Um ponto diferenciador nos programas do projeto Caminhos são os momentos em que os habitantes locais se transformam em artistas. No caso dos Caminhos da Pedra deste ano, o projeto de comunidade chama-se “Voz à Solta” e encurtou a distância entre Ourém e Vila Nova da Barquinha. Acompanhámos o primeiro ensaio conjunto dos cerca de 70 elementos com o diretor artístico Rui Sousa, que apresentam o espetáculo “Marcha das Almas” nos respetivos concelhos este sábado e domingo, dias 20 e 21.
Os Caminhos da Pedra deste fim-de-semana representam o encerramento da programação global dos Caminhos de 2018. Os artistas começaram a percorrer a região no passado dia 12 e só terminam no próximo domingo, dia 21. Aos ligados à música, circo contemporâneo, teatro e dança juntam-se agora os do projeto de comunidade “Voz à Solta”, que envolve habitantes dos concelhos de Ourém e Vila Nova da Barquinha.

Os ensaios começaram por ser locais e, na passada quinta-feira, dia 11, o grupo reuniu-se pela primeira vez no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha. À espera deles estava o diretor artístico do projeto, Rui Souza, preparado para continuar a dar forma ao espetáculo “Marcha das Almas”, que é apresentado na Praça Luís Kondor (Fátima, Ourém), este sábado, e no Largo 1º de Dezembro (Vila Nova da Barquinha) no domingo.
Antes de descobrirmos estas vozes que vão andar à solta na região durante este fim-de-semana, conversámos com o jovem de 28 anos ligado às áreas da experimentação vocal, música e teatro e foca o seu trabalho nas questões política e social, abordando-as “de forma mais filosófica”. Um cunho artístico presente no espetáculo em que as ruas dos dois concelhos são invadidas a partir das 18h00 por músicas tradicionais e temas da sua autoria.
Até chegar às ruas do Médio Tejo, Rui Souza começou por trilhar as que davam para a igreja nos tempos da infância, onde a mãe o obrigava a ir à missa. Aquele caminho acabou por definir muitos dos que se seguiram pois foi no templo religioso que descobriu o órgão de tubos, com o qual mantém forte ligação nos dias de hoje. Começou por aprender a tocar o instrumento com professores particulares e seguiu-se a formação superior em piano.

Dos ensinamentos académicos, partiu para “linguagens mais alternativas”, refere, associadas a sintetizadores, eletrónica e sintetização vocal. Continuou a trilhar a cultura cruzando-se com projetos de experimentação vocal, teatro e música que, atualmente, passam pela Associação Outra Voz e o Teatro da Didascália. O percurso trouxe-lhe, igualmente, o trabalho desenvolvido com a comunidade, ao qual dá continuidade com o projeto “Voz à Solta”.
À voz, que encara como elemento primordial e “veículo de união”, juntou o “amor” que diz estar presente neste tipo de projetos. Acrescentou a marcha “como princípio comum” das questões políticas e sociais e não esqueceu a vertente religiosa, na qual as procissões desempenham “um papel muito forte”. O resultado é uma “Marcha das Almas” em que se caminha para dar voz às ideias num momento em que “se celebra ou enterra alguma coisa”.

O processo criativo não foi feito de forma isolada. Rui Souza destaca que o sentido só ficou definido depois de ouvida a comunidade e que o espetáculo traduz a vontade do todo.
Em suma, não se vão ouvir vozes isoladas, mas uma “voz interior, que é essa força de toda a gente que concorda com isto que está a acontecer”. Voz conjugada com o movimento do corpo, influenciando-se mutuamente ao longo dos metros percorridos com o objetivo de “dizer qual é nosso tamanho na terra” – referência ao tema “Quando eu for grande (carta aos meus netos) -, de José Mário Branco.
Questionado sobre o andamento do trabalho desenvolvido com os artistas amadores dos dois concelhos, Rui Souza, responde que “está a ser muito bom”. O maior desafio deste tipo de projetos, refere, é a necessidade de gerir “os egos” e a “concentração” num grupo tão numeroso de modo a conseguir “por toda a gente em uníssono e a amarem-se”.
Uma vez atingido o equilíbrio, diz que a recompensa surge com um espetáculo em que “as pessoas dão tudo e é um absurdo de bom”.
Uma vez conhecido o diretor artístico, seguimos para o ensaio, que mostra um pouco do espetáculo “Marcha das Almas” e o ambiente de procissão está sempre presente, fazendo lembrar as colchas nas varandas e as velas antigamente protegidas do vento pelo papel que tantas vezes chegava queimado ao fim do trajeto.
Uma manifestação de fé quando cantam “derrama, Senhor, derrama o seu amor”, acompanhada pelo “Alerta” político e social quando as vozes cantam “quando eu for grande, quero ser uma pedra no asfalto, o que estou lá a fazer só se nota quando eu falto”.
Tema “Alerta”, no ensaio do projeto “Vozes à Solta”
O grupo é composto por cerca de 70 vozes individuais e de elementos de entidades de ambos os concelhos. No caso de Vila Nova da Barquinha, participam o Grupo de Cantares do Grupo de União e Recreio e a Universidade Sénior da FOS – Formação Ocupacional de Seniores e, no caso de Ourém, o Rancho Folclórico “Os Moleiros da Ribeira”, a AMBO – Academia de Música Banda de Ourém, e o Grupo de Cantares Populares das Fontaínhas.
Começaram a reunir-se nos ensaios abertos nos dois concelhos, individualmente, no passado mês de setembro e mantiveram-se a bom ritmo até ao primeiro ensaio conjunto no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha.
A recebê-los estava Marina Honório, a vereadora da Cultura do concelho anfitrião, que partilhou tratar-se de um projeto desafiante e envolvente, no qual se denota que “as pessoas estão a gostar bastante e a tomar o projeto como seu”.

Enquanto as vozes ecoavam no auditório, a vereadora acrescentou que também é marcante pois “fica nas pessoas, fica com a comunidade, marcado na alma de cada um dos participantes e, certamente, quando for apresentado no dia 21 irá marcar todo o público”.
A estreia está agendada para o dia anterior [sábado] em Ourém, que neste ensaio conjunto, tal como nos ensaios abertos neste concelho, esteve representado institucionalmente por Ana Saraiva.
Apesar de estar nas cadeiras da plateia, não é como público que a encontramos. A chefe de gabinete da Divisão de Ação Cultural do município ouriense começou a acompanhar os ensaios como espectadora e a vontade de se juntar às “Vozes à Solta” fez com que hoje faça parte do grupo.
Uma experiência que diz estar a “adorar” e caracteriza como “muito gratificante a título profissional e pessoal”, enquadrada num projeto “verdadeiramente de comunidade”.
À semelhança de Marina Honório, destaca o envolvimento dos que se juntaram para soltar a voz na “Marcha das Almas”, a par da singularidade do repertório “que tem muito de cancioneiro popular e no qual as pessoas também se reveem”.
Outro ponto que Ana Saraiva destaca é a heterogeneidade dos elementos do grupo que, diz, “entraram neste processo desde o início e há aqui muita cooperação”, concluindo que “criou-se uma equipa”.

Também no grupo, encontramos a barquinhense Marisa Silva que teve conhecimento do projeto depois do primeiro ensaio aberto. Decidiu juntar-se pelo “gosto” pelo canto e aceitou o convite porque gosta de “experiências novas”.
Com ela trouxe a mãe e a vizinha, Ana Lourenço e Anabela Cunha, e encara o primeiro ensaio conjunto como “o culminar daquilo que temos ensaiado”, acrescentando que as três estão “a gostar bastante” de fazer parte de algo “diferente”.
A particularidade de se tratarem de vozes da terra é considerada muito positiva pela educadora de infância, gerando oportunidade a pessoas que “gostam de participar nas artes e na diversidade de atividades que poderíamos ter e nem sempre participam porque têm vergonha ou não sabem como o devem fazer”.
Igualmente importante no tipo de projetos como aquele em que agora participa é o contacto com habitantes de outros locais, considerado “uma mais valia para nós e para o concelho, por isso deve continuar”.
