A requalificação da Colónia Balnear da Nazaré parece estar finalmente a avançar, com o presidente da Associação de Municípios do Vale do Tejo, Paulo Queimado, a querer arrancar com as obras de uma nova colónia nos inícios de 2019. A complementaridade da oferta social com uma unidade hoteleira não está colocada de parte, uma vez que há empresários internacionais a quererem investir. Para já, o enorme edifício no centro histórico da Nazaré parece que vai, por fim, ter um futuro.
Só se tem uma perspetiva real da dimensão e da localização da Colónia Balnear da Nazaré a partir do Sítio. Num momento em que a vila vive um dos seus melhores momentos em termos de procura turística, com novas urbanizações a nascerem ao redor da localidade, as várias centenas de metros quadrados e a vista sobre o mar da antiga colónia da Assembleia Distrital da Santarém abrem o olho a quem quer que pense em negócio.
O espaço, porém, está votado ao abandono e a degradação visível desde que foi encerrado em 2008 (ainda recebeu um grupo de Alcanena em 2009, que teve que limpar e arranjar o espaço) tem feito notícia ao longo da última década. Vandalismo, assalto do património remanescente, refúgio para a toxicodependência compõem o cenário, com o mato a invadir a estrutura, já sem vidros (a maioria partidos) e as portas arrombadas a constituírem o pano de fundo para uma imagem de casa assombrada, conjugada com os traços típicos e um edificiado elegante da arquitetura do Estado Novo.


O edifício tem sido uma dor de cabeça nomeadamente para o presidente da Câmara Municipal da Nazaré, Walter Chicharro. “Nunca deixou a Câmara de Nazaré de manifestar preocupação com este edifício histórico que está num estado de abandono, com fenómenos até de fogo posto recentemente, de roubo e toxicodependência”, adiantou ao mediotejo.net. “Não é aceitável o estado de degradação do edifício”, comentou.
A decadência da estrutura numa zona nobre da vila é uma preocupação permanente, que fez com que o município procurasse soluções junto da Associação de Municípios do Vale do Tejo. “Colocámos a nossa visão. Desde a manutenção da face social, à construção do hotel”, ponderando-se também criar um parque de estacionamento que resolvesse o congestionamento local. “O que nos preocupa é um espaço que não cresce; onde antes estavam 10 pessoas agora estão mil, face ao sucesso que estamos a viver”, explicou sobre a necessidade de mais estacionamento. “Tudo isto tem vindo a ser transmitido”.
Ao que tudo indica, o início da requalificação prometida está para breve. As reuniões mais recentes da Associação de Municípios do Vale do Tejo fizeram eco nas reuniões camarárias do Médio Tejo, o que nos conduziu a contactar o presidente do conselho diretivo da mesma, Paulo Queimado, autarca da Chamusca. “Há vários anos que se debate o futuro do imóvel”, recordou, discutindo-se o destino de todo o terreno e não apenas da colónia.

Das conversas com o município da Nazaré nasceu um projeto prévio, explicou, que previa a construção de mais algumas estruturas, nomeadamente um hotel, um auditório e um parque de estacionamento. Foi esta proposta que Paulo Queimado levou à discussão da associação.
Após análise, ficou decidido avançar com um projeto de requalificação de âmbito social, o foco original da instituição, destinado desde crianças a idosos e aberto todo o ano. Porém, adiantou, “não ficou de parte encontrar um parceiro para a exploração de uma unidade hoteleira”, até porque há investidores nacionais e internacionais interessados no edifício, informação que também foi confirmada por Walter Chicharro.
“Vou ter uma reunião com o presidente da Câmara da Nazaré”, referiu, mas a ideia do hotel, eventualmente mais pequeno que o inicialmente previsto, ficará para uma segunda fase. O objetivo não é acabar com a colónia balnear, explicou, mas permitir que esta funcione junto a uma unidade hoteleira que sirva de fonte de rendimento e sustentabilidade do primeiro projeto.
O financiamento das obras com fundos comunitários também não está completamente deixado de lado, apesar de alguma informação avançada. Conforme constatou Paulo Queimado, o associação é constituída por duas comunidades intermunicipais (Médio Tejo e Lezíria) mais a do Oeste, onde se integra a Nazaré, e duas entidades de turismo (Centro e Alentejo), pelo que ainda se procuram estas alternativas no conjunto de programas possíveis. “O objetivo é concorrer a fundos comunitários e gostaria que no início do próximo ano o projeto de requalificação da Colónia Balnear estivesse a arrancar”, reconheceu.
Questionado se a perspetiva de 2019 não será demasiado ambiciosa, o presidente da Chamusca adiantou que já há muita coisa concluída, nomeadamente o projeto de arquitetura da obra. Neste momento resta verificar se está de acordo com a legislação vigente.
Em termos de orçamento, há um valor prevista de investimento na ordem dos 2 milhões de euros, mas Paulo Queimado alertou que ainda faltam as especialidades da obra para se fechar este número.
O mediotejo.net indagou ainda sobre uma eventual dissolução da Associação de Municípios do Vale do Tejo, noticiada há algum tempo. “Foi uma questão que alguns municípios levantaram porque os projetos não avançavam, mas nunca esteve em risco a dissolução da associação, até porque tem um conjunto de património”, afirmou. Para além da Colónia Balnear, existe ainda o Arquivo Distrital, que permanece a funcionar em Santarém.
Um edifício de raíz social no coração da Nazaré
A ideia do hotel parece atrativa face ao atual contexto social da Nazaré e ao afastamento geográfico da estrutura em relação aos seus concelhos proprietários, mas este é um edifício que durante mais de 60 anos serviu de espaço de lazer às populações mais carenciadas e isoladas do antigo Ribatejo, entre outras que também usufruíram do espaço. Quem nos conta a sua história é Inácio Marta Salgado, antigo diretor da instituição.
“A Colónia Balnear da Nazaré era propriedade da Assembleia Distrital de Santarém, que no passado já se chamou também de Junta de Província do Ribatejo, Junta Geral do Distrito de Santarém e Junta Distrital de Santarém”, enumera. A Assembleia Distrital desenvolvia uma ampla atividade na vertente de solidariedade social em ocupação de tempos livres e reinserção social, para juventude e terceira idade.
O edifício da Colónia Balnear foi inaugurado em 1941 e tinha por objetivo inicial a luta contra a tuberculose, servindo de “Preventório” para cuidados médicos. Gradualmente foi recebendo também crianças de camadas sociais com problemas sociais e económicos para estadias junto ao mar, uma política do Estado Novo na linha da criação das Casas do Povo e das Caixas Sindicais de Previdência.

“De realçar que a logística deste projeto impunha para além dos seus custos de funcionamento, também a vertente de voluntariado de jovens do sexo feminino, com índices etários próximos dos 18 anos de idade «escolhidos» para voluntariamente acompanharem as crianças no seu dia-a-dia. Também e como «colaboradoras» algumas casas agrícolas do Ribatejo «mandavam para férias na Nazaré» jovens ao seu serviço, ou familiares dos que se encontravam ao seu serviço, a fim de cooperarem nas tarefas domésticas da Colónia Balnear”, recorda.
O edifício acolheu ainda, no pós-25 de abril e até 1980, retornados. Após este período recebeu obras de recuperação e ampliação, focando-se a sua função na ocupação de tempos livres para jovens carenciados e com problemas sociais, transformando-se efetivamente na “Colónia Balnear da Nazaré”.
O projeto, salienta, “caracterizou-se por um constante intercâmbio de pedagogias e empreendimentos, entre os municípios e as camadas mais jovens das populações, abarcando para além dos jovens carenciados, com idades compreendidas entre os 8 e 13 anos de idade, também e na qualidade de monitores, jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 25 anos de idade, com formação adequada, ministrada pelos serviços desta Assembleia Distrital e com a cooperação dos que vão granjeando experiência, advinda da sua participação no projeto, que se desenvolve no período compreendido entre o início da segunda quinzena de julho e o fim da primeira quinzena de setembro, regularmente e todos os anos, beneficiando cerca de 100 jovens em cada projeto durante quinze dia, e cerca de 400 por ano”. A partir de 1995 o projeto abre-se também à terceira idade.
Inácio Marta Salgado tem acompanhado a evolução da história da Colónia, tendo procurado colocar-se a par dos últimos desenvolvimentos antes de falar com o mediotejo.net. “É preciso desafiar o impossível”, frisou ao jornal, “com os problemas que existem no Distrito em particular e no País em geral é uma pena que um equipamento desta natureza esteja assim ao abandono, só porque as 21 Câmaras Municipais do Distrito de Santarém não se entendem sobre o método que permita voltar a dar a vida de volta às instalações da Colónia Balnear da Nazaré, de que muita gente usufruiu e muito mais poderão continuar a usufruir”. “A solidariedade, não pode nem deve ser uma palavra vã”.
O antigo responsável argumenta que a Segurança Social também terá uma palavra a dar sobre a situação “e deve ser chamada à cooperação face aos objetivos que se encontram subjacentes ao projeto, na vertente social da juventide e da terceira idade”.
“Espera-se e deseja-se que o entendimento sobre as soluções a adotar, apareça, para que aquela casa possa voltar a ser o que já foi”, referiu. “A sua recuperação seria uma boa prenda, do ano de 2019, especialmente para os mais carenciados”.
