“O território continental encontra-se sujeito a uma seca extrema ou severa”, refere o Governo em texto publicado no Diário da República a 24 de julho. Estes são os últimos dois níveis do índice PDSI (Palmer Drought Severity Index) para períodos secos. Mesmo que tenha o poço cheio e as hortas verdes, o problema é real: a água está a diminuir e o rio Tejo corre mesmo o risco de secar.
O filme “A Queda de Wall Street” termina com uma profecia apocalíptica: Michael Burry, o americano que enriqueceu ao ter previsto o crash do “subprime”, o que originou a crise financeira de 2008, está a investir em água. Um outsider dos investimentos de risco que soube ver o que ninguém viu, ou seja, a partir de onde a crise ia rebentar e como sair a lucrar com ela.
Mesmo que o atual presidente dos EUA defenda que não existe tal coisa como efeito de estufa, o facto é que têm ocorrido ao longo das últimas décadas alterações no clima que conduzem a que, em Portugal, chova cada vez menos, o que origina a diminuição dos lençóis freáticos e, a um nível mais visível, os grandes incêndios.
Portugal está neste momento em seca severa (69,6%) e extrema (9,2%), segundo os dados de julho do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). A 24 de julho, um despacho do Governo publicado em Diário da República dava conta desta circunstância, referindo que o ano hidrológico 2016/2017 se tem caracterizado por “um défice de precipitação, valores das temperaturas média e máxima muito acima do normal”, em particular desde a primavera, com ondas de calor e baixo teor de água no solo e disponibilidades hídricas abaixo das médias de armazenamento.
“Denota-se já nas atividades agrícolas que suportam a alimentação animal, culturas forrageiras e pastagens, quebras de produtividade relevantes, pelo que, em muitas situações, se antecipa o consumo das reservas existentes destinadas ao período estival ou mesmo o desvio para pastoreio de áreas de cereais para grão”, refere o documento.
Com os níveis de água abaixo do normal, o Governo acionou um conjunto de medidas de apoio aos agricultores, uma ajuda que não inclui o Médio Tejo. O Alentejo é até ao momento a região mais afetada pela seca extrema, com carências de água para alimentar vinhas, olivais e os próprios animais.
Não se tendo sentido de forma tão evidente na região, a seca severa e extrema tem originado alguns alertas, sem contar os incêndios, em que um dos fatores favoráveis à grande propagação é exatamente a terra seca. A Águas do Ribatejo, concessionária da água em Torres Novas, lançou mesmo um apelo para que se reduzissem os consumos ao “estritamente necessário” nas aldeias de Pedrógão, Alqueidão, Adofreire, Casal João Dias, Casais Martanes e Almonda. O argumento foi que os níveis freáticos das captações que abastecem estas populações “se encontram com valores anormalmente baixos”.
Esta situação é confirmada por Luís Damas, da Associação de Agricultores dos concelhos de Abrantes , Constância, Sardoal e Mação. “Os lençóis freáticos estão a baixar, já há ribeiros, que nunca secavam, em que já não corre água”, constatou ao mediotejo.net, “mesmo as barragens no sul de Abrantes já estão a níveis preocupantes”. Não havendo tanta água à superfície, dado não ter chovido, “os furos para as regas estão a ir mais abaixo, é mais difícil” captar água e os terrenos estão muito secos. Sem chuva, a previsão é que a situação agrave, afirma.
“A única segurança é o rio Tejo, mas mesmo esse tem tido problemas preocupantes”, comenta, referindo que as mudanças de caudal nem sempre permitem a captação de água. “Há dias em que fica quase seco porque há muita captação a partir do Tejo”, explica, nomeadamente em zonas como Alferrarede ou Constância. Algumas linhas de água têm caudais cada vez mais curtos. Apenas o sistema de rega de Alvega, ligado à barragem de Belver, não tem registado problemas.
“Estamos apreensivos”, admitiu o responsável. O distrito de Santarém está excluído do programa do Governo de apoio aos agricultores devido à seca e é objetivo da associação que estas medidas sejam extensíveis a mais distritos no país, fazendo essa reivindicação por meio da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). “Não faz sentido Ponte de Sôr ter e nós não termos”, constatou.
Sobre a seca no Tejo, Samuel Infante, da Quercus, explicou ao mediotejo.net que esta não se trata de uma situação nova, mas que se tem vindo a agravar. “Espanha não tem deixado passar os caudais, mesmo em anos de seca”, explanou, sendo que em alguns locais do rio, em Espanha, este já secou ao longo de vários quilómetros. Em Portugal, devido às barragens, esta mudança de caudais não tem sido tão notada. Porém “os níveis estão muito baixos”, frisou, “estamos em níveis históricos” com restrições de água a sul do Tejo. “A tendência é que se venha a agravar nos próximos anos”.
Para o responsável, tem que começar a ser cumprida a Diretiva Quadro da Água, que não está a ser respeitada, sobretudo ao nível da monitorização. Poluição, barragens que não estão a funcionar, uso de químicos que escoam para as águas são alguns dos problemas que afetam e “matam” os recursos hídricos já a escassear. Espanha está numa situação mais grave que Portugal, admitiu, mas o país “tem que começar a cuidar deste recurso”.
Ao nível do Ribatejo e Estremadura, o representante da Quercus, Domingos Patacho, referiu ao mediotejo.net que não têm havido queixas de falta de água, mas algumas fontes, uma das quais centenária, estão a secar. Como não tem chovido, o aquífero superficial, que alimenta estes fontanários, está a esgotar-se. “As nascentes estão a ressentir-se, a albufeira de Castelo de Bonde está um pouco abaixo do normal”.
Não sendo a situação tão preocupante como no Alentejo, o responsável deixa o alerta para que haja contenção nos furos e se evite os desperdícios de água.
