O comandante Sub-regional do Médio Tejo, David Lobato, fez um balanço intermédio da atual época de incêndios, sublinhando que a sub-região regista menos ocorrências face à média dos últimos dez anos. O responsável atribui esse resultado a uma postura preventiva de vigilância, à maior consciencialização da população no uso do fogo e a uma estratégia de ataque “forte, rápido e musculado” logo na fase inicial das ignições.
Abrantes, Ourém e Tomar são os concelhos com mais ocorrências. Nas últimas semanas, os bombeiros do Médio Tejo participaram em operações de combate e coordenação em várias zonas do país, enfrentando, segundo Lobato, dificuldades acrescidas pelas condições extremas e pela falta de limpeza em redor dos aglomerados populacionais, fatores que prolongaram os dias de combate.
Para o comandante, os grandes incêndios de elevada violência serão o “novo normal” em Portugal, impulsionados pelas alterações climáticas e pela desertificação do interior, que potenciam os chamados fogos de sexta geração. Lobato revelou ainda que cerca de 50% dos incêndios na região têm origem criminosa, percentagem que considera “muito significativa e preocupante”.
Perante críticas à atuação dos bombeiros, o responsável deixou uma mensagem: “Quero apenas dizer que se fale menos e trabalhe mais, e que, quem fale, tenha o conhecimento suficiente para opinar, porque vamos ouvindo muita gente que não sabe efetivamente do que fala, apenas ocupa espaço e tempo televisivo”.

mediotejo-net – Chegados à última semana de agosto, que leitura faz dos incêndios até agora registados no país, se são dos mais violentos e dos maiores em área ardida, e quais as causas que potenciam esta situação?
David Lobato – A analise que fazemos aos incêndios deste verão, é que de facto são dos mais extremos desde que há registo, a área ardida ainda está a ser contabilizada e as causas são diversas, mas sendo o incendiarismo, a causa negligente mais recorrente e também causas naturais, as mais frequentes.
mediotejo.net – No Médio Tejo parece que, pelo menos até agora, não houve registo de nenhum incêndio de grande dimensão. Há muitas ignições (mais ou menos que em 2024), em que concelhos, e como têm os bombeiros e demais agentes resolvido as diversas ocorrências?
David Lobato – Sim, até ao momento e é de referir que não se fazem balanços a meio da “ Época”, até porque ainda faltam 45 dias para o final da fase mais robusta do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais, e não é bom estarmos a fazer balanços, até porque apesar dos indicadores estatísticos até ao momento serem favoráveis, basta um incêndio para desvirtuar todo o trabalho realizado, e não será por isso que seremos menos ou mais competentes e profissionais no que fazemos e no que fizemos ou no que planeamos até agora. Relativamente à ignições, sim existem menos ignições comparativamente com a média dos últimos 10 anos, mas julgo que também é fruto da consciencialização da população para o uso do fogo, da vigilância apertada efetuada pelas Autoridades Policiais e da sensibilização das comunidades ao nível local ( Juntas de Freguesia, Unidades Locais de Proteção Civil, equipas municipais de vigilância, etc.) promovida e realizada pelos Serviços Municipais de Proteção Civil, nomeadamente nos municípios mais afetados, que continuam a ser Abrantes, Ourém e Tomar.
Temos tido a capacidade de fazer um Ataque Inicial bastante musculado com o Dispostito dos Corpos de Bombeiros, Equipas de Sapadores Florestais, Kits das Juntas de Freguesia, Meios Aéreos de Ataque Inicial com os elementos da UEPS, AFOCELCA, entre outros. Quando temos esta capacidade e não temos múltiplas ocorrências a decorrer em simultâneo, conseguimos esta eficácia (ou seja, por a carne toda no assador). Temos diariamente as Brigadas dos Corpos de Bombeiros e Sapadores Florestais da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo estrategicamente posicionadas, assim como as Equipas de Sapadores Florestais. E isso tem feito a diferença.

mediotejo.net – Foram os bombeiros do Médio Tejo dar apoio a algum dos municípios afectados pelos grandes incêndios? Que corporações (ou quantos bombeiros), onde atuaram, e, no seu caso pessoal, onde esteve no apoio ao comando? Que experiência pode partilhar, como foi a coordenação entre as diversas estruturas de comando das várias regiões, e que ações entende como decisivas para o sucesso ou maior dificuldade na resolução das ocorrências?
David Lobato – Sim, os Bombeiros do Médio Tejo seja no combate direto, seja na Coordenação / Comando estiveram um pouco por todo o país – Ponte da Barca , Vila Real, Satão, Trancoso , Piódão, Lousã, Fundão, Castelo Branco, Covilhã, Nisa, Castelo de Vide, Pedrógão Grande, entre outros locais. Estivemos na Coordenação / Comando em Ponte da Barca, Piódão, Vila Real, Satão, Trancoso, Covilhã e Fundão, com a participação de todos os Corpos de Bombeiros da Sub-região, sem exceção. As dificuldades são as inerentes a grandes operações de Proteção Civil e de Proteção e Socorro, muitos dias de combate, as condições extremas dos Incêndios, a falta de limpeza em torno dos aglomerados, o não termos a capacidade de ter um Bombeiro em cada casa, por mais que fosse desejável, mas não é exequível. A limpeza junto aos aglomerados ou, neste caso, a falta dela torna-se a maior dificuldade, já que não temos a capacidade de colocar meios a combater na linha de fogo, a prioridade e preocupação centra-se na defesa de pessoas e bens. E depois é sempre a correr atras do prejuízo…
mediotejo.net – Foi possível enviar meio de combate e apoio aos municípios em dificuldade e ao mesmo tempo manter a sub-região do Médio Tejo sob controlo e vigilância, em termos operacionais e de recursos humanos?
David Lobato – Temos tido essa capacidade, se não formos tendo muitas ocorrências, é possível ter essa capacidade de gestão, às vezes a arriscar, mas faz parte da equação, o risco…
mediotejonet – Incêndios desta dimensão e violência vão ser o novo normal no país?
David Lobato – Sim, as alterações climáticas, a desertificação do interior são de facto uma realidade…que potencia a ocorrência de mega incêndios, os chamados de sexta geração.

mediotejo.net – Que medidas defende para enfrentar a actual realidade e minimizar os impactos, as ocorrências e os seus efeitos?
David Lobato – Redução de ignições, ações de sensibilização das populações para o uso do fogo, vigilância apertada, gestão da paisagem, criação de contrapartidas para que a floresta seja sustentável , todas já muito faladas por vários especialistas, agora temos de as colocar em prática efetiva. Grande parte das medidas terão que ser implementadas a montante da ocorrência de incêndios, pois já está claro que a capacidade de combate desta tipologia de incêndios é extremamente complexo e humanamente impossível.
mediotejo.net – Na realidade do Médio Tejo, como tem sido a evolução das ocorrências e área ardida desde os grandes incêndios de 2017, que medidas destaca da estratégia que tem montada (e se é igual aos demais comandos), importância das parcerias e dos municípios (e CIM) e o que pode mais ser feito?
David Lobato – A evolução tem sido no geral decrescente tanto na área ardida, como nas ignições, mas como referi apenas um incêndio pode ditar todo o trabalho a perder. A estratégia tem sido planeamento, antecipação, e ataque inicial bastante musculado ( muitas reuniões com os municípios ao nível da CIM, muitas reuniões e planeamento ao nível do centro Coordenador Operacional Sub regional, criação de um Grupo restrito onde é avaliada a evolução, o numero de ocorrências e as causa dos incêndios e as medidas a tomar pelas diversas entidades (GNR, PSP, Policia Judiciária e ICNF), reunião e treinos com os Corpos de Bombeiros e outras entidades com especial dever de cooperação com abrangência a vários temas para além da supressão em si (Comunicações, logística de apoio à operações, gestão das operações)…
mediotejo.net – O fenómeno do incendiarismo é uma realidade preocupante na região e no país? Qual a percentagem de fogo posto nas ignições registadas? É significativa?
David Lobato – 50% dos nossos incêndios ( Médio Tejo), após investigação das autoridades policiais, são classificados como sendo de origem criminosa (intencional), logo, é uma percentagem muito significativa e preocupante.
mediotejo.net – O futuro (e o presente) passa por mais prevenção e pelo reforço dos recursos humanos e dos meios de combate?
David Lobato – Sim, mais limpeza e melhor gestão de combustível junto dos aglomerados urbanos, criação de faixas negras no inverno para termos descontinuidades, tornar a floresta rentável… julgo que os recurso são os suficientes, agora temos de continuar a renovar equipamentos para serem mais modernos, mais seguros, continuar a especializar, a dar mais formação e consciencialização da responsabilidade do proprietário…
mediotejo-net – A limpeza dos terrenos é condição fundamental ou é necessário ir também mais além nas políticas para os territórios do interior? Pergunto se a percentagem de terrenos limpos foi a ideal na região e se é possível e desejável continuar a apostar em reforçar os meios de combate perante fogos desta dimensão ou a solução está mais a montante? Ou não há solução para impedir a ocorrência cada vez mais violenta destes fenómenos? Que se pode fazer?
David Lobato – Se tornarmos a florestal rentável, temos metade dos problemas resolvidos, porque, se for gerida, dificilmente arde. Agora, sim, os incêndios vão ser cada vez mais violentos e difíceis de extinguir, as alterações climáticas são uma realidade. Tivemos 25 dias de condições meteorológicas extremas com os índices de temperatura e humidade no seu extremo.
mediotejo.net – Na praça pública, (tv’s, jornais e fóruns de opinião) as críticas a estes incêndios são muitas, algumas das quais dirigidas aos bombeiros e à proteção civil, que apontam falta de estratégia, planeamento e de coordenação. Que lhe apraz dizer relativamente às críticas que são apontadas e medidas sugeridas, algumas das quais por dirigentes dos representantes dos bombeiros, e que mensagem quer fazer passar aos governantes e aos dirigentes que representam os bombeiros?
David Lobato – Quero apenas dizer que se fale menos e trabalhe mais, e que quem fale, tenha o conhecimento suficiente para opinar, porque vamos ouvindo muita gente que não sabe efetivamente do que fala, apenas ocupa espaço e tempo televisivo…

mediotejo.net – A fechar, peço uma palavra para a população (conselhos/mensagem), e outra para os operacionais que integram as corporações de bombeiros da região e do país, os primeiros na linha da frente da Protecção e socorro de pessoas e bens.
David Lobato – Para a população que mantenha sempre a calma, que cumpra escrupulosamente as indicações das autoridades, que cumpra a legislação em relação as limpezas junto aos aglomerados populacionais, que entenda que não conseguimos ter um Bombeiro à porta de cada um. Que faça o uso do fogo com consciência e quando é autorizado.
Aos operacionais Bombeiros e aos outros operacionais de outras forças, que acima de tudo recordem das condições de segurança, que são necessárias para uma atuação eficiente e eficaz. Que continuem a demonstrar a bravura e o comprometimento de sempre e que os caracteriza, e que apesar das muitas críticas, lembrem-se sempre do compromisso que juraram, aquando da sua entrada”.

Portugal continental tem sido afetado por múltiplos incêndios rurais de grande dimensão desde julho, sobretudo nas regiões Norte e Centro.
Os fogos provocaram quatro mortos, incluindo um bombeiro, e vários feridos, alguns com gravidade, e destruíram total ou parcialmente casas de primeira e segunda habitação, bem como explorações agrícolas e pecuárias e área florestal.
Portugal ativou o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, ao abrigo do qual dispõe de dois aviões Fire Boss, um helicóptero Super Puma e dois aviões Canadair.
Segundo dados oficiais provisórios, até 23 de agosto arderam cerca de 250 mil hectares no país, mais de 57 mil dos quais só no incêndio que teve início em Arganil.
