Local do acidente mortal, em Moitas Vendas. A condutora vinha de Alcanena e abalroou por trás os cinco peregrinos, fugindo de seguida. Foto: Arquivo / mediotejo.net

O Ministério Público pediu na sessão realizada no dia 27 de outubro pena de prisão efetiva para a mulher que atropelou cinco peregrinos, um deles mortalmente, em maio de 2018, em Moitas Venda, Alcanena.

Tal como o mediotejo.net então noticiou, a localidade dista cerca de 20 quilómetros do Santuário de Fátima e é o ponto de encontro de vários grupos de peregrinos que chegam de sul. Um morto e cinco feridos, um deles com gravidade, foi o balanço de um atropelamento e fuga ocorrido por volta das 5 da madrugada. A jovem que conduzia o carro foi detida pela GNR e internada compulsivamente no Hospital de Torres Novas, após novo despiste, em contramão, junto às portagens da A23, no acesso à A1.

A mulher está agora a ser julgada pelo Tribunal de Santarém pela prática de sete crimes, um de homicídio por negligência grosseira, quatro de ofensa à integridade física por negligência (um deles grave), um de condução perigosa de veículo e outro de omissão de auxílio, por alegadamente se ter posto em fuga depois de arrastar uma vítima para seguir marcha – uma mulher que viria a ficar paraplégica.

Para a procuradora do Ministério Público (MP), a prova produzida em julgamento confirmou os factos constantes da acusação, nomeadamente que, na madrugada de 20 de maio de 2018, a mulher, agora com 30 anos, colheu os peregrinos de costas, do lado contrário àquele em que circulava, depois de ter saído de uma festa, na qual tinha consumido bebidas alcoólicas e canábis, apesar de estar a tomar medicamentos para a depressão.

O MP pediu, ainda, ao Tribunal que considere provado o crime de omissão de auxílio, bem como a alegação de que a arguida parou, saiu da viatura e arrastou a vítima, que veio a ficar paraplégica, para poder seguir marcha, apesar de a testemunha que, na fase de inquérito, havia relatado esse episódio, ter dito hoje ao Tribunal não se recordar de tal ter acontecido.

Os mandatários das vítimas e dos familiares do peregrino que morreu no local corroboraram o pedido de prisão efetiva, criticando, em particular, a “frieza que choca” de sair, arrastar uma das vítimas e seguir marcha.

Para os advogados, o arrependimento manifestado pela arguida foi “formal”, não estando “interiorizado”, pois “nunca cuidou em saber das vítimas” e aparenta estar mais preocupada com o que lhe vai acontecer no âmbito do processo.

Numa declaração final, emocionada, a mulher reafirmou não se recordar do que aconteceu naquela noite e disse nunca ter contactado com as vítimas porque a sua primeira advogada lhe disse que podia ser considerado “uma afronta”, mas que “não há um dia” em que não pense no que aconteceu.

Uma das advogadas das vítimas declarou-se “chocada” por a mulher, bombeira de profissão, conduzir ambulâncias de transporte de doentes, mesmo sabendo o que aconteceu.

No seu depoimento, a arguida disse ter regressado aos bombeiros há apenas um ano, depois de procurar “muita ajuda”, colocando no apoio que dá a doentes que fazem hemodiálise uma forma de “fazer o melhor”.

A advogada de defesa da arguida afirmou que, da prova produzida, ficou a “dúvida” sobre a forma como ocorreu o acidente e mesmo sobre se seria a arguida que conduzia a viatura ou se viajava sozinha ou acompanhada, refutando a alegação de “frieza” do seu comportamento, pois “ninguém sabe como foi”.

“Tudo o que aconteceu naquela noite é um mistério”, disse, considerando existirem “dúvidas insanáveis” sobre como tudo aconteceu.

A advogada pediu que, mesmo que o Tribunal entenda pela condenação a pena de prisão, que esta seja suspensa, já que a mulher não tem antecedentes e trabalha de forma “honesta”, criando um filho menor em regime de guarda partilhada.

A mulher foi detida ao início da manhã de 20 de maio de 2018 depois de ter embatido com a viatura no separador central da A23 junto às portagens de acesso à A1, percurso que fez em contramão, tendo hoje o militar da GNR que investigou o atropelamento afirmado que os fragmentos recolhidos no local pertenciam à viatura.

O presidente do coletivo de juízes, Sérgio Sousa, marcou a leitura do acórdão para o próximo dia 11 de novembro.

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Agência Lusa

Agência de Notícias de Portugal

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