Modernizar, atrair população e recuperar o presunto da Marca Mação são prioridades de José Fernando Martins, o novo presidente da Câmara Municipal. Foto: mediotejo.net

O novo presidente da Câmara Municipal de Mação, eleito a 12 de outubro, apresenta-se com um plano ambicioso para revitalizar o concelho, equilibrando obras públicas, atração de população e valorização da floresta. Em entrevista ao mediotejo.net, detalha prioridades imediatas, estratégias de longo prazo e como pretende enfrentar os desafios do envelhecimento e desertificação do território.

Entre a requalificação urbana, a criação de infraestruturas sociais, incentivos para fixar jovens e a proteção da floresta, o presidente eleito revela a sua visão para Mação, defendendo diálogo com proprietários, aposta na marca local e nos produtos endógenos, a par de medidas para garantir retorno económico à população.

“Vamos esquecer as lutas políticas e a partir do momento que fui eleito e tome posse, eu serei o presidente de todos os maçaenses. Até à campanha do próximo ato eleitoral, vou tratar a todos por igual”, afirmou José Fernando Martins que, depois de gerir a União de Freguesias de Mação, Penhascoso e Aboboreira nos últimos 12 anos, conquistou a Câmara Municipal, após quase cinco décadas de governação PSD.

José Fernando Martins (PS) foi eleito presidente da Câmara Municipal de Mação. Foto: PS

Em entrevista ao mediotejo.net, o novo presidente de Mação reconheceu, com humor, a célebre rábula de Ricardo Araújo Pereira sobre a ausência de presunto “da Marca Mação” em Mação.

Admitiu que, apesar de haver muito presunto no concelho, falta aquele com o selo distintivo da marca local nos cafés, restaurantes e supermercados. O autarca prometeu que, com ele, voltará a ver-se “nas montras o convite para provar o Presunto de Mação”, garantindo que fará tudo para que a sandes de presunto da Marca Mação volte a estar presente nos estabelecimentos do concelho.

Modernizar, atrair população e recuperar o presunto da Marca Mação: as prioridades do novo presidente da Câmara Municipal. Foto: mediotejo.net

Entre a campanha eleitoral, o conhecer os resultados que lhe deram a vitória e as duas semanas que antecedem a tomada de posse, já teve tempo para se preparar mentalmente para assumir o cargo de presidente da Câmara de Mação, bem como a sua família e a sua equipa, tendo em conta as exigências do cargo? Como é que foram estes 15 dias e com quem celebrou a vitória?

José Fernando Martins – Os 15 dias têm sido iguais aos anteriores, porque este resultado é fruto de um trabalho de muitos anos. Fiz uma campanha tranquila, sempre com a convicção de que ia vencer — acreditava antes, durante e no próprio dia das eleições. No final da tarde, quando começámos a receber os resultados das mesas, estava sereno. O primeiro resultado, curiosamente da Assembleia Municipal, confirmou o que eu já sentia: que íamos ganhar.

Foi uma noite eufórica, mas vivida com os pés assentes na terra. Estes dias têm sido de contacto com a população, de agradecimentos e de reuniões com a equipa. Já conversámos com presidentes de junta eleitos e não eleitos, e estamos a preparar a entrada na Câmara. Há muito trabalho pela frente, mas também é tempo de saborear a vitória. A minha família sabia que, ao meter-me neste projeto, era para ganhar — conhecem-me como alguém de muito trabalho e dedicação à comunidade.

Concorreu com 30 razões para vencer Mação e é conhecido como o “Zé 30”. Quando ganhou, disse que agora é que vai ser um 31. É um homem de bom humor?

Sim, isso mostra a minha proximidade com as pessoas. Nunca tive problema com a alcunha “Zé 30” — vem do número de inspeção militar do meu pai — e usei-a até como parte da campanha, transformando-a numa vantagem. Em Mação, se perguntarem pelo Zé 30, todos sabem quem é; se perguntarem por José Fernando Martins, talvez nem todos saibam.

As “30 razões” foram um trocadilho com esse nome, mas também uma forma de apresentar o nosso programa em 30 pontos. E o “31” tem vários significados: é o trabalho exigente que vem aí, e também o “31” da oposição, que depois de 50 anos de poder vai ter de dar lugar a outros. Queremos mudar — mas mais do que mudar, queremos transformar. Mudar é fácil, transformar exige consistência e novas formas de fazer as coisas.

O que significa esta vitória para o José Fernando Martins, enquanto pessoa? E porque foi desde sempre socialista, num concelho governado pelo PSD desde as primeiras eleições autárquicas?

Sempre acreditei que este momento ia chegar. Sou socialista por convicção e porque cresci a acreditar nos valores desse projeto. Venho de uma família humilde da Aboboreira e fui marcado por duas professoras no ensino primário — uma delas, Gertrudes Vaz Oliveira, socialista e esposa do primeiro presidente da Comissão Administrativa da Câmara após o 25 de Abril, foi quem me pôs pela primeira vez uma bandeira do PS na mão. Foram duas professoras que eu adorei, foram duas pessoas que me marcaram. A professora Gertrudes já faleceu há algum tempo mas sempre que podia visitava e conversava com ela. A professora Helena Marques, uma pessoa mais ligada ao PSD ,já depois destas eleições felicitou-me e temos uma relação espetacular. Mas a professora Gertrudes foi sempre daquelas que mais me marcou neste processo e, portanto, sempre ficou. E tive a oportunidade de navegar por outras águas políticas, mas nunca o fiz.

Em 1993, quando presidi a uma mesa de voto em Aboboreira e onde o PS perdeu, prometi que quatro anos depois os resultados seriam afixados com a minha vitória como presidente de junta — e assim foi, em 1997. Fiz dois mandatos na Aboboreira, fui depois candidato à Câmara em 2005 e vereador, e mais tarde presidente da União de Freguesias de Mação, Penhascoso e Aboboreira, com três maiorias absolutas.

O meu percurso sempre foi de trabalho e proximidade. Estou prestes a reformar-me, podia estar em casa descansado, mas aceitei este desafio por espírito de missão. Não venho para ganhar dinheiro, venho para servir Mação. As pessoas perceberam essa mensagem e confiaram em mim para liderar a mudança que o concelho precisava.

Modernizar, atrair população e recuperar o presunto da Marca Mação são prioridades de José Fernando Martins na Câmara Municipal. Foto: DR

O que é que vai mudar com a gestão do Partido Socialista em relação à do PSD? É uma mudança radical em termos de filosofia ou apenas de pessoas e projetos?

Não podemos dizer que, nestes 49 anos, foi tudo mau — houve muito trabalho e conquistas importantes. Recordo, por exemplo, que nos anos 80, com o presidente Elvino Pereira, chegou-se com eletricidade e água canalizada à quase totalidade dos agregados familiares, o que foi notável. Mação foi dos primeiros concelhos a ter piscinas descobertas, houve modernidade e alguma visão. O problema foi depois: faltou dar continuidade, modernizar e reestruturar. Houve um certo acomodamento. Reconheço o que foi bem feito, mas agora é tempo de renovar e imprimir uma nova dinâmica.

José Fernando Martins, assume a presidente da Câmara de Mação, depois de 12 anos na União Freguesias de Mação, Penhascoso e Aboboreira @ Foto arquivo: DR

O que se espera para o futuro após a sua tomada de posse, em termos de prioridades e projetos?

A Câmara é uma estrutura grande, com muitos trabalhadores e equipamentos, e precisamos de rentabilizar esses recursos. Quero primeiro fazer um diagnóstico rigoroso — perceber a realidade dos serviços, das pessoas e da gestão. Depois, mudar a forma de trabalhar: mais diálogo, mais valorização dos funcionários e mais delegação de competências.

Não faz sentido que tudo passe pelo presidente, nem que decisões simples fiquem centralizadas. Queremos descentralizar, sobretudo na relação com as freguesias. A partir de 13 de outubro serei o presidente de todos os maçaenses, independentemente da cor política.

Pretendo também instituir reuniões mensais com todos os presidentes de junta, algo que nunca aconteceu. É importante que cada junta saiba o que se passa nas outras e que todos trabalhem em conjunto. Vamos avançar com a descentralização de competências prevista na lei de 2018 e 2019, que nunca foi aplicada, dando mais meios e autonomia às freguesias. Assim, será mais fácil resolver problemas do dia a dia e responder rapidamente às pessoas, com mais proximidade e eficácia.

Qual é a sua prioridade a partir do momento em que tomar posse?

A primeira prioridade é fazer um diagnóstico de situações pendentes. Não prevejo uma auditoria geral, mas sim inquéritos específicos, e o primeiro será à obra de requalificação de Cardigos, que está muito atrasada. O prazo já devia ter terminado há meses, e as pessoas vivem entre o pó e o barro. Quero apurar o que correu mal e resolver a situação, porque a população não merece continuar assim. Mesmo não tendo ganho em Cardigos, o meu olhar será igual para todas as freguesias.

Depois, há compromissos assumidos pelo anterior executivo que terão de ser respeitados. Alguns concursos foram lançados em cima das eleições, o que não foi de bom tom, mas teremos de os honrar. Entre esses projetos está a requalificação do centro da Vila de Mação, uma empreitada de quase quatro milhões de euros, que também será uma prioridade.

Mação é hoje uma vila degradada, esburacada e com falta de cuidado. Queremos mudar isso, com um grande projeto de requalificação urbana que devolva à vila a dignidade que merece.

Vai integrar os projetos em curso e os compromissos assumidos pelo anterior executivo na sua estratégia e plano de acção? A sua visão de desenvolvimento para Mação é a médio/longo prazo ou para este mandato de quatro anos?

O nosso programa eleitoral foi pensado como um plano estratégico plurianual, com horizonte de dois mandatos. Sabemos que o mundo muda rapidamente, por isso o plano poderá ser ajustado durante o primeiro mandato.

Algumas obras já adjudicadas podem limitar temporariamente a execução imediata, mas desde o primeiro dia vamos trabalhar para implementar a nossa estratégia. Serão dois mandatos de intenso trabalho, com envolvimento de toda a equipa da Câmara e da população, para concretizar aquilo que acreditamos ser uma mais-valia para Mação.

Quais são os pontos prioritários desse plano estratégico que apresentou aos eleitores e que lhe deram a maioria?

Existem dois planos já em curso, com obras ainda não iniciadas: habitação (28 fogos mais 4) e requalificação do centro da vila. Dedicar-me-ei a estes projetos, integrando-os na nossa estratégia.

Outra prioridade imediata é a construção de uma nova creche, essencial para atrair médicos e profissionais especializados, e reforçar o centro de saúde, incluindo o polo em Cardigos, em investimento superior a 600 mil euros.

Em termos urbanos, queremos resolver problemas de estacionamento na vila e criar espaços permanentes para eventos, como quintais da Praça e Feira dos Santos. Há a ideia de construir um mini pavilhão polivalente coberto com estacionamento subterrâneo no campo de jogos de Cerejal, central e estratégico.

Para eventos maiores, como a Feira Mostra, vamos procurar um pavilhão multiusos, que permita feiras, concertos ou espetáculos sem improvisos, algo que Mação não tem há 30 anos.

Também vamos focar no restauro e valorização de infraestruturas em todo o concelho: Ortiga, Envendos (Museu do Presunto transformado em espaço gastronómico e cultural), estradas de acesso à A23 e expansão da zona industrial de Mação.

No setor social, priorizamos a Amêndoa, com centro de dia e lar para idosos, e a criação de uma unidade de cuidados continuados, gerida pelas IPSS locais, para responder às necessidades do concelho e reforçar o maior empregador local. O foco é dar resposta a idosos e população vulnerável, garantindo melhores condições e continuidade de cuidados.

Além disso, vamos dinamizar o comércio local e a marca Mação, incentivando produtos locais e o turismo associado, garantindo que os projetos são sustentáveis e benéficos para a população.

José Fernando Martins (PS), assume a presidência da Câmara de Mação e quebra hegemonia do PSD. Foto: mediotejo.net

Como pretende lidar, ou tentar combater, a desertificação e o envelhecimento populacional?

O maior problema de Mação é a falta de pessoas. Muitas empresas enfrentam dificuldade em recrutar trabalhadores, recorrendo frequentemente a imigrantes. O desemprego é quase nulo, mas os jovens que saem para estudar raramente regressam, por falta de empregos especializados.

Historicamente, não se planeou adequadamente o crescimento populacional. O centro da vila tem muitas casas degradadas e as urbanizações têm poucos moradores, com lotes vazios e áreas de mato. Isso cria um desafio para fixar população e revitalizar o concelho.

O nosso programa eleitoral prevê incentivos para os jovens adquirirem a primeira habitação, cerca de 25 a 30 mil euros incluindo licenciamento e projetos, aplicáveis a qualquer casal jovem que queira fixar-se em Mação. O objetivo é atrair pessoas e evitar a migração para concelhos vizinhos.

E esses incentivos são apenas para maçaenses que se queiram fixar ou são abertos ao exterior?

Ainda está a ser regulamentada, mas preferencialmente beneficiará os jovens de Mação, com possibilidade de incluir quem queira vir residir no concelho, garantindo que a medida também atrai novos residentes.

E os emigrantes que queiram regressar a Mação?

Podem também ser incluídos. O foco é valorizar quem já reside em Mação, oferecendo incentivos, incluindo benefícios fiscais para a primeira habitação. Atualmente, muitas casas de primeira e segunda habitação pagam IMI semelhante; vamos diferenciar para apoiar quem reside permanentemente.

Além disso, cerca de 800 pessoas vivem no concelho sem morada fiscal, o que afeta financiamento e serviços municipais. É preciso trabalhar para que estas pessoas sejam reconhecidas, bem como ajustar regras para os novos residentes e imigrantes que usufruem dos serviços, mesmo não estando recenseados.

O objetivo é reverter o declínio populacional, fixar os jovens e integrar os novos residentes, garantindo sustentabilidade social e económica no concelho.

O concelho de Mação tem uma densa mancha florestal tendo sido particularmente fustigado por incêndios de grandes dimensões. Foto arquivo: DR

A floresta é uma preocupação constante em Mação, mas também já foi fonte de riqueza. Como pretende atuar nesta área?

A floresta de Mação era uma mais-valia, mas os sucessivos incêndios desde os anos 80 diminuíram essa vantagem. A grande parte da propriedade é privada, muitos proprietários residem fora e desconhecem suas propriedades. As AIGPs cobrem cerca de 50% do concelho, mas houve falta de envolvimento dos proprietários e problemas de transparência.

É necessário diálogo com os proprietários, aproveitamento de fundos existentes e criação de um Plano Diretor Municipal para a floresta, com pontos de água, ordenamento estratégico e medidas equilibradas que protejam propriedade e bem público.

Vai assumir pessoalmente este pelouro?

Sim. Ficará comigo a Floresta, Proteção Civil, pessoal, empreendedorismo e investimentos. As pastas serão atribuídas segundo a experiência da equipa, mas estas áreas centrais serão da minha responsabilidade para enfrentar os grandes desafios do concelho.

Jsoé Fernando Martins passa o testemunho na União de Freguesias de Mação a Daniel Jana, que assume agora a presidência da UF. Foto: mediotej.net

O que diferencia Mação para tornar o território mais atrativo e captar população?

Mação tem ar puro, água, azeite e sossego. É um concelho pacato, com solidariedade entre vizinhos, baixo índice de criminalidade, e escolas. O desafio atual é atrair nómadas digitais, garantindo boa internet. A integração de novos residentes e o apoio aos que já estão aqui são cruciais para fixar população.

Recuperar o presunto o produtos da Marca Mação é uma das prioridades de José Fernando Martins na Câmara Municipal. Foto: mediotejo.net

Mação continua a ser a Catedral do Presunto?

Sim, porque especialistas dizem que Mação tinha um clima excepcional para a cura do presunto, como era feito no passado. Hoje, infelizmente, nada é feito dessa forma, e este potencial não foi bem aproveitado.

Nos debates eleitorais, alguém mencionou que não se encontra o presunto da Marca Mação nos cafés e restaurantes. Não se sabe se é por falta de interesse dos empresários ou outros motivos, mas será uma prioridade investigar e tentar reverter esta situação.

Há muito presunto em Mação, mas o problema é que o presunto da Marca Mação, diferenciado nos termos de cura e processos, não está disponível nos estabelecimentos de restauração e supermercados. Esse é o desafio principal e onde se deve focar atenção.

Modernizar, atrair população e recuperar o presunto da Marca Mação são prioridades de José Fernando Martins na Câmara Municipal. Foto: mediotejo.net

Brindando ao futuro de Mação, brindamos com uma sandes de presunto ou com um vinho Chave dourada?

Mais pela Chave Dourada, mas o presunto também é importante. O problema é que o presunto da Marca Mação não está amplamente disponível nos cafés e restaurantes, apesar de a marca englobar outros produtos regionais (mel, doces, fofas, aguardente).

O objetivo é criar um polo de venda no Museu de Mação, que inclua turismo, produtos locais e política de retorno: visitantes devem consumir localmente e levar produtos da região. Assim, o concelho terá benefício real do turismo e eventos, permitindo no final brindar com a chave dourada e a sandes de presunto de Mação.

A política do retorno será aplicada: eventos e turismo devem gerar benefícios económicos para o concelho. “Tem que haver retorno com aquilo que foi proporcionado às pessoas”, concluiu.

Chave Dourada, o vinho da fórmula secreta do concelho de Mação. Foto arquivo: mediotejo.net

José Fernando Martins foi eleito no dia 12 de outubro presidente daquela autarquia, depois de o PS ter vencido a câmara com 51,01% dos votos, naquela que foi a primeira vitória socialista em Mação, enquanto o PSD ficou com 34,09%.

O PS ficará com três eleitos, enquanto os sociais-democratas conquistaram dois mandatos. A tomada de posse está marcada para domingo, dia 2 de novembro, às 10h00, no Centro Cultural Elvino Pereira.

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