Edifício do antigo mercado municipal de Abrantes situa-se numa entrada nobre da cidade e vai ser transformado em espaço multiusos. Foto: mediotejo.net

Confesso a falta de interesse que me suscita visitar os mercados que no passado tanto prazer me suscitavam. Gostava de ir a Tomar ver e cheirar as bancas onde se vendia o peixe, não esqueço um sável resplandecente que a vendedeira gabou e eu pedi que fosse cortado em postas grossas, a senhora resmungou que o antigo alimento dos pobres a viverem nas bordas do Tejo devia ser em postas finas para ficar bem frito e estaladiço. A senhora ficou desarmada quando lhe disse que o peixe era para grelhar uma parte e a outra destinava-se a assar no forno.

De vez em quando visitava o mercado do Entroncamento onde via muitas pessoas a residirem em Abrantes, não se continua a ser assim, em matéria víveres piscícolas julgo-o superior ao de Santarém no tocante a espécies marítimas. Ia a fim de rever rostos antigos e ouvir proclamações jocosas das vendedeiras, revitalizar olhares nos magníficos azulejos, além de perceber a temperatura política local.

Outros mercados maiores e menores, largos ou intimistas percorria pois eles proporcionavam-me saberes escondidos só revelados no momento de acertar o comprado, no entanto, muito fiáveis no entendimento da vida quotidiana das populações, incluindo as das povoações limítrofes. O Mercado de Abrantes nunca me obrigou a perder tempo, só algum no decorrer das campanhas eleitorais, ou por falta de cliente, ou por falta de estrutura competente no plano organizativo mostrava-se amorfo e desinteressante.

Agora, os mercados transferiram-se para as grandes superfícies, neles vigora a regra de espremer espaços, de respostas automáticas dos trabalhadores, muitas vezes mal-educadas quando recusamos colocar as compras dentro dos sacos, enfim, para nosso descontentamento são todos iguais, todos burocráticos, falta-lhes a ânima que os antigos mercados tinham, mesmo que pouco animada ao exemplo do de Abrantes. Ora, em sua substituição construíram outro. Entrei nele uma vez. E se os burocráticos dispõem de parques de estacionamento e oferecem (só isso) ar climatizado, dizem-me que o municipal abrantino é pouco acolhedor e, apesar da sua juventude, mete água ao modo de carraspana abstémica nas alturas de ventania chuvosa.

Os estudiosos da valência e sucedâneos artísticos dos mercados novecentistas e do início do século XX sabem quão elevada é a possibilidade passarem à condição de activos culturais onde não faltam representações culinárias dos produtos que lhe davam a dita ânima. Exemplos não faltam por esse Mundo fora, vontade de lhes dar expressão é outra coisa.

O leitor com possibilidades de viajar faça o favor de visitar os mercados de Barcelona, Estocolmo, Praga e Budapeste. Chegam para verificar o modo expedito de recuperação do património.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
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