Carlos Amaral Vieira Foto: mediotejo.net

A CELPA – Associação da Indústria Papeleira quer promover junto dos pequenos proprietários as boas práticas da indústria quanto à plantação e manutenção dos eucaliptais, por forma a minimizar algumas das condições que potenciaram os grandes incêndios de 2017. Nomeadamente no apoio à certificação, que aposta numa floresta bem gerida, com diversificação de espécies (barreiras de outras árvores), a manutenção e limpeza dos eucaliptais, assim como a escolha de boas espécies que possam manter o lucro em menos espaço.

Os jornalistas foram convidados a participar num workshop promovido pela CELPA sobre a indústria papeleira e a realidade da floresta em Portugal. Alguns dados são já do conhecimento público, outros nem tanto: 98% da floresta portuguesa está na mão de mais de 400 mil privados, 85% dos quais com menos de três hectares de terreno (três campos de futebol); os 2% de floresta do Estado incluem as matas nacionais, o Pinhal de Leiria, o Gerês, os parques de Sintra e o Buçaco.

Outros dados relativos aos incêndios referem que: 35% do território nacional é constituído por floresta; 25% da área florestal portuguesa é de eucalipto, 23,4% de sobreiros e 23% de pinheiros; 17% do país são matos e 15% pastagens; entre 1995 e 2010 a área de matos/terrenos improdutivos cresceu 302 mil hectares, em resultado do abandono da agricultura.

Em termos económicos, as indústrias de base florestal pesam 9% (4.750 milhões de euros) nas exportações nacionais e representam 2% do PIB; a pasta de papel pesa 53% das exportações das indústrias de base florestal. A Navigator é o terceiro maior exportador nacional, atrás da GALP e da AutoEuropa.

Os associados da CELPA (inclui Renova, Altri, Navigator e Europac) possuem mais de 155 mil hectares dentro dos 812 mil hectares existentes de plantação de eucalipto. Segundo os dados do ICNF apresentados, entre 2000 e 2016, 49% da área ardida foi de matos e pastagens, 14,9% de pinheiro bravo e 13,4% de eucalipto. A falta de ordenamento do território e gestão ativa da floresta, que se encontra maioritariamente sem vigilância, assim como as alterações climatéricas e a desertificação estão entre as causas enumeradas dos incêndios.

Outra informação mencionada no decorrer da sessão é que a indústria de pasta de papel não pode receber madeira queimada.

Com terrenos de minifúndio e a desertificação do país, o eucalipto tem-se revelado o escape natural para obter lucro da propriedade. À margem do workshop, o mediotejo.net falou com o diretor geral da CELPA, Carlos Amaral Vieira, que evidenciou o atual esforço da indústria papeleira para desconstruir mitos e divulgar as boas práticas de plantação junto dos pequenos proprietários.

“Em algumas situações de solo o eucalipto é uma fonte de rendimento importante para uma série de proprietários, que têm poucas alternativas de rendimento”, constatou o responsável. Num período relativamente curto de 10/12 anos o eucalipto está em condições de ser colhido, o que não sucede com outras árvores. No entanto, conforme foi analisado ao longo do workshop, a tendência é a plantação algo arbitrária, sem rigor nem disciplina de gestão e limpeza, o que potencia as condições à propagação de incêndios.

A CELPA criou assim o projeto “Melhor Eucalipto”, co-financiando pelo Portugal 2020, que tem como objetivo a divulgação das boas práticas de plantação de eucalipto e a sua gestão coordenada, por forma a obter melhores resultados de forma mais responsável.

“A indústria [papeleira] com este projeto Melhor Eucalipto pretende partilhar de forma não arrogante, não professoral, aquilo que ela própria aprendeu nos últimos 20/30 anos sobre a silvicultura do eucalipto”, explicou Carlos Amaral Vieira.

“Muitas destas práticas são também aplicáveis a outros tipos de silvicultura, permitindo obter melhor produtividade. Porque em muitas zonas do interior onde o solo é pobre e as alternativas na agricultura ou noutras espécies florestais são muito poucas, o problema da produtividade é muito agudo”, afirmou.

Gerindo melhor o “povoamento” florestal é possível passar de médias de produtividade de nove metros cúbicos em cada hectare por ano para 20 metros cúbicos, constatou. Com a nova legislação que condiciona a expansão da área de eucalipto, será preciso saber aproveitar melhor o espaço e produzir mais.

“Daí a importância de fazer chegar aos proprietários, aos produtores, aos técnicos florestais das câmaras municipais, aos gabinetes florestais, este conhecimento e este apoio técnico, partilhando como se deve escolher a planta, que análise se deve fazer ao solo, que adubos se devem utilizar, em que quantidade e em que momento da vida do povoamento, como combater pragas e doenças, como se deve remover a matéria florestal que está a competir com as árvores no solo (pela água, pelos alimentos, pela luz solar)” e também a potenciar os incêndios, porque seca e torna-se uma fonte de combustível.

Carlos Amaral Vieira destaca  que a indústria papeleira pretende inclusive prestar apoio financeiramente, nomeadamente na certificação florestal e na adubação. “Os grandes objetivos que deviam nortear a reforma da floresta deviam ser o aumento da produtividade, obter mais madeira na mesma área”, e a “certificação florestal”, um plano que garante “que os povoamentos são geridos cumprindo regras”, em termos do tipo de adubo, limpeza e plantação de diversidade florestal, e que é alvo de auditorias.

A madeira certificada, salienta, recebe inclusive um prémio monetário quando é vendida às fábricas.

“Isso é trabalhoso, mas é recompensador. É uma forma de arrumar a casa e obter um preço melhorado aquando a entrega da madeira na fábrica”, frisou. “Uma forma de disciplina”.

Outro tema referido na sessão é a concordância e o apoio da indústria papeleira à formação de cooperativas florestais ou associações de proprietários, das quais as Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) já são disso exemplo. Em Portugal existe um grande apego à propriedade que inibe o desenvolvimento destes projetos, mas Carlos Amaral Vieira enumera as vantagens.

Mediante a criação de uma associação deste tipo, o proprietário mantém-se dono da terra, mas obtém uma gestão partilhada, certificação comum, custos partilhados e um rendimento final. “Uma forma de gestão florestal associada é fundamental para a nossa micro propriedade”, defende, acreditando que o Governo possa vir a dar estímulos para este tipo de associações.

Na zona do Médio Tejo existem propriedades florestais da Altri e da Navigator, adiantou.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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