Meninos da Floresta querem transformar Abrantes num lugar com mais tempo para brincar. Foto: MF

A iniciativa vai decorrer na sede da associação, na antiga Escola Primária Dr. Raul Figueiredo, em Barreiras do Tejo, e pretende ser também o culminar das atividades desenvolvidas durante as férias de verão, reunindo num só dia crianças, famílias, artistas locais e parceiros que foram passando pelo projeto.

“É uma espécie de edição piloto de um festival familiar”, explica Maria Heleno, fundadora e diretora dos Meninos da Floresta, adiantando que o objetivo é perceber se o conceito funciona e, a partir daí, criar “um festival anual” dedicado às famílias, uma resposta que considera ainda faltar em Abrantes.

A primeira edição foi pensada pelas próprias crianças e inclui bancas com trabalhos realizados ao longo do verão, entre marcadores de livros, ecojogos, desenhos e outros trabalhos, além de bombas de sementes e vasos com suculentas.

Haverá ainda uma “Galeria dos Pequenos Artistas”, rifas e photo booth, a par de comes e bebes, oficinas, jogos e atividades dirigidas às famílias. A programação inclui dança e artes circenses pela Companhia António Ciro e jogos e animação em família com a Uhlalaa.

Está também previsto o mercadinho de trocas “De Mão em Mão”, numa iniciativa que procura refletir a preocupação ambiental da associação e incentivar a reutilização e a partilha.

A música terá igualmente um papel especial no programa, com atuação do DJ JB e, sobretudo, com as próprias crianças a assumirem a cabine: uma das atividades desenvolvidas durante o verão foram oficinas de música e a playlist do festival foi escolhida pelas crianças, que serão agora responsáveis por pôr a música durante a festa.

O festival será aberto à comunidade e pretende, além de proporcionar um dia de convívio, permitir que famílias que ainda não conhecem o projeto possam entrar no espaço, perceber como funciona e contactar diretamente com a filosofia da associação.

“É uma festa que é preparada pelas crianças, para outras crianças e para as famílias”, resume Maria Heleno, explicando que a iniciativa pretende reunir num só dia as atividades, artistas e experiências que foram marcando as férias de verão e fechar esse período “em grande, com uma festa grande”.

Um ATL que quer “desocupar” os tempos livres

Embora a associação seja frequentemente identificada como um ATL, Maria Heleno prefere sublinhar a diferença de conceito.

Nos Meninos da Floresta, o objetivo não é preencher o período depois da escola com uma sucessão de atividades dirigidas, mas proporcionar às crianças tempo e espaço para decidirem o que querem fazer.

“Não queremos ocupar crianças, até pelo contrário”, afirma, defendendo que o tempo livre e a possibilidade de brincar sem uma programação pré-definida são elementos centrais da proposta.

A associação funciona durante todo o ano, com um programa After School durante o período letivo e programas de férias nas interrupções escolares, procurando funcionar maioritariamente ao ar livre e proporcionar às crianças contacto com a natureza independentemente das condições meteorológicas.

Galochas, impermeáveis, árvores, terra, chuva e poças fazem parte do quotidiano do projeto, numa abordagem que procura devolver às crianças experiências de exploração, risco e descoberta que, segundo a responsável, estão cada vez mais ausentes da infância.

“Para nós o tempo livre é muito importante”, sublinha Maria Heleno, que considera a brincadeira livre uma das formas mais completas de aprendizagem, por permitir desenvolver competências motoras, sociais e emocionais.

A responsável relata que é frequente as crianças chegarem ao espaço e perguntarem o que vão fazer, ficando inicialmente sem saber como ocupar o tempo quando lhes é respondido que podem escolher.

“Estão tão habituados a serem direcionados, a serem encaminhados, a terem uma estrutura no dia deles, que já não sabem o que é ter tempo livre”, afirma, defendendo que também o tédio pode desempenhar um papel importante na criatividade.

Meninos da Floresta querem transformar Abrantes num lugar com mais tempo para brincar. Foto: MF

A proposta causou alguma estranheza inicialmente, admite, sobretudo porque em Abrantes não existia uma resposta deste género, mas Maria Heleno diz sentir hoje uma maior compreensão por parte das famílias.

“Hoje em dia vão buscar as crianças e, se está sujo, os pais ficam contentes, é sinal que brincaram”, exemplifica, referindo-se à mudança de atitude perante a roupa enlameada ou os joelhos esfolados.

Na sua perspetiva, esses sinais podem significar que a criança correu riscos, se desafiou e ultrapassou medos.

A procura parece acompanhar essa mudança: durante as férias de verão, a associação estabeleceu um limite de 35 crianças por semana e teve praticamente todas as semanas completas, enquanto o After School reúne grupos que variam entre 10 e 15 crianças.

Meninos da Floresta querem transformar Abrantes num lugar com mais tempo para brincar. Foto: MF

Maria Heleno reconhece, contudo, que existem obstáculos à expansão da resposta, sobretudo a dificuldade de transporte entre as escolas e a associação, que considera uma das razões para a dimensão mais reduzida dos grupos do After School.

A associação é uma entidade sem fins lucrativos e enfrenta também dificuldades de gestão e de financiamento, mas a responsável considera que existe “cada vez mais” procura por propostas que permitam às crianças passar mais tempo ao ar livre e com maior liberdade.

Um projeto inspirado na “Forest School” e no movimento “Slow”

A filosofia dos Meninos da Floresta foi inicialmente inspirada pelas abordagens Forest School e pelo movimento Slow, mas a experiência dos últimos anos levou a associação a procurar um ponto de equilíbrio entre essas referências e os modelos educativos tradicionais.

“Estamos assim quase a meio caminho entre aquilo que é o ensino tradicional e estas novas pedagogias”, explica Maria Heleno, sublinhando que a essência do projeto, assente na liberdade e no brincar, se mantém.

A criação da associação partiu, em grande medida, de uma necessidade pessoal da própria fundadora. Com dois filhos pequenos, Maria Heleno começou a perceber os efeitos que o contacto com o exterior tinha nas crianças e nos próprios adultos.

Maria Heleno e os dois filhos. Foto: MF

Recorda particularmente a experiência com o filho Miguel, então mais pequeno, que vivia num apartamento e tinha muita energia: quando conseguia levá-lo ao parque, corria, gritava, dava cambalhotas e brincava no chão, regressando depois a casa “muito mais tranquilo” – e também ela.

Foi a partir dessa experiência que começou a procurar respostas de apoio às famílias que funcionassem maioritariamente ao ar livre.

Nesse percurso conheceu o professor Carlos Neto e a sua obra “Libertem as Crianças”, aprofundando a ideia de que era necessário devolver às crianças mais tempo na rua, em contacto com a natureza e com maior liberdade para explorar.

“Foi acima de tudo por necessidade pessoal”, resume, explicando que em Abrantes não encontrou na altura uma oferta de apoio às famílias que correspondesse a esse modelo.

A ligação de Maria Heleno ao ambiente não ficou apenas na inspiração inicial. Formada em Engenharia do Ambiente, deixou a área profissional para avançar com o projeto e procura agora trazer essa formação para o quotidiano da associação, através de atividades de sensibilização para a preservação ambiental e de soluções de sustentabilidade.

Na sede já foi implementado, por exemplo, um sistema de reaproveitamento de água da chuva para rega, embora a fundadora admita que gostaria de tornar a associação mais autossuficiente e que os apoios disponíveis nem sempre são suficientes.

Quase três anos depois da apresentação pública dos Meninos da Floresta, Maria Heleno diz não sentir arrependimento pela opção tomada e considera que o projeto mantém a essência que esteve na sua origem.

“Estou muito contente com aquilo que temos vindo a construir”, afirma, sublinhando que a associação não é feita por uma só pessoa, mas por toda uma equipa e pelas próprias crianças, que continuam a ter um papel central na forma como o espaço é vivido.

É essa filosofia que os Meninos da Floresta querem também mostrar no Festival na Floresta, marcado para sexta-feira, 4 de setembro, entre as 16h00 e as 20h00, apresentado como uma celebração de encerramento do verão e, simultaneamente, como uma porta aberta à comunidade.

A iniciativa pretende dar a conhecer o espaço e o trabalho desenvolvido pela associação, juntando crianças, famílias, artistas locais, música, oficinas, artes circenses, jogos, comes e bebes, trocas circulares e várias surpresas, estando ainda previstos prémios, rifas e “óscares”.

O convite dos Meninos da Floresta é para que a comunidade se junte à primeira edição do festival, conheça o projeto por dentro e veja com os próprios olhos como as crianças brincam e participam nas actividades.

A festa decorre na antiga Escola Primária Dr. Raul Figueiredo, em Barreiras do Tejo, e pretende juntar famílias, crianças e amigos numa celebração construída a partir das experiências vividas durante o verão.

Mais do que uma festa de encerramento das férias, a associação quer testar uma ideia para o futuro: transformar o Festival na Floresta num encontro familiar anual em Abrantes, dando continuidade a uma proposta que procura, antes de mais, devolver às crianças aquilo que Maria Heleno considera estar a faltar cada vez mais: tempo e espaço para simplesmente brincar.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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