Sete unidades locais de saúde (ULS) vão deixar de realizar cirurgias ao cancro da mama, com a ULS Médio Tejo a manter a especialidade. A realização de um número mínimo de 100 cirurgias por ano e a existência de pelo menos dois cirurgiões foi a regra adotada para, com algumas exceções, como o Médio Tejo, manter a cirurgia da neoplasia da mama. A Ordem dos Médicos alerta para um “impacto negativo nas populações e na qualidade dos cuidados de saúde prestados”.
Em declarações aos jornalistas em Abrantes, à margem de uma cerimónia da Liga dos Amigos do Hospital, o presidente do Conselho de Administração da ULS Médio Tejo não escondeu a satisfação pela manutenção das cirurgias ao cancro da mama na região, tendo indicado que a resposta à diretiva passou pela “antecipação” e apresentação de uma proposta com uma equipa dedicada, que foi aceite pela tutela.
Casimiro Ramos disse que a continuidade do serviço poderia estar em causa por não cumprir os números apresentados pela tutela, com uma média abaixo das 100 intervenções nos últimos dois anos, muito por força da covid-19. A incidência da patologia é significativa na região, indicou, com 260 utentes a serem seguidas na ULS Médio Tejo, tendo sido realizadas 62 intervenções em 2023, tendo a ULS apresentado um recurso e justificado os números, a par de um projeto com uma equipa dedicada em Torres Novas.
O jornal Público avançou hoje que sete unidades locais de saúde (algumas da quais com mais de um hospital integrado) vão deixar de fazer cirurgias ao cancro da mama, já a partir do dia 1 de abril, a partir de uma deliberação da Direção Executiva do SNS (DE-SNS).
“Deve restringir-se o tratamento cirúrgico do cancro da mama a instituições que realizem pelo menos cem cirurgias por ano e tenham pelo menos dois cirurgiões dedicados”, prescreve a Direção Executiva do SNS (DE-SNS) na deliberação que altera a rede de referenciação para a cirurgia da neoplasia da mama.
Perante as novas regras, e segundo o jornal Publico, deixam de fazer cirurgia a ULS do Oeste, Cova da Beira, Guarda, Castelo Branco, Baixo Mondego, Barcelos/Esposende e Nordeste. No entanto, apesar de serem suspensas as cirurgias, as consultas oncológicas vão manter-se, indicou.
Ordem dos Médicos diz que eliminar cirurgias ao cancro da mama terá impacto negativo
A Ordem dos Médicos (OM) considera que a proposta da Direção Executiva do SNS (DE-SNS) de restringir o tratamento cirúrgico ao cancro da mama em sete Unidades Locais de Saúde (ULS) terá um impacto negativo nas populações e na qualidade dos cuidados de saúde prestados.
Em comunicado, a OM “lamenta, uma vez mais, não ter sido consultada pela DE-SNS nesta relevante decisão técnico-científica, que surpreendeu os presidentes dos Colégios de Especialidade de Cirurgia Geral, Jorge Paulino, de Ginecologia / Obstetrícia, José Furtado, e de Oncologia Médica, Luís Costa”.
Dando conta de não ter conhecimento do documento, a OM alerta, no entanto, para a “necessidade de garantir a capacidade das Unidades hospitalares para onde serão encaminhados estes doentes, para os receber e tratar, muitas delas atualmente com dificuldades de resposta atempada nesta área”.
Além disso, acrescenta, “o tratamento do doente oncológico não se limita à cirurgia. Há um conjunto de consultas de acompanhamento, de técnicas terapêuticas e de diagnóstico que têm de ser acauteladas”.
“Esta decisão, tomada sem o conhecimento da OM, contribui também para reduzir a acessibilidade das populações, em particular em zonas mais periféricas, onde o acesso a cuidados de saúde diferenciados já é mais reduzido. Penaliza ainda estas populações, obrigando os doentes a deslocações desnecessárias”, afirma.
“Ao eliminar a possibilidade de realizar este tipo de atividade cirúrgica, a DE-SNS está a afastar os médicos especialistas que veem reduzida a sua atividade diferenciada, comprometendo a formação médica completa nestas ULS. Por outro lado, coloca ainda mais pressão sobre os hospitais centrais e distritais”, acrescenta, tendo feito notar que “algumas destas ULS já apresentam limitações em vários serviços e dificuldades em reter médicos, situação que pode ser agravada com esta determinação”.
“Esta decisão surpreende, numa área em que Portugal é um exemplo internacional pelos bons resultados obtidos”, conclui.
