1.º de Dezembro no Arripiado, em 1997 Foto: António Matias Coelho

Hoje é o 1.º de Dezembro. Escrito assim, com letra grande, porque, muito mais do que um dia, é o Dia da Restauração. Feriado em louvor da nossa independência, deixou de o ser no tempo da troika estrangeira, mas foi, justamente, restaurado Muito antes disso, no fim do século passado – já lá vão mais de 20 anos… – subsistia no Arripiado uma antiga e curiosa tradição que os mais velhos teimavam em não deixar morrer. Agora já não se faz, mas, sabe-se lá, pode ser que um dia alguém a queira restaurar. Aqui fica, em jeito de memória, o registo que dela fiz em 1998.

São oito horas da manhã, está dezembro a começar, faz muito frio na rua, quase tudo dorme ainda neste dia feriado. Que terá acontecido, num primeiro de dezembro, haverá já muitos anos, para agora se folgar, comemorando o quê?

Poucos sabem a resposta, muitos nem procuram sabê-la, o que importa é que é feriado, veio mesmo a calhar, pôde a gente deitar-se tarde que não há hoje trabalho para começar de manhã.

Mas nem todos são assim e a esta hora em que falamos já estão mais do que despertos e todos juntos, na sede da Sociedade Recreativa Arripiadense, afinando instrumentos, ultimando os preparativos para cumprir a tradição.

Faz hoje anos a Sociedade, foi num primeiro de dezembro, em 1906, que os homens desse tempo a fundaram e não foi por acaso a data, escolheram-na porque sabiam, certamente mais do que hoje, que alguns séculos para trás, em 1640, numa manhã de dezembro, dia primeiro do mês, um grupo de conjurados, que se levantaram cedo, expulsou os espanhóis que havia sessenta anos mandavam na nossa terra. E então daí para cá, nesse dia cada ano, o feito se assinalou, com música pelas ruas, logo pela manhãzinha, tocando o Hino da Restauração em nome de Portugal independente.

A Sociedade do Arripiado herdou esta tradição, que no princípio do século XX e até há alguns anos era geral no país, cumprindo-se no concelho da Chamusca na maior parte dos lugares. Herdou-a e honrou-a sempre, no dia em que faz anos, sendo agora a única, nas terras deste concelho e em muitos quilómetros em redondo, que mantém vivo o costume, vamos ver por quanto tempo, até onde vão resistir as forças de quem o cumpre.

É uma festa de amigos, alguns que vêm de longe porque já não há na terra quem toque alguns instrumentos, saxofone, clarinete, trompete, caixa, bombo.

Estando tudo afinado, sai o grupo para a rua, onze homens, quase todos eles com mais de sessenta anos, o Arripiado na frente dos olhos e das pernas, que lindo que ele é, que fracas elas já estão…

O primeiro gesto que fazem, à porta da Sociedade, é içar a bandeira dela, tocando a preceito o Hino da Restauração, nesse dia não vão tocar outra coisa, e deitando um foguete, avisando assim a aldeia que a festa vai começar.

O içar da bandeira, na sede da Sociedade, na manhã do 1.º de Dezembro, pelo meu saudoso amigo Sr. Norberto Gil Foto: António Matias Coelho

Seguem depois em silêncio, por uma rua que sobe até ao Cabeço da Espanha – e vem mesmo a propósito o nome que o sítio tem. Aí chegados, viram-se para o lado da aldeia, deixando a Espanha nas costas. Nada têm contra os espanhóis, até são eles bem-vindos, nossos vizinhos e amigos, só dão voz por Portugal, tocando os seus instrumentos em nome da independência. E estoira outro foguete, viva a festa, desculpe quem está dormindo.

Depois dão a volta à aldeia, sempre subindo e descendo, é assim o Arripiado, raramente se anda em plano, mas daí lhe vem a graça e o encanto que tem. De quando em vez toca o hino e às vezes alguém abre a porta e convida o grupo a entrar. Tem pronta a mesa, passas e aguardente, uns bolinhos e outras bebidas, cada qual prova o que quer. Conversa-se, convive-se e depois toca-se outra vez, assim se agradecendo a hospitalidade, este é português de lei e amigo da tradição, vamos indo adiante, há ainda muito caminho, fica um foguete a assinalar que alguém nos abriu a porta.

Rua do Arripiado, em lembrança da Restauração. Foto: António Matias Coelho

Noutros tempos esta volta era maior, parava-se em muita casa, toda a gente fazia questão e vinha o povo à janela ver passar a arruada. Começava-se de manhãzinha, antes de o sol romper, acabava-se quase à noite, depois de muitos foguetes, muitas passas e aguardente, muito tocar o Hino da Restauração, convivendo num jantar dos anos da Sociedade.

Agora não é assim, estão quase todos dormindo, dá-se a volta mais depressa e tudo acaba ao almoço. A ementa é cozido, à portuguesa pois claro!

Para o ano cá estarão, os músicos da Restauração, faça o tempo que fizer, haja muita gente ou pouca, abram-se as portas ou não. E nos anos a seguir, enquanto as pernas deixarem, que se fosse a alma a mandar seria assim para sempre.

Nota: Este texto retoma, com ligeiras alterações, o que foi publicado, há 23 anos, nos «Cadernos da Ascensão – A Fé e a Festa», editados pela Câmara Municipal da Chamusca, p. 51-52.

António Matias Coelho

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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