Sentada na plateia, discreta como sempre é, a escritora Evelina Gaspar permanecia anónima entre as dezenas de pessoas que assistiam à final da Fase Intermunicipal do Concurso Nacional de Leitura, que decorreu na tarde de segunda-feira, 29 de abril, no Centro Cultural Gil Vicente, no Sardoal. Três alunos do Secundário liam excertos do seu livro “na massa do sangue”, vencedor da 1ª edição do Prémio Literário do Médio Tejo, em 2017, na categoria de Romance.
A autora ia preparada para ouvir as suas palavras na voz daqueles jovens, mas não esperava que eles, ignorando a sua presença, falassem do livro de forma tão apaixonada. Tentando manter-se “invisível”, engolia as lágrimas, e talvez se tenha deixado afundar mais um pouco na cadeira quando Paulo Condessa, escritor e mediador de leitura em escolas de todo o país, elevou ao cubo todos os elogios anteriormente proferidos.

O seu livro era entre os vários que os 89 alunos de todos os concelhos do Médio Tejo foram convidados a ler, acabando por ser o escolhido para as leituras em palco dos alunos do Secundário, do 10º, 11º e 12º anos. Nos outros ciclos de ensino foram escolhidos livros de Ana Meireles, Sophia de Mello Breyner Andresen e Afonso Cruz.
A iniciativa de propor um livro de uma autora da região (cresceu em Tomar e reside em Vila Nova da Barquinha), e que descreve também a vida das gerações anteriores nestes concelhos, partiu de Dulce Figueiredo, diretora da Biblioteca Municipal do Sardoal. “É um livro mais adulto, e talvez mais difícil de ler, mas fazia sentido integrar um livro desta qualidade, premiado no Médio Tejo. Os alunos gostaram muito, elogiaram a escrita, o ‘início impactante’, bem como a importância da mensagem, e recomendaram a sua leitura a todos os outros colegas”, diz.

Só no final da sessão – em que ficaram escolhidos os oito alunos representantes do Médio Tejo na final nacional que decorrerá em Braga, a 25 de maio -, é que um dos membros do júri revelou a presença da escritora, chamando-a ao palco.

Evelina Gaspar agradeceu, com um nó na garganta, e pouco mais disse, pois estava demasiado emocionada. Estas são as palavras que lhe faltaram no momento, e que escreveu na manhã seguinte, a pedido do mediotejo.net.
“Escreve-se porque se não consegue resistir a esse ímpeto que nos estimula a seguir o fio misterioso das palavras em busca de um fim que se desconhece e isolamo-nos de certa maneira do mundo, porque escrever um romance é um processo profundamente solitário que exige entrega e disponibilidade, e mesmo a obediência a algo que se desconhece e que nos subtrai com frequência do convívio com os outros. Fazemo-lo sem saber se essas palavras atrás das quais nos deixamos conduzir, muitas vezes longe do sol, fechados em casa, chegarão a ver a luz do dia. Até que acaba por chegar o momento em que damos, com alívio, o romance enfim por terminado e com alegria vemos que é publicado e bem recebido e julgamos que fizemos o mais difícil. Conseguimos.
Mas um dia colocam-nos perante um grupo de alunos, jovens tão luminosos como aqueles que albergamos em casa e que cingimos ao seio desde que nasceram e ouvimos alguns deles, insuspeitos, ler em voz alta as palavras que parimos nesse desamparado sítio ermo que é o lugar da criação. Dizem de sua justiça, o que pensam do texto e das personagens, sem saberem que eu os escuto, interessadíssima, da segunda fila, emocionada
E quando alguém desvenda a minha presença e me convidam a dizer algumas palavras sobre o romance, sobre o prémio literário, eu, perante aqueles rostos radiosos de juventude cheios de uma tão bela esperança inocente no futuro e nas promessas que este encerra deixo-me tomar pela comoção e calo-me embargada pelas lágrimas. E não digo, como devia ter dito, que continuem sempre a ler pela vida fora, porque os livros não são nenhuns ídolos de pés de barro e têm o potencial de nos tornarem melhores pessoas, mais humanos, e que o que vale mesmo é a força transformadora dos livros e não a fragilidade de quem os escreveu. Viva o livro.”

