Nestes dois prolongados fins de semana interroguei-me sobre a forma como todos estamos a viver estes tempos de ansiedade. Como organizamos as nossas vidas profissionais e familiares, onde e como habitamos e trabalhamos nas nossas casas, com muitos pais e mães nas suas atividades profissionais remotamente e com os seus filhos em aulas online e outros presenciais.
Somando os casos que vamos tendo conhecimento dos que nos são mais próximos, e muitos outros que estão em isolamento em casa, com a incerteza de terem testado negativo mas aguardando em quarentena a expectativa de um próximo teste.
Acordando todos os dias a adaptar-nos às rotinas familiares, seguindo as medidas restritivas necessárias para responder a esta segunda onda da pandemia. Vivemos efetivamente um enorme desgaste emocional pelo facto de não antevermos o amanhã com clareza e e pelo esforço acumulado desde a fase de confinamento a que todos já estivemos sujeitos em março.
Mas esta é também a hora em que podemos reaprender. Podemos reaprender a estar nas nossas casas, mas também a sentir que depende de nós, do nosso prédio, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa cidade, dando valor real a palavras de proximidade, vizinhança, comunidade, cidadania.
O conceito de cidadania tem origem na Grécia Antiga no século V a.C., com um sentido amplo de valorização do pensamento e debate no desenvolvimento da polis e de uma sociedade que procurava promover a participação pública e o sentido de comunidade. É esse revisitar da História que me parece urgente encontrar no Médio Tejo, o seu lugar em tempos de inquietação.
É altura para todos nós refletirmos e criarmos uma dinâmica que nos possa ajudar a ultrapassar esta “nova normalidade”. Nós, os cidadãos, precisamos de respostas. Não é uma opção. Não vai ser possível ficar onde estamos e a continuar a fazer o mesmo que continuamos a fazer. Temos que ter a certeza que envolvemos toda a sociedade e que esta entenda que a transformação em causa é enorme e que se impõe alterar a nossa forma de pensar, aquilo a que chamamos hoje de mindset, na procura de uma visão integradora para o Médio Tejo como uma realidade coesa e como um território uno, numa estratégia de futuro que não se esgota no imediato e no mediatismo de quaisquer prometidos fundos comunitários.
Necessitamos de uma nova forma de ver e fazer. Uma visão para a construção de uma agenda transformadora para a nossa região do Médio Tejo. Eu diria mesmo que é tempo de nos reinventarmos nas novas realidades urbanas que procurem ir além das necessárias soluções adaptativas assentes em novas tecnologias que nos prometeram com as Smart Cities, mas sim repensar os nossos territórios e as nossas cidades com as pessoas no centro das decisões.
Nós necessitamos de Wise Cities onde os cidadãos estão no centro das decisões, introduzindo formas de gestão e planeamento mais participadas e eficientes, com base em dinâmicas sustentáveis de crescimento e desenvolvimento dos territórios – em suma, sustentabilidade para o beneficio das comunidades locais. Um novo paradigma de “Cidadania pós Covid”.
Em conclusão, trago aqui o nosso maior pensador do século XX, que recentemente nos deixou. Eduardo Lourenço afirma em dado momento no livro Nós e o Futuro que “temos de saber e sentir que a viagem no nosso passado apenas começou. E que o futuro desse passado está confiado à nossa guarda”.
