O Transporte a Pedido, projeto de mobilidade sustentável e inclusão social criado e desenvolvido pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT) em parceria com os Municípios, é uma das grandes apostas desta comunidade. Recentemente venceu o Prémio Regiostars 2021 / Escolha do Público, na categoria “Reforçar a mobilidade ecológica nas regiões”. Mas este serviço vai além da conquista de prémios na Europa, fazendo a diferença na vida das pessoas que mais precisam dele na região. O mediotejo.net acompanhou uma das viagens, falou com utilizadores e responsáveis, e tentou perceber um pouco mais sobre este projeto e a sua envolvência no território.

Criado em 2013, com apoio de fundos europeus, como projeto-piloto em algumas das freguesias do concelho de Mação, o Transporte a Pedido pretendeu figurar como uma resposta à necessidade de criar mais soluções de transportes nas zonas de baixa densidade populacional do interior do país, cuja rede de transportes públicos regular é escassa.

Apresentando-se como “uma solução inovadora, flexível, integradora, que reduz a pegada ecológica e que não deixa ninguém sem transporte”, esta iniciativa foi-se alargando ao longo de todo o território do Médio Tejo, marcando já presença nos 13 concelhos que o compõem, servindo cerca de 214 mil habitantes e abrangendo mais de 70 circuitos e de 1.300 paragens. As viagens são feitas dentro dos próprios concelhos. 

O projeto do Transporte a pedido tem mais de 1300 paragens espalhadas ao longo dos 13 concelhos que compõem a região do Médio Tejo. Foto: mediotejo.net

O Transporte a Pedido é hoje utilizado por mais de 1.200 passageiros por mês. Uma das pessoas que usufrui deste projeto é Felismina Gameiro, a quem encontramos com um trolley de compras na mão à espera na paragem do jardim Salete, na Atalaia, concelho de Vila Nova da Barquinha.

A viagem não é longa, é só até à estação ferroviária do Entroncamento. Da paragem do Transporte a Pedido até lá são apenas quatro quilómetros. Mas são quatro quilómetros que Felismina não teria outra forma de fazer.

“Desde que conheci que uso [o Transporte a Pedido], não tenho carro, não tenho ninguém que me possa trazer, não há autocarros de outra maneira… claro que isto foi uma boa iniciativa”, diz, acrescentando que “as pessoas deveriam aderir mais para haver mais”.

Felismina Gameiro conta que recorre ao Transporte a Pedido praticamente todas as semanas para ir ao centro de saúde, fazer análises ou para resolver qualquer outra situação em que precise de se deslocar.

O Transporte a Pedido é a melhor solução para Felismina Gameiro, residente na Atalaia, fazer as deslocações de que necessita. Foto: mediotejo.net

A sua praticidade e acessibilidade são alguns dos aspetos positivos – confessa que já lhe custa um pouco subir para os autocarros – mas a amabilidade e confiança das pessoas também pesam na sua preferência: “É como sendo uma família, é bom, estou contente”.

A prova foi constatada aquando da chegada de Antónia Sousa, a taxista responsável pela viagem. Parando do outro lado da estrada, quando Felismina lá chegou já Antónia tinha o porta-bagagens aberto à espera para acomodar os pertences da passageira. Entre as saudações habituais, procede-se às devidas instalações para iniciar a curta viagem.

Mas este transporte marca também a diferença pelo facto de só ser desencadeado a pedido do próprio utilizador de forma a contribuir para uma gestão mais sustentável das viagens. Embora o Transporte a Pedido também tenha circuitos, paragens e horários definidos, só se realizam os percursos que tenham sido solicitados, através de um sistema de reservas, que devem ser feitas por telefone ou de forma online até às 15:00 do dia anterior à viagem.

Felismina Gameiro recorre a este sistema de transporte praticamente todas as semanas. Foto: mediotejo.net

Entretanto, até porque a viagem não era longa, chegamos ao local de destino. De novo Antónia sai do veículo, retira os pertences e entrega-os a Felismina Gameiro, e depois das despedidas seguem a sua vida. Entretanto já está combinado o percurso de volta a casa, durante a parte da tarde. Um euro foi o custo do trajeto, outra vantagem deste projeto.

“Acho que é uma mais valia para todas as pessoas que têm poucos recursos”, refere-nos Antónia, a motorista, dizendo que, desta forma, as viagens ficam bem mais em conta, e garantindo que a sua função é também “tentar colaborar para o bem estar das pessoas no concelho”. A verdade é que, dependendo da distância da viagem, o preço varia apenas entre 1€ e 1,5€.

No projeto desde a primeira hora, Antónia Sousa e o marido, ambos taxistas, são os responsáveis pelo transporte no concelho de Vila Nova da Barquinha. “Houve outros taxistas que aderiram mas como normalmente [o serviço] é mais concentrado no núcleo da Barquinha não é muito compensativo para os colegas deslocarem-se de outras freguesias para virem fazer os serviços”, revela Antónia, pelo que estes foram desistindo.

Felismina Gameiro aponta a amabilidade e confiança estabelecidas entre as pessoas através do uso deste sistema de transporte. Foto: mediotejo.net

Todos os dias são duas as pessoas que Antónia leva e traz para o trabalho, sendo que depois existem ainda três ou quatro mais assíduas, enquanto o resto dos transportes afetos a este serviço são mais esporádicos.

“São mais as pessoas de idade que não têm transporte que aderem, pois as pessoas hoje em dia já têm carros. Isto quando foi pensado foi mais para fazer uma substituição do autocarro, uma vez que não era compensativo, pelas pessoas que aderiam, ter um autocarro a trabalhar todo o dia nesta situação, fica muito mais económico pagar o transporte de táxi esporadicamente do que andar um autocarro todo o dia a fazer o trajeto todo quando não há passageiros”, revela Antónia.

A taxista diz ainda que é a CIMT quem paga a diferença da viagem. Miguel Pombeiro, secretário-executivo da Comunidade Intermunicipal esclarece: “A CIMT contrata localmente, sempre com a preocupação de que essa contratação seja feita a taxistas que sejam próximos dos circuitos em que vão operar, para que o número de quilómetros em vazio seja o mínimo possível e também os custos sejam os mais baixos possível”, acrescentando que depois são as Câmaras Municipais as responsáveis por assumir o diferencial “entre aquilo que é o custo da nossa contratação e a receita que conseguimos obter com o transporte a pedido”.

Antónia recebe no telemóvel as marcações que são feitas para o transporte a pedido. Foto: mediotejo.net

“Apesar de tudo isto estamos a falar de um projeto que, para o conjunto de todos os municípios fica entre 6 e 7 mil euros mensais, ou seja, valores perfeitamente acessíveis e razoáveis também, apesar de todas as dificuldades financeiras com que as Câmaras se debatem”, nota Miguel Pombeiro, que confirma que o apoio a nível europeu também existiu na fase inicial do projeto, em termos do pensar do projeto e dos investimentos iniciais no que diz respeito aos meios informáticos, à plataforma e aos materiais. 

Em termos de afluência, Miguel Pombeiro diz que há um fator preponderante na equação, o da comunicação, pelo que a utilização é muito maior onde o projeto é conhecido, onde os líderes locais, como os presidentes de Junta de Freguesia e de associações culturais e recreativas, se empenharam na divulgação.

Enquanto concelhos como Abrantes, Tomar e Ferreira do Zêzere se destacam como alguns onde esta iniciativa tem mais expressão, existem também outros onde a utilização é mais residual, como acontece em Constância, Alcanena ou Ourém.

“De facto há disparidades muito grandes de utilização que também terá a ver com características locais, com a maior existência de transporte público de passageiros e não haver tanta necessidade do transporte a pedido, pois este não pretende de maneira nenhuma concorrer com aquilo que é a nossa rede pública de transporte rodoviário, ela pretende ser uma complementaridade”, diz o secretário executivo da CIMT.

Miguel Pombeiro, secretário executivo da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. Foto: mediotejo.net

Sobre a conquista do prémio Regiostars 2021, concurso promovido desde 2008 pela Comissão Europeia e que distingue anualmente projetos financiados por fundos europeus que tenham demonstrado sucesso com novas abordagens no âmbito do desenvolvimento regional, Miguel Pombeiro diz que foi um momento de grande alegria, o facto de se ter percebido que o Transporte a Pedido seria um dos projetos com o carimbo da RegioStars.

“É um enorme reconhecimento do trabalho que os municípios e a CIMT tem feito neste contexto do Transporte a Pedido (…) é de facto um reconhecimento de uma utilização de excelência dos fundos comunitários e portanto ficamos muito contentes e agradados com que assim seja”, disse Pombeiro, que acrescentou que houve inclusive uma admiração com o impacto das inúmeras de solicitações que chegaram à CIMT aos mais diversos níveis.

Sendo uma das características deste projeto a sua capacidade de reprodução mas também a sua flexibilidade, o que lhe permite adaptar-se “àquilo que são as necessidades locais e também de acordo como estas forem mudando”, Miguel Pombeiro diz que apesar de consolidado, o Transporte a Pedido está em permanente construção, pelo que para 2022 existe a pretensão de se continuar a inovar.

Dentro do Transporte a Pedido insere-se igualmente o LINK, cujo objetivo é o de ligar as sedes de concelho entre si. Começando em 2019 por ligar seis cidades (Abrantes, Entroncamento, Fátima, Ourém, Tomar e Torres Novas), atualmente, o serviço também já abrange as restantes sedes de concelho: Alcanena, Constância, Ferreira do Zêzere, Mação, Sertã, Sardoal, Vila de Rei e Vila Nova da Barquinha.

As tarifas a praticar neste serviço beneficiam de 50% desconto atribuído no âmbito do PART (Programa de Apoio à Redução Tarifária nos Transportes), pelo que o custo do bilhete a preço reduzido varia entre 3€ e 4€ para todas as ligações entre cidades do Médio Tejo.

Foto: CIM

Funcionamento do Transporte a Pedido

Visando garantir, de forma complementar, “o direito básico dos cidadãos à mobilidade e o acesso das populações do interior aos serviços essenciais”, o Transporte a Pedido, à semelhança do transporte coletivo regular, tem circuitos, paragens e horários definidos.

Este serviço marca a diferença uma vez que é o próprio utilizador a desencadear a viagem ao efetuar o seu pedido através de um sistema de reservas, as quais são feitas por telefone ou online. Deste modo, as viaturas responsáveis pelo transporte só efetuam os percursos previamente solicitados e só vão às paragens que tiverem reservas feitas, o que contribui para uma gestão mais sustentável das viagens.

As reserva devem ser feitas entre as 9:00 e as 15:00 até ao dia anterior ao da viagem, podendo ser feitas por chamada gratuita através do número 800 209 226, ou do website http://transporteapedido.mediotejo.pt/Reservas.

No dia da viagem, o passageiro tem unicamente de se deslocar para a paragem para onde solicitou o transporte e aguardar pelo respetivo serviço.

Mais informações disponíveis AQUI.

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Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

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1 Comentário

  1. Parabéns pela iniciativa!
    Parabéns pelo prêmio!
    Orgulho-me da taxista que aparece na foto ser da minha família!
    Devem continuar com iniciativas idênticas para ajudar as populações mais vulneráveis,principalmente no Interior do país
    Bem-hajam

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