mediatizadas e 2.) maturação crítica, dando ao leitor os instrumentos para ler o mundo que o rodeia. Ler o mundo sem normalizar o que não é normal!

Já tem pouco de novo dizer, na imprensa, que a Democracia enquanto modelo político falhou em várias regiões do globo. Tem pouco de novo, e pouco de correcto. O que falhou foi a instrumentalização, por um conjunto de Estados do Ocidente, da Democracia Liberal à la carte. A Democracia não se esgota na sua variante Liberal-Ocidental. Mas foi esta que se imputou ao espaço pós-soviético, nos anos 1990, e a Moldova sofre agora a “agonia do abastardamento”.

A Moldova tem assistido a uma série impressionante de grandes manifestações políticas, desde Outubro de 2015, que pedem pela demissão dos governos (sim governos, no plural) pró-Bruxelas. E, por extraordinária coincidência (claro está!), os media ingleses, franceses, espanhóis, italianos, alemães e portugueses pouco ou nada têm noticiado do facto. Fosse um governo pró-Moscovo e a coisa seria bem diferente…

Pausa! A política na Moldova divide-se menos por linhas ideológicas e mais por centros gravitacionais. De um lado da barricada a atractividade solar de Bruxelas (que ora ilumina, ora encandeia!); do outro lado o magnetismo lunar de Moscovo (que ora reluz, ora obscurece!). Quanto aos “governos” no plural diga-se que desde as eleições parlamentares de 30 de Novembro de 2014, a Moldova já conheceu seis Primeiros-Ministros (dois dos quais apenas com poderes de gestão).

É que em Outubro de 2015 veio a lume um enorme escândalo financeiro, que manchou a imagem dos partidos pró-Bruxelas e atiçou a raiva popular a tal ponto que até o Parlamento já foi invadido pelos populares, a 21 de Janeiro deste ano. O escândalo de Outubro levou à queda de Valeriu Streleț (quarto, de seis Primeiros-Ministros!) após a aprovação de uma moção de censura no  Parlamento da Moldova. Já antes, em Junho, Chiril Gaburic (segundo, de seis Primeiros-Ministros) se demitira por suspeita de falsificação de diplomas escolares…

Pavel Filip (sexto, de seis Primeiros-Ministros!), que chegou há pouco mais de um mês ao topo da hierarquia governativa, já assumiu saber que esta é a “última oportunidade” para os governos pró-Bruxelas conquistarem uma opinião pública, que há muito clama por novas eleições por considerar menos legítimo um governo incapaz de se descolar do escândalo financeiro e de promover reformas que transformem o Estado mais pobre da Europa.

Segunda pausa! É relevante mencionar que o actual governo é suportado por uma coligação pós-eleitoral de três partidos, nenhum dos quais “vencedor” das eleições parlamentares. Os  Liberais-Democratas ficaram em segundo, os Democratas em terceiro e os Liberais em quinto. Em primeiro ficaram os Socialistas, pró-Moscovo, que nunca consideraram ilegítimo, ou menos legítimo um governo suportado por uma coligação pós-eleitoral. Curiosidades…

Como se tudo isto não fosse instável que bastasse, têm aumentado os rumores de que Washington tem trabalhado com Bucareste para reunificar os dois países num só em 2018. O plano, obviamente negado por Washington mas que aumentou a tensão em Chisinau, até tem nome de código e tudo: “Unirea 2018”. É esta mesma Moldova que a Europa, ainda há pouco, mostrava com orgulho como sendo a  “boa aluna” do fracassado projecto da Parceria de Leste.

Está bom de ver que os tempos não estão para os bons alunos. A boa aluna da Parceria de Leste não consegue sequer compreender que apenas uma nova eleição devolverá alguma serenidade ao país. Ao passo que o bom aluno da Austeridade está na sala do castigo, por não matraquear uma-a-uma as palavras da Professora Bruxelas, sob a batuta da Reitora Berlim…

Professor Auxiliar no IBA (Paquistão), licenciou-se em Comunicação Social na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA-IPT), cidade onde cresceu e viveu até aos 22 anos. Doutorado em Relações Internacionais (ISCSP-UL), colabora com vários centros de investigação internacionais. É autor da coluna “Cadernos do Tiaguistão” publicada na revista PACTA (ISCSP-UL, Lisboa), autor-residente da revista MindThis (Canadá), editor de opinião para a revista think.act.lead (Eslováquia) e editor-chefe do SOJRS (Turquia).
Escreve no mediotejo.net ao domingo, quinzenalmente.

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