O presidente da Câmara Municipal de Tomar, Tiago Carrão, fez esta segunda-feira um ponto de situação detalhado sobre os efeitos da tempestade Kristin no concelho, quase duas semanas após a sua passagem, sublinhando o forte impacto humano e material e admitindo que o processo de recuperação ainda está longe de concluído.
Durante a reunião do executivo municipal, o autarca começou por reconhecer que “têm sido dias muito difíceis” para muitas famílias, empresas, associações e freguesias, deixando uma palavra de solidariedade a todos os afetados.
Apesar dos esforços desenvolvidos, Tiago Carrão admitiu que ainda existem pessoas sem energia elétrica e habitações com danos significativos, reforçando que o município “tem plena consciência das dificuldades que ainda persistem”.
Segundo o presidente, o município ativou desde o primeiro momento todos os mecanismos ao seu alcance, num contexto excecional que levou à declaração do estado de calamidade. O Plano Municipal de Proteção Civil foi ativado às 8h10 do dia 28 de janeiro e mantém-se em vigor, com o posto de comando operacional instalado nas salas de sessões do edifício municipal.
Desde as 5h00 da manhã desse dia e até às 00h00 de domingo, foram registadas 723 ocorrências, número que o autarca considera inferior à realidade devido às falhas de comunicações nos primeiros dias. Destas ocorrências, 313 estiveram relacionadas com quedas de árvores, 150 com colocação de lonas e danos em telhados, 68 com desabamentos, 53 com inundações, 20 com quedas de postes e 121 com outras situações, como sinalização de vias ou abastecimento de água.
Tiago Carrão destacou o trabalho “incansável” dos serviços municipais, nomeadamente da Proteção Civil, Bombeiros Municipais, Obras Municipais e Serviços Sociais, referindo que muitos trabalhadores ultrapassaram, em média, as 70 horas de trabalho extraordinário.
O agradecimento foi extensivo às juntas de freguesia, cujos eleitos e colaboradores estiveram no terreno desde as primeiras horas, bem como às forças de segurança, ao Regimento de Infantaria 15, ao ICNF, à Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, à Tejo Ambiente, a corporações de bombeiros de outros concelhos e aos voluntários.
No terreno estiveram, além dos Bombeiros de Tomar, equipas dos Bombeiros do Entroncamento e de Torres Novas, brigadas de sapadores florestais, grupos de bombeiros da área de Lisboa e equipas do Exército. Atualmente, continuam a operar no concelho equipas de bombeiros e militares com plataformas elevatórias, com prioridade no apoio à primeira habitação, numa fase marcada por chuva persistente.

Ao nível da rede elétrica, um dos principais constrangimentos ainda existentes, foram afetados mais de 380 quilómetros de linhas de média tensão, com mais de 40 unidades de média tensão e mais de 200 de baixa tensão derrubadas. Apesar dos trabalhos em curso, existem ainda cerca de mil clientes sem energia elétrica.
Estão instalados 13 geradores em vários pontos do concelho para apoiar temporariamente as famílias, num cenário que Tiago Carrão classificou como “realmente complexo”, com postes derrubados e árvores emaranhadas nos cabos. No pico dos trabalhos estiveram mais de 70 técnicos da E-Redes no concelho, mantendo-se atualmente cerca de 40 no terreno.
Foi também criada uma unidade de missão específica para acompanhar os pedidos relacionados com danos na primeira habitação. Até ao momento foram registadas 585 ocorrências, das quais cerca de 395 dizem respeito a habitações. As equipas técnicas já visitaram todas as freguesias para avaliação dos estragos, estando atualmente a decorrer intervenções de emergência e reparações definitivas sempre que possível.
No balanço apresentado, o presidente da Câmara referiu ainda intervenções em 16 edifícios escolares, dezenas de habitações, 12 edifícios e equipamentos municipais, incluindo o pavilhão municipal, o Pavilhão Patrícia Sampaio, o Complexo Desportivo, a Sinagoga e centros de saúde, bem como mais de 146 intervenções no arvoredo. Foram limpos mais de 250 quilómetros de vias, 200 com recurso a maquinaria pesada contratada, tendo os serviços municipais consumido mais de seis mil litros de gasóleo.
No plano social, foi necessário realojar 20 famílias, através de soluções familiares ou disponibilizadas pelo município. Foram ainda servidas mais de 600 refeições, realizados mais de 200 banhos quentes no Complexo Desportivo Municipal, disponibilizado apoio psicológico, espaços de coworking e biblioteca para quem ficou sem condições em casa, criada uma bolsa de voluntariado com quase 200 inscritos e ativados vários mecanismos de apoio, incluindo formulários de reporte de danos, apoio a candidaturas da CCDR e esclarecimentos sobre seguros.


Tiago Carrão sublinhou que, apesar de a situação estar “mais estabilizada”, o processo está longe de encerrado, prevendo-se ainda semanas ou meses de trabalho. O município entra agora numa nova fase, mais planeada e focada na reparação dos danos e na preparação do futuro, com a criação do programa municipal “Recuperar Tomar”, que será brevemente apresentado e incluirá medidas de apoio a famílias, empresas, associações e instituições.
O autarca defendeu ainda que esta experiência deve servir de reflexão coletiva sobre a adaptação às alterações climáticas, a resiliência das infraestruturas e a capacidade de resposta local, garantindo que o município continuará focado em apoiar quem foi afetado e em preparar melhor o futuro do concelho.
Intervenção social de Tomar acompanhou mais de uma centena de habitações e realojou dezenas de pessoas
A vice-presidente da Câmara Municipal de Tomar, Célia Bonet, deu conta do trabalho desenvolvido pela equipa de intervenção social do município na sequência da tempestade Kristin, sublinhando que a resposta no terreno teve início logo no dia 28 de janeiro, pelas 9h00 da manhã.
De acordo com a autarca, a prioridade inicial passou pela visita às pessoas já referenciadas pelo município como vivendo em habitações precárias ou com fragilidades estruturais. “Já existe no município essa referenciação e, por isso, a nossa equipa de intervenção social começou de imediato, com várias equipas, a fazer esse acompanhamento”, explicou.
À medida que foram chegando pedidos de ajuda através dos presidentes de junta de freguesia, a intervenção social passou a acompanhar as situações consideradas mais graves, abrangendo todas as freguesias do concelho afetadas pela tempestade. Até ao momento, foi realizado o levantamento de 120 habitações.
Célia Bonet referiu que várias pessoas tiveram de ser encaminhadas para apoio alimentar devido à falta de energia elétrica, que impossibilitava a confeção de refeições. No total, 42 pessoas foram deslocadas para soluções alternativas de habitação, sendo que 34 acabaram por ser encaminhadas para unidades hospitalares por motivos de saúde, associados à ausência de eletricidade.
Foram ainda registadas 22 pessoas desalojadas, que foram acolhidas em diferentes respostas disponíveis no concelho. A vice-presidente garantiu que “todas as pessoas que necessitaram de ser alojadas tiveram essa resposta”.
No plano do apoio psicológico, foi acionada a Associação de Saúde Mental do Médio Tejo, estando também a ser sinalizados idosos para acompanhamento através do projeto “CAST+Perto”. A autarca deu ainda conta de algumas situações em que famílias recusaram abandonar as suas habitações, apesar do risco de desabamento identificado. “Não temos possibilidade legal de obrigar as pessoas a sair de casa”, explicou, acrescentando que, nesses casos, foram realizadas intervenções para minimizar os perigos existentes.
Célia Bonet deixou ainda um apelo à solidariedade entre os tomarenses e entre as próprias juntas de freguesia, reconhecendo que algumas zonas do concelho foram particularmente afetadas. Reforçou, por fim, que a área social do município continua disponível para apoiar todas as pessoas que necessitem e solicitem ajuda, sublinhando a importância do envolvimento da comunidade para que o apoio chegue efetivamente a quem mais precisa.
Hugo Cristóvão aponta falhas na articulação inicial e defende ativação mais célere da Proteção Civil
O vereador da oposição na Câmara Municipal de Tomar, Hugo Cristóvão, eleito pelo Partido Socialista, considerou que a resposta municipal à tempestade Kristin nem sempre correu da melhor forma, sobretudo nas primeiras horas e nos primeiros dias após o impacto do fenómeno meteorológico.
Segundo o autarca, algumas dificuldades poderão ter resultado de “alguma inexperiência”, ressalvando, no entanto, que não se pode exigir experiência “a quem não a tem”. Ainda assim, defendeu que uma maior articulação desde o início poderia ter contribuído para uma resposta mais eficaz, sublinhando que os serviços municipais dispõem de “muita experiência acumulada” e que os planos de atuação estão previamente definidos.
Hugo Cristóvão reconheceu a dimensão excecional da calamidade, admitindo que a escala dos acontecimentos foi particularmente elevada, mas considerou que essa realidade tornava ainda mais importante a definição clara de prioridades e de um plano de atuação bem estruturado. Nesse sentido, apontou como falha o facto de a Comissão Municipal de Proteção Civil, tanto quanto é do seu conhecimento público, só ter reunido na sexta-feira seguinte ao evento.
Na sua perspetiva, a reunião imediata da Comissão Municipal de Proteção Civil deveria ter sido uma das primeiras medidas adotadas. “A primeira obrigação do presidente de Câmara, enquanto primeiro responsável pela proteção civil no território, é reunir imediatamente a Comissão Municipal de Proteção Civil quando algo desta natureza acontece”, afirmou, defendendo que esse órgão é fundamental para, em conjunto com os serviços e as restantes entidades, fazer o ponto de situação, definir meios, articular recursos, estabelecer prioridades e ajustar continuamente os planos de ação.
O vereador socialista considerou ainda que deveria ter sido criado, logo no dia seguinte à tempestade, um gabinete de crise, composto por algumas chefias diretamente envolvidas no trabalho no terreno, eventualmente com o apoio de outras entidades externas. Esse gabinete teria como objetivo apoiar o presidente da Câmara na articulação da resposta e tornar mais fluida a tomada de decisões num contexto de elevada exigência operacional.
Hugo Cristóvão sublinhou, por fim, a importância crescente da Proteção Civil ao nível municipal, afirmando que este tipo de ocorrências demonstra que se trata de uma necessidade cada vez maior. Nesse enquadramento, recordou o investimento realizado nos últimos anos na área da Proteção Civil, nomeadamente no reforço de efetivos e de profissionais, considerando essencial que esses recursos sejam plenamente mobilizados e coordenados em situações de emergência.
A passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta em Portugal provocou a destruição de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, além de 15 mortos e centenas de feridos e desalojados.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo têm sido as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
