Estava a concluir a crónica desta semana quando verifiquei estar a repetir o tema – tiras de toucinho –, sinal de quão gosto daquela gordura marmórea, sápida, gulosa, tão tentadora quanto maléfica para a saúde dos inimigos de Mafoma.
A memória no que tange a comeres e beberes sendo selectiva é profunda, minuciosa nos detalhes, como tenho comprovado nas investigações levadas a cabo em vários pontos de Portugal.
Há poucos dias ouvi atentamente um senhor dono de lúcidos 95 anos descrever repimpadamente os comeres (parcos) da infância, da adolescência, da sua terra, bem como as bailações no rancho local.
O eminente Lévi-Strauss, dedicou atenção ao fundamental papel da memória, legando-nos luminosas páginas com as suas observações a salientarem os primórdios da transição do cru, do podre e do fermentado para o cozido e variantes cozeduras (ler Mitologias) que o engenho humano levou às sofisticações culinárias de agora e que, em muitos casos, não passam de espantalhos para «enganar o burguês» endinheirado que come e bebe pelos rótulos da moda.
Ora, as artes culinárias e da alimentação são o somatório de experimentações jubilosas e trágicas, acasos, enganos, truques e talentos, muito talento, das Mulheres e Homens cujo fervor militante da obrigação de arranjar e transformarem em comida, matérias-primas de todo o género de modo a quem a aprecia, a classifica, a aplaude, a aceita «porque o estômago reclama aconchego», ou pura e simplesmente rejeita e até a condena.
Relativamente às extravagantes criações gastronómicas ocorridas nos últimos cinco mil anos escreverei um dia, no entanto, os interessados ganham conhecimento lendo crónicas de costumes, livros de cavalaria (Dom Quixote), livros de viagens (História Trágico-Marítima), livros religiosos (Bíblia), sem esquecer o “Satyricon” de Petrónio e o “Manifesto Futurista” do controverso Marinetti e, o toucinho, que o notável prosador Tomaz de Figueiredo refere num livro de anotações cinegéticas, causa maior desta crónica, não alegrou o meu pequeno-almoço, mas permitiu-me voltar a tecer considerações acerca da referida nona Arte que Albino Forjaz de Sampaio escreveu “Volúpia a Nona Arte”.
