Do Leste para o Este
Esta crónica quinzenal incorre num enorme risco, tanto o cronista ou o leitor, de se proceder a uma normalização de eventos políticos não-normais, apesar de não ser esse o intento. O objectivo deste espaço é dual: 1.) pedagogia, dando a conhecer zonas do globo menos mediatizadas e 2.) maturação crítica, dando ao leitor os instrumentos para ler o mundo que o rodeia. Ler o mundo sem normalizar o que não é normal!
Já tem pouco de novo dizer, na imprensa, que a Democracia enquanto modelo político falhou em várias regiões do globo. Tem pouco de novo, e pouco de correcto. O que falhou foi a instrumentalização, por um conjunto de Estados do Ocidente, da Democracia Liberal à la carte. A Democracia não se esgota na sua variante Liberal-Ocidental. Mas foi esta que se imputou ao espaço pós-soviético, nos anos 1990, e a Moldova sofre agora a “agonia do abastardamento”.
A Moldova tem assistido a uma série impressionante de grandes manifestações políticas, desde Outubro de 2015, que pedem pela demissão dos governos (sim governos, no plural) pró-Bruxelas. E, por extraordinária coincidência (claro está!), os media ingleses, franceses, espanhóis, italianos, alemães e portugueses pouco ou nada têm noticiado do facto. Fosse um governo pró-Moscovo e a coisa seria bem diferente…
Pausa! A política na Moldova divide-se menos por linhas ideológicas e mais por centros gravitacionais. De um lado da barricada a atractividade solar de Bruxelas (que ora ilumina, ora encandeia!); do outro lado o magnetismo lunar de Moscovo (que ora reluz, ora obscurece!). Quanto aos “governos” no plural diga-se que desde as eleições parlamentares de 30 de Novembro de 2014, a Moldova já conheceu seis Primeiros-Ministros (dois dos quais apenas com poderes de gestão).
É que em Outubro de 2015 veio a lume um enorme escândalo financeiro, que manchou a imagem dos partidos pró-Bruxelas e atiçou a raiva popular a tal ponto que até o Parlamento já foi invadido pelos populares, a 21 de Janeiro deste ano. O escândalo de Outubro levou à queda de Valeriu Streleț (quarto, de seis Primeiros-Ministros!) após a aprovação de uma moção de censura no Parlamento da Moldova. Já antes, em Junho, Chiril Gaburic (segundo, de seis Primeiros-Ministros) se demitira por suspeita de falsificação de diplomas escolares…
Pavel Filip (sexto, de seis Primeiros-Ministros!), que chegou há pouco mais de um mês ao topo da hierarquia governativa, já assumiu saber que esta é a “última oportunidade” para os governos pró-Bruxelas conquistarem uma opinião pública, que há muito clama por novas eleições por considerar menos legítimo um governo incapaz de se descolar do escândalo financeiro e de promover reformas que transformem o Estado mais pobre da Europa.
Segunda pausa! É relevante mencionar que o actual governo é suportado por uma coligação pós-eleitoral de três partidos, nenhum dos quais “vencedor” das eleições parlamentares. Os Liberais-Democratas ficaram em segundo, os Democratas em terceiro e os Liberais em quinto. Em primeiro ficaram os Socialistas, pró-Moscovo, que nunca consideraram ilegítimo, ou menos legítimo um governo suportado por uma coligação pós-eleitoral. Curiosidades…
Como se tudo isto não fosse instável que bastasse, têm aumentado os rumores de que Washington tem trabalhado com Bucareste para reunificar os dois países num só em 2018. O plano, obviamente negado por Washington mas que aumentou a tensão em Chisinau, até tem nome de código e tudo: “Unirea 2018”. É esta mesma Moldova que a Europa, ainda há pouco, mostrava com orgulho como sendo a “boa aluna” do fracassado projecto da Parceria de Leste.
Está bom de ver que os tempos não estão para os bons alunos. A boa aluna da Parceria de Leste não consegue sequer compreender que apenas uma nova eleição devolverá alguma serenidade ao país. Ao passo que o bom aluno da Austeridade está na sala do castigo, por não matraquear uma-a-uma as palavras da Professora Bruxelas, sob a batuta da Reitora Berlim…
