A conferência alertou para a existência de incapacidades de diferentes tipos – visuais, motoras, auditivas, mentais, físicas ou múltiplas – que não são visíveis à primeira vista, mas que apresentam um impacto profundo na vida dos seus portadores, fomentando o debate e a troca de experiências, além da procura de soluções inovadoras para a comunicação eficaz da incapacidade invisível, com o objetivo de promover uma inclusão genuína.
A sessão de abertura contou com a presença de Manuel Jorge Valamatos, presidente da CIM Médio Tejo. À margem das “Invisible Talks – 1.ª Conferência sobre Incapacidade Invisível – Design, Acessibilidade e Comunicação”, o autarca, que também preside ao município de Abrantes, sublinhou a importância de alertar a comunidade para a existência de incapacidades que não são visíveis.
“Hoje é um dia importante aqui no nosso Médio Tejo (…). Este fórum nasce de um estágio que está a ser realizado por uma jovem da nossa comunidade, que a partir da sua experiência pessoal e do seu racional, do ponto de vista enquanto estudante, lança este desafio, esta chamada de atenção para as doenças que não são visíveis e a forma discriminada como a comunidade olha para estas situações”, afirmou Valamatos.





Em declarações ao mediotejo.net, o presidente da CIM Médio Tejo vincou que o encontro pretende não só alertar para a falta de reconhecimento das doenças invisíveis, mas também fomentar a criação de propostas e estratégias que permitam uma resposta mais eficaz e inclusiva, tanto no presente quanto a nível futuro.
“No fundo, é uma chamada de atenção, mas aqui hoje também se pretende propostas, análise, discussão sobre esta matéria, mas também deixar diretrizes, apontamentos capazes de olharmos para um futuro próximo, de forma mais objetiva e de forma mais relevante sobre estas matérias”.
Manuel Jorge Valamatos comparou a abordagem da sociedade em relação às doenças visíveis e invisíveis, realçando que enquanto para as primeiras já existem logotipos e regras estabelecidas, o mesmo não ocorre com as incapacidades invisíveis.
Em jeito de conclusão, o edil mostrou-se otimista quanto ao potencial transformador da conferência, considerando-a o pontapé de saída para um debate “para um tema que vai ser conversa e vai ser assunto no nosso futuro coletivo”.

“A Comunidade Intermunicipal olha para este assunto com grande pertinência e sobretudo, também esta nossa vontade de, com a Catarina, olharmos para o futuro… Também a própria Comunidade Intermunicipal e aqui, a título de exemplo, pegar neste estágio como forma de tratarmos um conjunto de assuntos que dizem respeito à nossa comunidade”, declarou o presidente da CIM Médio Tejo.
Este evento, promovido pela CIM em parceria com o IPT, surgiu como uma continuidade do projeto de investigação “Comunicar a Incapacidade Invisível”, iniciado em 2020 por Catarina Gestosa da Silva, designer gráfica, professora e mestranda em Design Editorial no IPT, que realiza um estágio na CIM.




Durante a sua intervenção na conferência, Catarina Silva apresentou o projeto que tem vindo a desenvolver, vincando a a necessidade de reconhecimento das incapacidades invisíveis, um tema que, segundo a própria, ainda é pouco compreendido pela sociedade.
“São deficiências que podem ser físicas, mentais, psicológicas e outras, mas que não se veem à primeira vista, como por exemplo o Alzheimer, o cancro, o autismo ou a esclerose múltipla”, explicou ao mediotejo.net.
A oradora realça que a maior dificuldade enfrentada por quem lida condições é a falta de reconhecimento. “A sociedade ainda não está preparada para aceitar que as incapacidades podem ser visíveis ou invisíveis”, afirma.
Embora as leis não façam distinções, na sociedade ainda existe uma percepção diferente entre as incapacidades visíveis e invisíveis. No entanto, este paradigma está a mudar e a Organização das Nações Unidas (ONU) já criou um novo símbolo para representar ambas.

Segundo Catarina Gestosa da Silva, a falta de dados estatísticos em Portugal é uma das barreiras para uma abordagem mais eficaz. “A forma como os Censos foram trabalhados não nos permite ainda apurar a incapacidade invisível de uma forma estatística bem feita”, lamenta.
A nível mundial, cerca de 1,3 bilião de pessoas vivem com algum tipo de incapacidade, sendo que 1 bilião tem incapacidades invisíveis. Significa isto que 80% da população com deficiência vive com uma incapacidade que não é imediatamente percetível, tornando o símbolo tradicional da cadeira de rodas “redutor”, pois representa apenas 20% desta população.
A sua própria experiência enquanto doente oncológica levou-a a desenvolver um projeto de sensibilização para as incapacidades invisíveis: o Projeto “Comunicar a Incapacidade Invisível”.
“Senti que também eu era discriminada e percebi que não era a única. Há um grupo muito grande de pessoas que se sente discriminado no atendimento, na educação e no local de trabalho”, partilhou ao nosso jornal.

Catarina Silva destaca a dificuldade em aceder ao atendimento prioritário. “Doentes oncológicos, pessoas com doenças crónicas, por aí fora, sentem-se discriminadas, por exemplo, no atendimento. Cada vez que nós queremos aceder ao atendimento prioritário, temos que dar satisfações, temos que pedir, implorar. É um direito tal e qual como as pessoas que têm incapacidades visíveis, nós temos direito ao atendimento prioritário e é difícil sermos atendidos com prioridade sem sermos discriminados”, justifica.
Para combater estas barreiras, o projeto que desenvolve propõe quatro áreas de atuação: educação, atendimento ao público, comunicação e acesso ao emprego. A iniciativa leva a sensibilização às escolas através da iniciativa “Educar através da arte”, que ensina os jovens a compreender e representar artisticamente a incapacidade invisível.
No domínio do atendimento, sugere um modelo semelhante ao utilizado nas farmácias. “Uma faixa com duas filas: geral e prioritários. Enquanto nós tivermos prioritários, são atendidos com prioridade e o geral aguarda a sua vez. Trazer esse modelo para o espaço físico”.

No acesso ao emprego, Catarina questiona o atual modelo de recrutamento. “Como é que se faz o acesso ao emprego por parte de uma pessoa que tem uma incapacidade invisível? O portador de incapacidade invisível na entrevista de emprego, explica que tem incapacidade? Há quota para o emprego, mas é uma quota mínima”, afirma.
Estas quatro áreas são a base do projeto apresentado pela oradora, que procura uma mudança na forma como a sociedade olha para as incapacidades invisíveis. No entanto, transformar este paradigma “vai demorar muito tempo”, observou Catarina Silva, num caminho que vai exigir um esforço contínuo de sensibilização e adaptação por parte da comunidade.
A conferência contou com a participação de especialistas das áreas do design, saúde, comunicação, direito e acessibilidade e visou fomentar o debate e a troca de experiências, além de procurar soluções inovadoras para a comunicação e.ficaz da incapacidade invisível, com o objetivo de promover uma inclusão genuína.
Segundo a organização, a conferência “está alinhada com preocupações globais como a promoção da saúde de qualidade, acessibilidade, o acesso à educação e emprego para todos, e a luta contra as desigualdades”.
Através da troca de experiências entre especialistas e participantes, a organização espera poder “contribuir para um ambiente que vá ao encontro das diferentes necessidades e dos direitos” de todos os cidadãos.
